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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 22 a 28 de Agosto de 2005

Ainda há alguns meses tivemos em Lisboa o Encontro Europeu de Jovens, promovido pela Comunidade de Taizé. Agora, recebemos a notícia absurda de que alguém assassinou o Irmão Roger Schutz, durante um período de oração.

REFLEXÃO DA SEMANA
De 22 a 28 de Agosto de 2005

Ainda há alguns meses tivemos em Lisboa o Encontro Europeu de Jovens, promovido pela Comunidade de Taizé. Agora, recebemos a notícia absurda de que alguém assassinou o Irmão Roger Schutz, durante um período de oração. Os comentários multiplicam-se, mas não pode haver explicações. A memória de Gandhi regressa. A violência do mundo contemporâneo não tolera a paz e a acção dos pacíficos. Com noventa anos, com uma vida devotada ao entendimento, ao respeito e ao amor o Irmão Roger morre violentamente. A história repete-se – vida, morte e ressurreição. Não podemos ficar indiferentes. Confiança, reconciliação, esperança, bondade, vida simples, alegria, felicidade – António Marujo recordava, há dias, no “Público” as palavras-chave da peregrinação do Irmão Roger de Taizé. O ecumenismo era o seu horizonte. Tinha por objectivo “restabelecer a comunhão” entre as várias famílias cristãs, e abrir horizontes no grande e necessário diálogo inter-religioso. “É preciso não parar no caminho”. Afinal, como ele repetia: “a Igreja não existe para ela própria, mas para o mundo, para depositar nele um fermento de paz”. Roger Schutz foi um pastor calvinista que fez o caminho do encontro, ultrapassando fronteiras, semeando a esperança, a alegria e a paz. Em Maio na carta que dirigiu à família de Paul Ricoeur, outro presbiteriano que se tornou construtor de pontes, dizia: «Desde há cerca de cinquenta anos, (Ricoeur) veio a Taizé várias vezes. Apreciámos muito a sua vasta cultura, e a sua capacidade de exprimir valores do Evangelho nas situações de hoje em dia. Ajudou-nos muitas vezes a reflectir. E mais de uma vez fui levado a citar, nas cartas aos jovens, certas expressões fortes que ele tinha formulado sobre temas importantes para nós, como o sentido e a origem do mal. Um dia disse-nos estas palavras: ‘Por mais radical que seja o mal, não é tão profundo como a bondade’». Aqui está a chave da mensagem. A violência gratuita, a violência cega, apenas a violência, como expressão do mal, não pode fazer-nos esquecer a bondade e o bem. Não podemos descurar uma hierarquia de valores, não puramente formais, não desenraizados e comodistas, mas valores que compreendam a dignidade das pessoas. O Irmão Roger falava da “confiança do coração”, aí está o começo e o fim de tudo o que deve ser humano. Essa confiança obriga ao entendimento do outro e ao gesto concreto no sentido de “cuidar” (como gostava de dizer Maria de Lourdes Pintasilgo) – onde quer que haja provação, carência, dúvida, dificuldade. Nu, vestiste-me. Com fome, deste-me de comer. Só, acompanhaste-me. Preso, visitaste-me. Mas nada disto é abstracto, tem a ver com pessoas de carne e osso. E o mundo está demasiado preocupado com o conformismo consumista, das pequenas fortalezas do egoísmo. O Irmão Roger morreu por causa dessa doença. Mas deixou-nos o remédio.