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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 2 a 8 de janeiro de 2017

A publicação de «Obra Poética – Volume I» de Ruy Cinatti (Assírio e Alvim, 2016) editada por Luís Manuel Gaspar, com Joana Matos Frias e Peter Stilwell, constitui oportunidade para reencontrarmos a escrita de um dos autores portugueses mais interessantes do século XX, pela diversidade das suas experiências com expressão literária e por uma inesperada riqueza espiritual. E não podemos esquecer a ligação muito próxima do poeta ao Centro Nacional de Cultura e aos seus fundadores, desde muito cedo.

«A POESIA É SÓ UMA!»

Os «Cadernos de Poesia» iniciados no ano em que a revista «Presença» deixou de se publicar (1940) foram marcados por alguns dos nomes que mais se destacaram no panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século XX – como Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade. Sob o lema «A Poesia é só uma», os poetas dos «Cadernos» foram, na expressão de Fernando J.B. Martinho, dos que em Portugal no século XX mais de aproximaram de «uma ideia de poesia pura, pela qualidade objetual, de “ícone verbal”, que sempre, dentro da melhor tradição simbolista, atribuíram ao poema». E nessa perspetiva não deixaram de associar o trabalho estético e a dimensão ética – numa defesa persistente da liberdade. Junto destes poetas, encontramos Ruy Cinatti (1915-1986), que integrou a direção dos «Cadernos» nas suas três séries (com José Blanc de Portugal e Tomás Kim, todos recordados pelo CNC a seu tempo no CCB). Cinatti foi, ainda segundo F. Martinho, «poeta “nómada” como a si próprio se viu, numa errância que privilegiou os espaços de aventura ultramarina portuguesa, com destaque para Timor de que o seu nome é indissociável, quer na lírica celebratória quer na que é, depois da ocupação indonésia, ensombrada pela pungência da tragédia». Ora é a poesia deste místico que agora é de novo reunida, num esforço notável e meritório, permitindo aos seus leitores uma visão de conjunto de uma obra rica e multifacetada, na qual se sente, a cada passo, a projeção da cultura da língua portuguesa no mundo. E essa projeção surge num rico diálogo com outras visões e tradições – naquilo que podemos designar como uma interpenetração entre o gosto da aventura e a tentativa persistente de compreensão dos outros. Trata-se de um altruísmo poético, que talvez nos faça compreender o porquê de os portugueses estarem em toda a parte no mundo, sabendo responder diversamente aos múltiplos desafios. Jorge de Sena falará do «intervalo em que te aceitas outro / precisamente quando mais te julgam tu»… Pode dizer-se, pois, que não se trata apenas de adaptação, mas de encontro e de síntese. «Houve mares onde todos se encontraram, / Houve praias e ilhas de naufrágio, / Houve e haverá secretas margens / Onde a carne esfacelada implora e vive / Pedaços de mim próprio, irmanados / A algas e corais do fim do mundo». Assim, a hospitalidade funciona em dois sentidos – como capacidade de acolher e de ser acolhido, de receber e de estar disponível para dar alguma coisa da nossa diferença. É, no fundo, a disposição sentimental que importa entender, assim como a ternura, a invocação do amor, humano e divino. E, sendo a vida «toda mistério», é a procura permanente, a constante insatisfação e a insaciável busca de novos horizontes que se impõem. Em «Nós não Somos deste Mundo» (1941), em «Anoitecendo a Vida Recomeça (1942) ou em «O Livro do Nómada Meu Amigo» (1958) sentimos um «existencialismo metafísico», referido por Pedro Mexia, que nos leva a um encontro permanente entre «eu» e o «mundo», trilhando caminhos incertos, nos quais se cruzam o lamento e a ironia, o afeto e a compreensão das coisas, desde a natureza até ao quotidiano próximo.

UM POETA DA SIMPLICIDADE

«Dele esperávamos que nos revelasse mais do que a verdade intelectual, a verdade espiritual e o verdadeiro caminho da vida. Era o nosso guru» - disse Sophia de Mello Breyner a Peter Stilwell quando este escreveu a sua fundamental tese sobre Cinatti. Francisco Sousa Tavares confirma esta ideia, dizendo: «Ninguém poderá jamais imaginar alguém como Cinatti, a sua generosidade, a sua alegria, o seu entusiamo pela música, pela poesia e pelos outros»… E isto mesmo se nota na sua obra poética, sobretudo na fase de maturidade. E este primeiro volume traz-nos momentos muito ricos de talento e de criatividade. A poesia e a vida misturavam-se, naturalmente. E se a vivência poética obrigava ao domínio da palavra e à interrogação do mistério, a verdade é que em Cinatti encontramos a vivência de um ideal que procura constituir-se em sementeira de ideias e de valores. A iniciativa da revista «Aventura», visando abrir horizontes novos, insere-se nessa intenção… E, não por acaso, Ruben A. inspirar-se-á no nosso poeta (como exemplo sonhador) para criar a personagem do Cavaleiro de «A Torre da Barbela» - porque «sem liberdade a poesia não vale a pena, e o resto também não». E, deste modo, percebemos que «Para se ser poeta é preciso ser-se simples / Como eram simples os elementos naturais / Antes de Deus fazer misturas»… Cinatti vive poeticamente Portugal pelo mundo repartido – não como um projeto uniforme ou dominador, mas como uma encruzilhada de diversas influências e encontros. E não esconde, a um tempo e paradoxalmente, desânimo e admiração – elogia Baltazar Lopes e Amílcar Cabral, recorda tradições antigas, paisagens, experiências, um pouco por toda a parte, mas repugna-lhe a indiferença e a tentação simplificadora. Em «O Tédio Recompensado» (1968) ou em «O Borda-d’Alma» (1970) ironiza com a «paz dos podres», fala de «ultras» e «sinistros», não compreende uma sociedade acomodada e incapaz de audácias… E no encerrar de uma relação amorável connosco próprios diz-nos: «Eis que retorno à terra de ninguém, / à minha triste pátria angustiada, / para com ela celebrar alguém / num novo ano pleno de jornada / e cantarei a chuva anunciada / e o fogo fruste e o que lembrado / alumiar ensimesmadas faces / e outras de tenra profecia. / O mito grava, a palavra ofende. / A noite desce, a manhã ascende»…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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