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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 3 a 9 de Outubro de 2005

Recife e Olinda. As memórias não se apagam facilmente - as pinturas de Franz Post, os engenhos de açúcar, os portugueses e os holandeses. No campo de Guararapes, vimos o teatro das batalhas que devolveram a Portugal o domínio da terra. E na Rua dos Judeus ou do Bom Jesus, fomos à primeira Sinagoga das Américas ou ao que resta dela.

REFLEXÃO DA SEMANA
De 3 a 9 de Outubro de 2005

Recife e Olinda. As memórias não se apagam facilmente - as pinturas de Franz Post, os engenhos de açúcar, os portugueses e os holandeses. No campo de Guararapes, vimos o teatro das batalhas que devolveram a Portugal o domínio da terra. E na Rua dos Judeus ou do Bom Jesus, fomos à primeira Sinagoga das Américas ou ao que resta dela. Aqui ensinou Isaac Aboab da Fonseca, vindo de Amesterdão, para acompanhar as seiscentas famílias de sefarditas portugueses, vindas em busca de riqueza e de paz. Era o tempo do alemão Maurício de Nassau (1637-44). Mas, em 1654, depois da Restauração Pernambucana, ao contrário do que desejaria o Padre António Vieira, estes judeus de origem portuguesa tiveram de partir apressadamente, nos navios disponíveis. E se estavam no Novo Mundo, continuaram a sua diáspora e foram até Nova Amesterdão, à contemporânea Nova Iorque. O projecto de Zahal Zur Israel exigiu remover centenas de toneladas de entulho, mas hoje o Centro Cultural Judaico de Pernambuco lembra a verdadeira história e apela à memória em nome do entendimento. E do Recife histórico, fomos às origens, a Olinda, lugar com diferentes camadas de monumentos e sinais. O fantasma do Padre António Vieira seguiu-nos e connosco encontrou-se com um seu sucessor que invocámos afectuosamente. E esse sucessor de ideias e de determinação foi o Arcebispo D. Hélder Câmara. Sete colinas, cidade antiga. O altar-mor de S. Bento, que esteve no Museu Guggenheim, a talha dourada como fantástica ligação de elementos de origens diversas, em que o barroco é um encontro da Europa com os trópicos, à mistura com o orientalismo, como aconteceu com a natureza, que os portugueses puseram no cadinho e voltaram a dar. O conjunto franciscano destaca-se – com a Igreja de Nossa Senhora das Neves e o Convento – e, mais acima, a Igreja do Salvador do Mundo, a Catedral, onde está sepultado D. Hélder, donde, de facto, se vê o mundo. E o velho Senado, o Mercado de Escravos, a Casa mítica de Branca Dias, com Miguel Real sem mãos a medir para corresponder às saudações. Tudo está lá. E regressados ao Recife, “lá longe o sertãozinho de Caxangá”, pudemos ao jantar, com a voz poética de Augusto Lopes Cardoso e a ajuda de João Queiroz, a ler António Alçada Baptista, chamar até nós o orixã benigno de Manuel Bandeira. “Não a Mauritsstad dos armadores da Índias Ocidentais”. E logo: “Fogo em Santo António! / Outro contrariava: S. José! Totónio Rodrigues achava sempre que era S. José”. E, mesmo sem querer, nesse dia, concordámos com o poeta: “Vou-me embora p’ra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei…”. E no Gabinete Português de Leitura, lá estavam velhos amigos desaparecidos, entre livros, memórias e lembranças, amigos de muitos anos na biblioteca de Jordão Emerenciano, que, para mim, foi durante o tempo da infância o símbolo vivo do Brasil…