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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 3 a 9 de julho de 2017.

Quando António Nobre publicou em Paris, em 1892, «Só», a poesia portuguesa deparou-se com uma obra única, difícil de definir, com reminiscências românticas, pendor melancólico, um sinal nitidamente simbolista e uma originalidade que a liga à criatividade da língua, de acordo com sensibilidade popular de Garrett e Júlio Dinis.

SENTIMENTO TRÁGICO

Poucos poetas assumiram tão íntima e pessoalmente o drama de um povo, caído na contradição suprema de ter um passado glorioso e um presente sujeito à humilhação. O «Ultimato» inglês resume esse momento dramático de incapacidade nacional, que se projeta nas angústias individuais. Conhecedor das novas correntes literárias, António Nobre não segue um simbolismo de escola ou de cartilha. Prolonga a tradição lírica, vinda dos trovadores, de Bernardim Ribeiro e sublimada em Camões, e procura na genuína língua portuguesa uma interpretação própria, baseada num diálogo melancólico, que articula a história trágico-marítima e o sentimento contraditório da saudade. E no desenvolver de um diálogo vital que o poeta se singulariza. «Georges, anda ver o meu país de Marinheiros, / O meu país das naus, de esquadras e de frotas! / Oh as lanchas dos poveiros / A saírem a barra, entre ondas de gaivotas! / Que estranho é! / Fincam o remo na água, até que o remo torça, / À espera de maré, / Que não tarda aí, avisa-se lá fora! / E quando a onda vem, fincando-o a toda a força, / Clamam todas à uma: "Agôra! agôra! Âgora" / E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo / (Às vezes, sabe deus, para não mais entrar...) / Que vista admirável! Que lindo! Que lindo / Içam a vela, quando já não têm mar: / Dá-lhes o Vento e todas, à porfia, / Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas, / rosário de velas, que o vento desafia, / A rezar, a rezar a Ladainha das Lanchas: / Senhora Nagonia! / Olha acolá! / Que linda vai com o seu erro de ortografia... / Quem me dera ir lá! / Senhora Daguarda!». Dir-se-ia que nesta passagem se ilustra a razão de ser de uma independência e de um coração aberto – de lembrança e desejo, gosto e amargura, «mal de que se gosta e bem de que se padece», na expressão de Francisco Manuel. O «Só» é o livro mais triste que houve em Portugal – mas como compreender a sua oportunidade, quando Garrett e Júlio Dinis, que Nobre tanto admirava, souberam pôr em comum paradoxalmente a melancolia e a genuína alegria dos dias solarengos? E quando se travaram de razões Ílhavos e Bordas-de-Água – foi o mar que prevaleceu sobre o toiro, no testemunho de Garrett - «os campinos ficaram cabisbaixos; e o público imparcial aplaudiu por esta vez a oposição, e o Vouga triunfou do Tejo». Não está em causa o reconhecimento para ambos, mas a importância maior de enfrentar as vagas implacáveis, para cuidar da vida e da sobrevivência.

O MAR E A VONTADE DOS PORTUGUESES

O mar e a vontade dos portugueses são as razões da nossa independência para Alexandre Herculano. No entanto, o fim do século XIX trouxera-nos a triste consciência de que tudo agora parecia vão. Unamuno chamou-nos «país de suicidas», impressionado com o momento dramático de contradições supremas. Era um excesso simplificador, que o mestre de Salamanca amenizou considerando a metáfora do purgatório. António Nobre é símbolo dessa estranha e singular circunstância. «…Saudade! Saudade! Palavra tão triste / E ouvi-la faz bem: / Meu caro Garrett, tu bem a sentiste, / Melhor que ninguém…». Muitas vezes deparamo-nos com esse trágico cruel do autor do «Sentimento Trágico da Vida» e temos consciência de que há aí uma certa injustiça. Mas, ao lermos, o autor de «Lusitânia no Bairro Latino» parece-nos que podemos compreender, com as limitações naturais… Depois das ilusões sobre como se poderia chegar à civilizada Europa, a dívida pública, a periferia, a instabilidade, a incerteza prevaleciam. «Amigos! Que desgraça ter nascido em Portugal». Urgia romper com o fatalismo. Antero de Quental traçara a linha que definira a fronteira da decadência, mas num grito de alerta recusara o fatalismo do destino. E se Unamuno fala de uma tendência suicida (de Camilo, Soares dos Reis, Antero e Laranjeira), também aponta para a existência de um século de ouro português e nesse ponto foi profético, pois descobriu energias escondidas, que funcionaram como uma pulsão de Renascença… E António Nobre simboliza a ambiguidade da tristeza e da revolta, num crescendo de dor («Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Cala, ó Job os teus ais / Que os tem maiores este filho de seus Pais»)… Do que trata é de maximizar a melancolia, como exercício de exorcismo que procura dar sentido á «terra encantada, cheia de Sol», aos campanários, às luas-cheias, à lavadeira, às ermidas, aos sinos das aldeias, à ceifeira que cega cantando, ao moleiro das estradas, aos carros de bois, chiando, às flores dos campos, aos beiços de fadas, aos poentes de julho, aos choupos, aos luares e às regas de verão… No fundo, há vida para além da dor. Há contradição? Garrett dissera que Camões tivera a desventura de não ser romântico. Muitos demos graças aos céus pelo anacronismo. António Nobre quis-se intérprete de um momento trágico e a sua vida e a sua poesia misturam um drama existencial e uma experiência coletiva. Não há contradição – há, sim, exacerbamento da melancolia, como marca de emancipação. E o sebastianismo funciona, não como justificação da inércia do destino, mas como exigência de superação da decadência e da desistência. Como José Carlos Seabra Pereira tem salientado, a geração de 90, em que Nobre se insere, assume o combate do positivismo e do naturalismo pela inquietação metafísica, e assim procura considerar os mitos como meios libertadores pela crítica. Daí o carácter contraditório da poética do «Só». E Unamuno, mais do que simplificar sobre o que Portugal seria verdadeiramente, fala-nos de um «Purgatório de almas» e nele de uma ânsia libertadora. É disso que se trata quando deparamos com a dramaturgia de António Nobre.     

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 03 de julho de 2017