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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

Morreu Maria Helena da Rocha Pereira, especialista em Estudos Clássicos

Foi a primeira mulher a doutorar-se na Universidade de Coimbra, onde foi também a primeira professora catedrática. Tinha 91 anos.
Maria Helena da Rocha Pereira em 2001 - Paulo Ricca/Arquivo
Maria Helena da Rocha Pereira, considerada a mais conceituada especialista portuguesa em Estudos Clássicos, morreu nesta segunda-feira aos 91 anos, revelou ao PÚBLICO uma fonte da família.

Nascida em 1925, no Porto, foi a primeira mulher doutorada pela Universidade de Coimbra, em 1956, instituição onde leccionou até se jubilar, em 1995. Foi também a primeira professora catedrática daquela universidade. A sua obra abrange mais de 300 trabalhos, entre livros e artigos, publicados em Portugal e no estrangeiro.

Alunos e colaboradores com quem o PÚBLICO tem vindo a falar ao longo desta manhã distinguem a sua dedicação ao ensino, a "competência extrema" e o "rigor absoluto" que colocava em tudo o que fazia e que procurava transmitir aos milhares e milhares de alunos que passaram pelas suas mãos. "Coragem" é outra das palavras que Frederico Lourenço, tradutor e professor de Grego na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, usa para se referir a Rocha Pereira, dando como exemplo a sua formação inglesa, na década de 1950.

“É incrível pensarmos que ela, uma menina do Porto, parte sozinha naquela altura para estudar em Oxford, quando quem saía, raríssimos, o fazia para Paris... Uma mulher no Portugal do Estado Novo, fechado a tudo, numa área dominada por homens. Foi precisa uma enorme coragem, determinação, vontade de aprender, coisas que a Maria Helena da Rocha Pereira teve toda a vida”, diz Lourenço.

A sua ligação aos estudos clássicos que se faziam no Reino Unido e também na Alemanha – “ela falava muito bem alemão desde criança e isso ajudou muitíssimo porque lhe deu acesso a fontes que muitos não liam por não estarem traduzidas” – permitiram abrir Portugal nesta área, defende o também escritor de 54 anos, Prémio Pessoa 2016.

Lourenço nunca a teve como professora porque estudou em Lisboa, mas leu muito do que ela escreveu e contou com Maria Helena da Rocha Pereira no júri do seu doutoramento. “Havia um certo terror quando se sabia que a professora Rocha Pereira fazia parte do júri, simplesmente porque ela era de uma exigência extraordinária, em primeiro lugar consigo mesma, e depois com os outros.”

A catedrática da Universidade de Coimbra, há muito jubilada, acompanhava o que o autor ia fazendo e, embora não tivessem grande contacto pessoal, chegava a mandar-lhe cartões de felicitações por esta ou aquela obra.

Para Lourenço, tradutor de textos clássicos como Odisseia Ilíada, Rocha Pereira é um exemplo de dedicação à cultura e ao ensino, que via como um verdadeiro “sacerdócio”. Entre as muitas obras fundamentais que deixou, salienta a tradução de A República, de Platão (Gulbenkian, já na 14.ª edição). “A professora Rocha Pereira dá-nos uma panorâmica extraordinária da cultura grega ao traduzir a Hélade, Sófocles, Eurípedes, mas a mais fantástica é, na minha opinião, A República. É uma tradução que vai ficar para sempre porque é de uma imensa qualidade. E estamos a falar de um texto que é dificílimo de traduzir porque obriga a conhecimentos de grego muito exigentes e a um enquadramento filosófico muito sério.”

Como o PÚBLICO destacava em 2006, quando venceu o prémio Universidade de Coimbra, Maria Helena da Rocha Pereira estudou também as influências clássicas na literatura e cultura portuguesas, analisando inúmeros poetas - de Camões a Pessoa, passando por Camilo e Torga, entre muitos outros. Trabalho recolhido nos volumes Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1972), Novos Ensaios sobre Temas Clássicos na Poesia Portuguesa (1982) e Portugal e a Herança Clássica e Outros Textos (2003). O latim medieval também foi alvo da sua investigação, reunida no volume Pedro Hispano: Obras Médicas (1973), Vida e Milagres de São Rosendo (1970), Vida de Santa Senhorinha (1970) e Vida de São Teotónio (1987).

A arte grega, e em especial, a pintura de vasos, foi outra das áreas que mereceram a atenção de Rocha Pereira, traduzida no livro Greek Vases in Portugal, do qual resultou a descoberta de um novo artista, designado por Pintor de Lisboa. Já os grandes autores gregos e latinos têm sido um dos aspetos mais relevantes da sua atividade. Dela resultaram duas antologias, uma de textos gregos e outra de textos latinos, respetivamente a Hélade e a Romana; Ájax (2003) e Antígona, de Sófocles (1958); Medeia (1955), Troianas (1996) e Bacantes (1992), de Eurípides; Sete Odes, de Píndaro (2003) e A República, de Platão.

Rocha Pereira ocupou os cargos de vice-reitora da UC, presidente Conselho Científico da Faculdade de Letras e diretora das revistas Humanitas Biblos. Foi distinguida com o Prémio de Ensaio do Pen Club (1988), a Grã-Cruz da Ordem de Santiago de Espada e o Prémio Eduardo Lourenço. Faz ainda parte de várias academias e sociedades científicas, nacionais e estrangeiras. Em 2010, recebeu o Prémio Vida Literária APE.

As cerimónias fúnebres de Maria Helena da Rocha Pereira realizam-se a partir das 15h de terça-feira na Igreja da Lapa, no Porto.

O CNC apresenta sentidas condolências à família e à Universidade de Coimbra.


in Jornal Público | 10 de abril de 2017
Notícia no âmbito da parceria Centro Nacional de Cultura | Jornal Público
Edição: 10 de abril de 2017