Home Sobre nós Serviços Novos sócios Bolsas Mecenas Contactos English Français
"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

MAIS DO QUE UM ANO, UMA ATITUDE…

Artigo da autoria de Guilherme d'Oliveira Martins 
publicado na revista Visão - edição 1277 de 23 de agosto de 2017

O património cultural não é um conceito fechado e estático. Estamos a falar de monumentos, de sítios, de objetos com valor histórico, de acervos de museus, bibliotecas e arquivos, de tradições, de referências. Reportamo-nos à memória viva, como a língua ou a ciência. Mas, fundamentalmente, tratamos de conhecimentos, de cultura e de humanidade… Ter memória é respeitarmo-nos, é estudar a História e conhecer as raízes. Cuidar do que recebemos é dar atenção, é não deixar ao abandono, é conhecer, estudar, investigar, proteger e conservar. E o certo é que na transição para a era digital ou sob a pressão ambiental e perante o risco da especulação financeira ou urbana, prevenindo e combatendo o tráfico ilícito de bens culturais, devemos promover o património em ligação com a diversidade cultural, o diálogo entre culturas e a coesão social. Acresce ainda o contributo económico do património cultural para o desenvolvimento e temos de salientar o papel do património cultural nas relações internacionais, desde a prevenção de conflitos à construção da paz com atenção à reconciliação e à recuperação de património destruído. O Ano Europeu do Património Cultural, em 2018, decidido pela União Europeia, visa sensibilizar para a história e os valores europeus e reforçar o sentimento de uma identidade europeia, aberta e inteligente, considerando a preservação do que é próprio em diálogo com as outras culturas.

Na linha da Convenção de Faro, do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea, assinada em outubro de 2005 e entrada em vigor em 2011, a preocupação fundamental é reforçar a noção de património cultural comum e de construir um conceito de responsabilidade partilhada – envolvendo património construído e material, património imaterial e a criação contemporânea. Quantas épocas, artistas, artífices e estilos envolveu a Sé de Braga? E lembremo-nos dos alertas de Garrett contra o desmazelo e a desatenção a que estavam votados os monumentos de Santarém? E como não lembrar como os cidadãos cultos de Évora salvaram as suas muralhas contra a lógica dos patos-bravos? As políticas públicas de cultura modernas devem assentar no cuidado da herança e da memória. De facto, o património cultural não se refere apenas ao passado, mas à permanência de valores comuns, à salvaguarda das diferenças e ao respeito do que é próprio, do que se refere aos outros e do que é herança comum. Como compreenderemos uma civilização, europeia ou outra, sem o estudo e o diálogo entre a tradição e o progresso, sem o entendimento das suas raízes culturais e religiosas? Urge compreender que o que tem mais valor é o que não tem preço. Nem tudo se pode comprar ou vender. Só o cuidado do património cultural permite assumirmos uma cidadania civilizada.

A decisão de considerar o ano de 2018 como consagrado ao Património Cultural não é um ato qualquer, constitui um marco emblemático no momento em que há tantas incertezas e ameaças para um projeto europeu de paz, de hospitalidade, de entreajuda, de desenvolvimento sustentável e de defesa da diversidade cultural. Estão em causa a cidadania livre e responsável; a soberania partilhada; a união de Estados livres e soberanos; a democracia supranacional; a subsidiariedade; a cultura da paz e o desenvolvimento orientado para a dignidade da pessoa humana. A cegueira dos ganhos fáceis, a memória das guerras e da intolerância, a emergência dos seus riscos obrigam-nos a defender uma atitude responsável de prevenção, que só poderá ser duradoura se à dimensão económica soubermos aliar a expressão cultural e cívica, com a qual poderemos tecer a liberdade, a igualdade, a coesão, a justiça distributiva, a equidade inter-geracional, a sustentabilidade e o primado da aprendizagem e do conhecimento. Eis por que este Ano deve constituir-se em desafio para que as políticas culturais articulem as iniciativas do Estado e da sociedade, liguem a proteção do património, a aprendizagem séria, a educação artística, a liberdade criativa e a responsabilidade cívica.

 

Guilherme d’Oliveira Martins