A Vida dos Livros

De 16 a 22 de outubro de 2017.

Portugueses do Brasil e Brasileiros de Portugal (Oficina do Livro, 2016), de Leonor Xavier, não pode passar despercebido, uma vez que através da palavra de figuras marcantes do mundo da língua portuguesa podemos compreender como as nossas diferenças de um lado e doutro do Atlântico possuem virtualidades que o tempo se encarregará de aprofundar.

PORTUGAL E BRASIL

Há muito para fazer e sobretudo importa evitar que alguns lugares comuns agravem equívocos e mal-entendidos. Sem nos deixarmos influenciar por perturbações ou nuvens negras momentâneas, a verdade é que falamos de uma língua em expansão no próximo século e de uma afirmação cultural previsivelmente de grande riqueza. Naturalmente que não basta seguir as projeções demográficas lineares, sobretudo na América do Sul e em África, uma vez que há muito para fazer na inovação, no conhecimento, na educação, na ciência e na cultura – com atenção para a Europa e para uma história global relacionada com todos os continentes. Tudo isto para dizer que o diálogo de Portugal com o Brasil tem uma importância significativa, muito para além do velho comércio da saudade. Este pequeno livro de Leonor Xavier é, nesta perspetiva, um precioso conjunto de ideias para despertar uma cultura plural, aberta, diversa, disponível para a inovação e avessa a qualquer paternalismo ou autossuficiência. Longe de providencialismos, do que se trata, como nos tem dito Eduardo Lourenço, é de partir das limitações e imperfeições para um humanismo universalista – que Jaime Cortesão magistralmente defendeu.

ENRAIZADAMENTE BRASILEIRO

João Cabral de Melo Neto recordava, no seu diálogo com a autora, como Jorge Amado e José Saramago são diferentes – um enraizadamente brasileiro, o outro português (em Tocaia Grande e O Ano da Morte de Ricardo Reis) – mas o leitor estrangeiro “sentirá que eles se movem num país comum, que é a língua, e a gente esquece que o facto de dois países falarem a mesma língua é coisa importante, com as diferenças que possa haver”. E acrescenta: “no sul do Brasil, do Rio para sul, há uma quantidade de emigrações, isso faz que o Brasil seja um país muito diferente de Portugal, sociologicamente. Mas há uma área de entendimento, que vem da língua ser comum”. João Cabral era nordestino, pernambucano, e com a idade foi-se tornando mais próximo das raízes portuguesas, no contexto de uma extraordinária complementaridade. E, dando o exemplo de Morte e Vida Severina, João Cabral lembra que os portugueses tinham facilidade em identificar algumas palavras que resultavam difíceis para os estudantes paulistas. Mas se é assim no léxico, na prosódia o português do Rio é mais próximo de Portugal do que o do Nordeste. As coisas evoluem natural e contraditoriamente. Por isso, o diplomata confessava nunca ter sido muito ativo na propaganda da cultura brasileira, entre outras coisas porque acreditava que a cultura, ninguém a propaga… O importante seria a criação em si, haver informação, circulação de ideias e de pessoas. Isso é mais útil e eficaz do que grandes teorias e programas. O nosso querido Alberto da Costa e Silva lembra que até aos anos 40 o livro português chegava ao Brasil. A Amarante no Piauí, às margens do rio Parnaíba, donde era seu pai, poeta e leitor de António Nobre, Cesário Verde e Antero de Quental, chegavam os nossos poetas. A ideia do movimento e da circulação é fundamental. “Eu acho que uma política da língua interessa a todos os países onde se fala o português, porque ele fortalece a nossa presença no mundo. Nós seremos nos séculos vindouros aquilo que for a nossa língua”. E a educação merece um lugar mais relevante no diálogo e no intercâmbio. “A parte do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil nos seus curricula é diminuta. Quer dizer, nós somos afetuosamente autodidatas uns em relação aos outros, o que é ótimo, porque revela a proximidade em que nos encontramos”. Mas falta algo mais quanto às nossas coisas comuns: “estudando um pouco o Brasil, você conhece melhor Portugal, sendo a recíproca verdadeira. É importante conhecer um pouco do outro lado do rosto que se vê”… E Nemésio já se queixava da míngua de estudos brasileiros aqui…

GRAÇAS À LÍNGUA PORTUGUESA

Nelida Piñon afirma que “graças à língua portuguesa” é uma cosmopolita e que “numa viagem à Galiza”, descobriu que em criança “falava português do século XI”. Que extraordinário encontro entre o futuro e as raízes… E Elza Gomes, atriz celebrada, inventou que Portugal é um pai, “é aquele respeito, aquele rigor” e o Brasil “uma mãe, porque é esta liberdade toda”. Carlos Drummond de Andrade, olha para diante: “a língua portuguesa é tão rica, tão variada, que ela comporta perfeitamente essa diferença do seu uso em Portugal e no Brasil, e acredito também em Angola e na África em geral. Há de haver variantes impregnadas do sentimento local (…). Eu não creio que a língua sofra com isso, não”. E não tem dúvida de que há “uma nuance brasileira na língua portuguesa. Eu não posso conceber um escritor brasileiro que não conheça a literatura portuguesa”… E recordo uma inesquecível visita a Itabira, à casa da infância de Drummond, na companhia de Leonor Xavier – em cujo encontro esteve bem presente o extraordinário génio criador do poeta, que bem compreendeu a plasticidade de uma língua de diálogos. «Não há falta na ausência, / A ausência é um estar em mim»… Caetano Veloso lembra como sentiu um sentimento afetuoso ao chegar a Portugal. “Tudo me emocionava, não só a beleza arquitetónica, mas sobretudo as pessoas falando. O sotaque e o modo de o português tratar a gente. Eu gosto muito daquela coisa gentil, é um formalismo doce, muito gentil, muito bem-educado”… Por seu lado, António Alçada Baptista (quantas vezes lhe ouvi isso) deixa claro que se não tivesse estado no Brasil, teria perdido muito de si – “hoje, acredito de verdade que a minha pátria é a minha língua, e aqui (no Brasil) falo português”… Em síntese, para Leonor Xavier, apesar da ligação da língua, somos irmãos separados à nascença – “diferentes no entendimento do mundo, nos rituais da vida e da morte, no traçado da condição humana”. Metaforicamente, Agostinho da Silva invoca o exemplo de Pessoa: “Eu quero é saber quem era o Fernando Pessoa. Era uma centelha de deus criador ou era vários? Era um molho de gente?”. No fundo, há uma chave a entender: “A chegada ao Brasil é a coisa mais importante que o português fez, porque demonstrou que sabia navegar para qualquer parte”… A paixão da terra liga-se à saudade de Portugal. Agostinho falava de “saudades construtivas do Brasil”. “Portugal tem de se renovar, de se restaurar, de maneira que possamos sair sem ser a fugir”. Por isso, temos muito que aprender uns com os outros, portugueses e brasileiros, sobre o que nos aproxima e separa, somos quem somos na diferença e na comunidade. Não alimentemos ilusões – a língua comum, obriga a entender a diversidade de culturas, que se enriquecem mutuamente.

Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

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