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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 29 de Agosto a 4 de Setembro de 2005

George Steiner reuniu as conferências que fez na Universidade de Harvard no ano lectivo 2001-2002 sob o título sugestivo de As Lições dos Mestres (Gradiva, 2005). Aí deparamo-nos com uma riquíssima reflexão, cheia de elegantes e oportunas referências eruditas (...)

REFLEXÃO DA SEMANA
De 29 a 4 de Setembro de 2005

George Steiner reuniu as conferências que fez na Universidade de Harvard no ano lectivo 2001-2002 sob o título sugestivo de As Lições dos Mestres (Gradiva, 2005). Aí deparamo-nos com uma riquíssima reflexão, cheia de elegantes e oportunas referências eruditas, sobre a complexa relação entre mestres e discípulos, que nos coloca no cerne da arte de educar e de “cuidar”. «Não fui ter com o Maggid para ouvir a Tora, recorda o Rabino Leib, mas para ver como é que ele desata os seus sapatos de feltro e os volta a atar». G.Steiner analisa a importância dos ensinamentos como lições de vida e de exemplo - «a alma ensina continuamente mas nunca se repete». E recorda algo que o António Alçada Baptista me disse há muitos anos, a partir de uma citação de Martin Buber. «O Rabino Zusya de Hanipol exortava os seus discípulos: “No outro mundo, não me vão perguntar: Por que não foste Moisés? Vão perguntar-me: Por que não foste Zusya?”». Afinal, o acto educativo por excelência, a relação humana essencial deve basear-se no imperativo «Tornem-se aquilo que são». Não basta ler «oitocentos livros da Cabala». É preciso viver a vida, assumir a memória, fazer, pela transmissão dos saberes e da experiência, «despertar noutro ser humano poderes e sonhos além dos seus; induzir nos outros um amor por aquilo que amamos; fazer do seu presente interior o seu futuro: eis a tripla aventura como nenhuma outra». E Steiner recorda o romance de Yasunari Kawabata O Mestre do Go (1954). Trata-se de uma história verídica, ocorrida entre 26 de Junho e 4 de Dezembro de 1938. O grande mestre Inbo Shusai foi derrotado pelo jovem Kitani Minory num torneio de Go, um complicado jogo tradicional japonês de estratégia, que põe à prova a atenção, a habilidade e a inteligência. O grande mestre jamais tinha sido vencido. Estava doente e a morte aproximava-se, mas mantinha-se sereno com um extraordinário controlo de si. Minory (Otake no romance) venerava o velho mestre. Tinha consciência de que a vitória, de que necessitava, podia funcionar como um autêntico parricídio. Mas se se rendesse estaria a trair a memória e a lição de sempre do mestre invencível, a que desejava suceder. Era uma situação sem saída. “É preciso não parar no caminho”. O dilema existia. Afinal, o mestre estava doente e usava constantemente um leque, para minorar os efeitos do calor. O prazer e o rigor confrontavam-se. E o velho mestre, seguro de si, continuava, sem fraquejar, com a consciência de que Otake estava melhor e podia ganhar. Mas ele não lhe facilitou a vida. A perseguição foi inexorável. O velho movia-se lentamente. O jovem tornou-se “sombrio e grave”. Em vez do equilíbrio e da beleza que o jogo exigia, tudo se tornou tenso e frio. «O final do encontro oferece um espectáculo tão angustiante que se torna difícil de suportar. É o discípulo que fica à beira de um esgotamento. O Mestre permanece sereno na derrota. Morre pouco tempo depois do final do jogo, quando a neve começa a cair». A lição é perturbadora. Dir-se-á que a nossa era é da irreverência. A admiração passou de moda. «Somos viciados na inveja, na difamação, no rebaixamento. Os nossos ídolos devem exibir cabeças de barro».