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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 27 de março a 2 de abril de 2017.

«O Essencial sobre Teixeira de Pascoaes» (INCM, 1999) de Maria das Graças Moreira de Sá constitui uma excelente síntese sobre uma das figuras mais complexas e mais ricas da cultura portuguesa do século XX, tantas vezes mal compreendido e alvo de simplificações ilegítimas.

PERSONALIDADE MARCANTE

A coleção «O essencial» da Imprensa Nacional – Casa da Moeda é um exemplo da boa pedagogia e da elaboração de sínteses cuidadas e exigentes, nas quais prevalece a preocupação de tornar a cultura acessível a todos. Lembramo-nos da Biblioteca Breve do velho ICALP e de outros breviários de qualidade que constituíram bons exemplos que devem continuar a ser seguidos. Neste caso de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), estamos diante de um caso paradigmático, em que a autora em menos de sessenta páginas nos apresenta toda a riqueza e complexidade da vida e obra de uma das personalidades mais marcantes da vida cultural portuguesa na primeira metade do século passado. Antes do mais, referimo-nos a um poeta dos mais influentes, mas simultaneamente tratamos de alguém que no movimento da «Renascença Portuguesa» e na revista «Águia» abriu a porta, muito para além do que subjetivamente poderia prever, para uma profunda renovação da vida cultural e literária portuguesa. Uma Renascença não poderia ser simples regresso ao passado, mas a consideração de que as nações pequenas só podem contrariar as tendências absorventes das grandes nações através do «carácter e originalidade do seu espírito criador». Pascoaes combateu, nessa linha, o estrangeirismo desnacionalizador e apontou a necessidade de cuidar da originalidade portuguesa – na confluência da herança europeia, céltica, greco-romana, germânica, e da influência de fenícios, cartagineses, judeus e árabes, tendo como pano de fundo o cristianismo. «Quem ler alguns dos nossos grandes escritores, sobretudo Camões e Bernardim, nos tempos antigos, e nos tempos modernos, Camilo e António Nobre, vê que a sua sensibilidade é, por assim dizer, dualista: tem alma e corpo; vibra ante a forma e o Espírito, ao mesmo tempo e com a mesma energia. Quero dizer: a emoção destes escritores nasce do contacto das suas almas humanas com a parte material e espiritual das cousas ou dos seres contemplados; e desses dois contactos resulta uma só impressão que é o seu sentimento». Daí a articulação, muito evidente em Pascoaes, entre o paganismo greco-romano (culto do corpo) com o Cristianismo judaico (culto do espírito). Unamuno fala, assim, da cultura portuguesa como um encontro do lirismo e da história trágico-marítima. E a Renascença Portuguesa enquanto impulso para diversos caminhos vai aprofundar, através da geração de 1890, o que os homens de 1870 tinham desejado e aquilo por que tinham lutado. Se lermos bem «As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares» de Antero de Quental, facilmente percebemos que as suas preocupações pressupõem uma ideia de «Renascimento». A noção de decadência aí não é um caminho sem saída, é um apelo a que o sebastianismo (prova póstuma da nacionalidade) não se torne um reconhecimento de impotência, dando lugar a uma vontade libertadora. Não se esqueça, pois, que a resposta de Pascoaes não é exclusiva, ao lado dela temos o modernismo de «Orpheu», com as suas diversas «nuances», de Alberto Caeiro e Álvaro de Campos até ao ortónimo de Fernando Pessoa, sem esquecer Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e etc., e depois a «Presença» e o riquíssimo movimento poético dos mais jovens (os «Cadernos de Poesia» e o que se seguiu) e a «Seara Nova», nas suas várias sensibilidades, de Sérgio, Cortesão, Proença até Raul Brandão. Dir-se-ia que a renovação ansiada por Pascoaes veio a realizar-se da maneira fecunda, multiforme, plena de diferenças e complementaridades, com um programa aberto e ciente de que o novo tempo obrigaria a cultivar o sentido crítico, a compreensão dos mitos para além de uma lógica redutora.

ENTRE O SONHO E O MITO
Pode dizer-se ainda que o «heterodoxo» Eduardo Lourenço irá compreender que o sonho e o mito deveriam estar presentes e não poderiam ser esquecidos ou subalternizados – antes tendo de funcionar, não como explicação retrospetiva, mas como ligação necessária entre a sensibilidade e a racionalidade. A aventura poética e espiritual preconizada por Teixeira de Pascoaes tornou-se, assim, um desafio não redutor. E Jacinto do Prado Coelho refere que o uso da ironia pelo poeta (em especial nas últimas obras) visava «corrigir a excessiva convicção com que se acredita, nimbar a fé ou o mito duma lógica dinamizante, (…) e, por outro lado, denunciar o ridículo de tudo quanto, no homem, é hirto, convencional, tacanhez e rotina». Quando Mário Cesariny de Vasconcelos considera Teixeira de Pascoaes como poeta maior do nosso Olimpo acima de Fernando Pessoa, quando António Sérgio grande crítico do saudosismo não deixa de reconhecer o talento indiscutível do poeta ou quando o próprio Fernando Pessoa coloca o poeta num lugar proeminente – na «busca de uma Índia nova, que não existe no espaço e em que as naus são construídas ‘daquilo que os sonhos são feitos’» - muitos põem o autor de «Marânus» num lugar especial nas letras portuguesas. E Eduardo Lourenço afirma que «o verbo de Pascoaes rasura ou dissolve a nossa pequenez objetiva, onde enraízam todos os temores pelo nosso futuro e identidade, instalando Portugal, literalmente falando, fora do mundo e fazendo desse estar fora do mundo a essência mesma da realidade» - não havendo na nossa literatura diálogo-combate mais fundo e complexo que o que entrelaça as aventuras poético-espirituais de Pessoa e Pascoaes» (cf. «O Labirinto da Saudade»). A poesia é conhecimento, filosofia, religião, profecia e o seu universo imaginário pressupõe uma «multiplicidade de centros de forças». E assim, para Maria das Graças Moreira de Sá, estamos perante um poeta da sombra, mais do que do dia claro ou das trevas. Daí ter de se entender a saudade não como um estereotipo simplificador, mas como uma encontro complexo de elementos contraditórios e paradoxais. Trata-se de um sentimento simultâneo de falência e de plenitude. Duarte Nunes do Leão fala sobre a saudade de lembrança de alguma coisa com o desejo dela e Garrett liga um gosto amargo ao delicioso pungir… A saudade é necessariamente contraditória. E que é a vida? «Para agir é preciso ser antes de tudo». Há, pois, um caminho que envolve a compreensão da abertura e da complexidade, do sentimento e da razão, de modo que se possa ir à conquista do Futuro… Tendo procurado encontrar o fundo do nosso espírito e reclamando uma «Renascença», essencialmente prospetiva, como Vieira falara de saudades do futuro, Pascoaes pôs em funcionamento uma espécie de lâmpada de Aladino, deu asas à sua imaginação poética, reclamou a força criadora, explorou o sentimento complexo da saudade, mas de facto pôde fazer da revista «Águia» uma incubadora da inovação cultural…

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 27 de março de 2017