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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 6 a 12 de novembro de 2017.

Entre as diversas reedições recentes de «Sonetos Completos» de Antero de Quental, registamos a que tem o prefácio de Ana Maria Almeida Martins (Artes e Letras, Ponta Delgada, 2016).

LAPIDAR EPÍGRAFE…

Com inteira razão e oportunidade, a cuidada edição a que nos referimos é antecedida por uma lapidar epígrafe de Eduardo Lourenço, onde este afirma que “não há na nossa literatura, nem mesmo Camões, poeta tão naturalmente universal como Antero de Quental, dada a natureza ideal e intemporal da sua inspiração e o conflito que a alimenta, pura interpelação do espírito sobre si mesmo no meio de um mundo incompreensível”. Não é difícil de explicar esta consideração, que corresponde, antes do mais, ao veemente apelo de Antero, em Coimbra, na questão do Bom Senso e do Bom Gosto, sobre a necessidade de viver com ideias, à exigência da compreensão de que um velho Portugal morria definitivamente, bem como ao espírito das Conferências Democráticas de 1871, cujos promotores pretendiam pôr Portugal ao ritmo da cultura europeia. Nesses momentos, houve a consciência plena que se iniciava um novo capítulo na cultura portuguesa. Antero pensava, de facto, não como se estivesse confinado a uma insularidade periférica (a portuguesa), mas segundo o direito próprio de ser um cidadão e um pensador europeu e do mundo do seu tempo – não limitado às nossas fronteiras. Essa era a preocupação fundamental e a atitude do grupo de jovens intelectuais que antecipou a inexorabilidade de uma presença futura entre as nações civilizadas, com uma forte consciência da evolução e da justiça. Longe de uma realidade confinada ou de qualquer ideia identitária, do que se tratava, neste carácter “naturalmente universal”, era de considerar a humanidade como compreensão das diferenças, dos conflitos, dos interesses e das complementaridades. A racionalidade e a sensibilidade emocional estão, assim, claramente presentes na modernidade da poesia de Antero e dos seus. Oliveira Martins, no fundamental prefácio, fala-nos de “um helenismo coroado por um budismo”, na fórmula usada pelo próprio poeta. Mas o crítico acrescenta: “pobre humanidade, se se visse condenada à coroação budista! Nós europeus, incapazes de nos sujeitarmos ao regime da contemplação inerte, sofreríamos as agonias, experimentaríamos as aflições do poeta que, tendo no peito um coração ativo, tem na cabeça uma imaginação mística, e, para obedecer ao pensamento, tortura o coração, sem poder também esmagá-lo sob o mando da inteligência”.

RAZÃO, IRMÃ DO AMOR E DA JUSTIÇA

Afinal, esta mesma tensão é aquela que existe e que sentimos entre os autores e as referências fundamentais da cultura europeia (de Goethe a Shopenhauer). No entanto, em Antero e na geração dita de 1870 do que se tratou foi de abrir novos horizontes – buscando uma visão capaz de superar as limitações e as fragilidades de uma realidade nacional considerada periférica. E assim ouvimos: “Razão, irmã do Amor e da Justiça / Mais uma vez escuta a minha prece. / É a voz dum coração que te apetece, / Duma alma livre só a ti submissa”. Dir-se-á, contudo, que só a morte espreita (“Morte! Irmã do Amor e da Verdade”), mas é mais do que isso, sendo certo que essa perspetiva não tira à visão de conjunto a importância conformadora. E o filósofo “há de aliar à compreensão da nulidade extrínseca das coisas a compreensão da sua excelência intrínseca (diz O.M.); exigindo que o homem seja ativo, porque a atividade é boa por ser indispensável à saúde do espírito, embora os objetos da atividade sejam as mais das vezes írritos e nulos, quando considerados em si próprios e isoladamente”… Aí se apartavam os dois inseparáveis amigos do budismo, indo até ao Inconsciente de Hartmann (“O espetro familiar que anda comigo, / sem que pudesse ainda ver-lhe o rosto, / Que umas vezes encaro com desgosto / E outras muitas ansioso espreito e sigo”). “É loucura pensar que jamais possamos definir o Absoluto. Cada qual sente-o a seu modo, segundo o seu temperamento, e sábio é aquele que se limita a registar as relações das coisas”. E é nesta relação com o agir – e Antero considerava Oliveira Martins nesse ponto seu complemento natural – que encontramos a capacidade singular de uma geração que lançou sementes de futuro. Daí a consideração do prefaciador: “quem, emergindo dos montões de papelada que as imprensas vomitam diariamente, deitar os olhos sobre estas páginas, e não sentir o deslumbramento que os diamantes produzem, é porque a sua vista se embaciou com o exame dos livros grosseiros em todo o sentido, e a sua língua perdeu o hábito de falar português”.

ANSEIO DE ETERNIDADE

Ao recordarmos quem chamou ao poeta maior “santo Antero”, vem à lembrança o que Tolstoi anotou no seu diário no dia 15 de março de 1889 (perante a tradução alemã dos «Sonetos» por Wilhelm Storck, antecedida da carta autobiográfica) concordando o genial russo com Antero sobre o seu conceito de liberdade, apenas plenamente alcançável pela santidade, através da renúncia a todo o egoísmo. Mas, não podemos deixar de lembrar Miguel de Unamuno e o seu “sentimento trágico da vida”, tão chegado a Antero, e só compreensível plenamente em diálogo com essa poesia: “Quental há sido una de las almas más atormentadas por sed de infinito, por el hambre de eternidad. Hay sonetos suyos que vivirán cuanto viva la memoria de las gentes”… E ao invocarmos dois dos maiores escritores de dimensão universal fazemos a demonstração cabal do universalismo anteriano, que o tempo se tem encarregado de confirmar plenamente. A ligação entre Camões, Antero e Pessoa que Eduardo Lourenço tornou inequívoca – confirmada pelos mais significativos poetas contemporâneos, como Ruy Belo e Sophia de Mello Breyner Andresen – projeta-se globalmente. E foi exatamente Ruy Belo quem disse: “Antero foi possivelmente o maior pensador português dos tempos modernos. Não importa que não tenha dito a última palavra, por circunstâncias a que a doença não terá sido alheia. Até o seu silêncio pesa mais do que as palavras de muitos palradores contemporâneos. E quando fala e a sua voz chega até nós, não já com aquele calor que punha nas conversas com os amigos, mas gramaticalmente organizada, travamos conhecimento com um dos momentos mais altos da prosa portuguesa”.      

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 06 de novembro de 2017