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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 10 a 16 de julho de 2017.

A exposição do Museu Nacional de Arqueologia intitulada “Loulé: Territórios, Memórias, Identidades”, com coordenação de António Carvalho, Dália Paulo e Rui de Almeida, constitui uma oportunidade única para tomarmos contacto com o riquíssimo passado do Sudoeste Ibérico, uma das zonas da Europa mais ricas em termos arqueológicos, em razão de estarmos numa encruzilhada de povos e de influências, que muito tem para contar…  

PARTIR DO PIONEIRISMO

O trabalho pioneiro de Estácio da Veiga (1828-1891) tem de ser lembrado, quando visitamos a exposição do Museu Nacional de Arqueologia intitulada “Loulé: Territórios, Memórias, Identidades” (como dissemos com a competente coordenação de António Carvalho, Dália Paulo e Rui de Almeida). Partindo da riqueza histórica e patrimonial algarvia, como encruzilhada entre o Mediterrâneo e o Atlântico, temos um conjunto de informações, materiais e conhecimentos, inicialmente destinados a um Museu Arqueológico do Algarve. Estamos diante de uma narrativa que conta a evolução das comunidades que constituíram o cadinho deste extremo ocidente mediterrânico, desde a Pré-História à Idade Média, a partir de vestígios arqueológicos e fontes documentais recolhidos e conservados ao longo do tempo, com persistência e rigor científico. Como diz Lídia Jorge: “Aqui tudo fala de um tempo antes da História, em que a África estava unida à Europa, e ao mesmo tempo tudo esconde. Depois, muito mais tarde, quando as ervas deram flores, e já existiam homens para colhê-las, levas sucessivas de povos do mundo pré-histórico aqui vieram fixar-se, porque ali havia terra boa, sol brilhante e mar tranquilo, e era após era, foram deixando o rasto das suas mãos fabricadoras no solo generoso que habitaram. Hoje, passados milhares de anos, o movimento é semelhante…”. Estas palavras são as de quem ama e lembram aquele pequeno azulejo com que meus avós acolhiam os forasteiros: “Bem-vindo seja quem vier por bem”. Ao encontrar agora Joaquim Romero Magalhães, lembrei-me das conversas com seu Pai, a invocar a terra vermelha que acolhe a cultura destes campos de fecundidade exigente, as memórias antigas de muitas gerações de gentes diversas e heterogéneas, para quem a rede de pesca e o arado, a proa da embarcação de inspiração grega e fenícia, a açoteia e a nora se complementam naturalmente, de modo milenar e as identidades abertas capazes de unir e complementar judeus, cristãos e árabes, na riquíssima herança moçárabe.

DESDE AS MAIS ANTIGAS RAÍZES

Das antigas sociedades camponesas, entre 6 mil e 2 mil antes da nossa era, encontramos a bilha da Retorta (Boliqueime), os menires do Serro das Pedras, o sítio do Forte Novo, o povoado do Cerro do Castelo de Corte João Marques (Ameixial) com uma instimável riqueza desde a cerâmica e pedra à metalurgia do cobre. Para a Idade do bronze, apesar da míngua de elementos, temos da necrópole da Vinha do Casão (Vilamoura) cerâmicas, artefactos metálicos e de pedra. Na Idade do ferro, temos os fantásticos vestígios da cultura que possuía uma forma de escrita gravada sobre estelas, a escrita do Sudoeste, derivada do alfabeto fenício, cuja decifração constitui grande desafio para os dias de hoje. É a “pedra com letras que não se dá conta de ler”, de que o povo fala. No tempo do império romano instalam-se as villae e propriedades agrícolas, que vão permitir a ligação dos produtos da terra aos preparados de peixe, exportados em ânforas de barro. Para este tempo, o Cerro da Vila (Quarteira) é um caso de requinte e progresso (lembremos a belíssima cabeça feminina de mármore dos séculos II-III d.C.). Depois, bizantinos, visigodos e árabes continuarão aqui, com novas culturas, para além da oliveira, como a alfarrobeira, a figueira ou a laranjeira. E, na chamada Vila Moura, que deu origem ao moderno topónimo, foram encontradas esculturas, mosaicos, vidros, cerâmica fina, lucernas e adornos femininos.

QUINHENTOS ANOS…

Os povos de língua árabe estiveram 500 anos no Algarve, mas continua a haver um grande desconhecimento da sua influência. Loulé não tem uma matriz romana, mas muçulmana – daí o processo lento da sua construção. As cidades de influência moura ou árabe ou nascem da vontade política ou de uma dinâmica local. No caso de Loulé prevalece a riqueza agrícola do barrocal e, como Tavira, singulariza-se pela dimensão mercantil – daí abranger as três zonas algarvias e ter das principais vias usadas pelos almocreves em direção ao Alentejo. Agricultores, pescadores, mercadores movimentavam-se intensamente no maior concelho meridional. Sinal de progresso está nos banhos árabes de Loulé, para lazer e purificação do corpo, a que se refere a poesia árabe, que demonstram estar-se em Madinat al-‘Ulyà no auge da época almóada (séculos XII-XIII) muito para além da economia de subsistência. É uma identidade aberta a que aqui se encontra… No século XI, Loulé ainda era uma aldeia ou alcaria que se desenvolveu num vasto território com 45 por cento de serra xistosa e de mato, 40 por cento de barrocal calcário e 15 por cento de litoral. E se Loulé não tem porto, o litoral permitiu o contacto com as navegações de fenícios, gregos, cartagineses, romanos e normandos. Os pescadores algarvios irão nas caravelas e o Morgado de Quarteira servirá de laboratório para as ilhas Atlânticas a cultura da cana-de-açúcar. Compreende-se a afirmação de Orlando Ribeiro: “A civilização mediterrânica é (…) uma civilização da pedra, consequência da intimidade do homem com este elemento, que ora elimina nas terras de cultura ora utiliza na maior parte das suas obras materiais; daí o carácter construído da paisagem mediterrânica, tanto nas formas de povoamento como na organização do campo”. Ora, a pedra usada em valados, muros de suporte e de resguardo, caminhos, pontes, aquedutos, forro de poços é um precioso elo com a longa duração. A cada passo descobrimos vestígios antigos, onde se manifesta a sobreposição de gerações e de tempos. “Mas o Algarve não é o jardim do Éden” – ensinava ainda Mestre Orlando. “Olhe-se como os campos e os arvoredos estão encerrados por afloramentos de calcário estéril. Repare-se como, por toda a parte, os muros de pedra, as belas sebes de opúncias, a casa esparsa e o entrecruzar de caminhos, mostram até que ponto a terra está ocupada”. Foi a fragmentação dos reinos taifas que facilitou a reconquista cristã… O Al-Gharb do Al-Andaluz compunha-se de distritos militares (Faro e depois Silves), comarcas civis e rurais, casais e aldeias (alcarias), cidades amuralhadas e castelos, de pedra ou de taipa. O Mediterrâneo funcionou como ponto de encontro, como zona de intenso relacionamento do Oriente e do Ocidente, que se interpenetram. Aqui encontramos as cerâmicas finas da Gália, o azeite de Sevilha, o preparado de peixe da Bética – e daqui saem os figos secos, as amêndoas e as laranjas… Isto, enquanto culturalmente o moçarabismo permite o diálogo fecundo entre judeus, cristãos e árabes – sendo a Península Ibérica, com Constantinopla, eixo da renovação do pensamento europeu, graças ao progresso técnico vindo da Ásia, através do Levante, e à redescoberta da filosofia grega. Perante este repositório apaixonante de referências antigas, desde as raízes aos tempos de memória mais próxima, “de todos recebemos pedaços da história local, regional, nacional e todos, todos, são Loulé”. 

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 10 de julho de 2017