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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 13 a 19 de Junho de 2005

No último fim-de-semana o CNC percorreu o Portugal queirosiano. Suprema empreitada. Soberba oportunidade. Leiria, Coimbra, Resende, Santa Cruz do Douro, Porto, Póvoa do Varzim… Tivemos por companheiros todos aqueles a quem José Maria Eça de Queirós deu vida.

REFLEXÃO DA SEMANA
De 13 a 19 de Junho de 2005

No último fim-de-semana o CNC percorreu o Portugal queirosiano. Suprema empreitada. Soberba oportunidade. Leiria, Coimbra, Resende, Santa Cruz do Douro, Porto, Póvoa do Varzim… Tivemos por companheiros todos aqueles a quem José Maria Eça de Queirós deu vida. Ouvimo-los, dialogámos com eles, rimo-nos, chegámos à conclusão de que há muitas semelhanças entre eles e os seres vivos com que lidamos ainda hoje, apesar de todas as diferenças. O país já não é rural, fechado, arcaico, ensimesmado, mas continuam os medos, as invejas, os individualismos doentios, a ciclotimia, a ilusão – como Eduardo Lourenço lembrou no belo filme autobiográfico, de Anabela Saint-Maurice, que a “Dois” passou no Dia de Portugal, a propósito da ilha que somos. Gozámos o prazer da lembrança no almoço na Quinta das Lágrimas (graças à representação da Cooperativa Bonifrates), com a pesca do peixe no elevador dos Campos Elíseos ou com a recordação das iguarias descritas nas obras de Eça, desde o caldo de galinha, da posta de carne assada à moda da Mãe Eva, até ao capão de cabidela e ao arroz-doce (com dois esses). Lá estivemos com o Padre Amaro, com o Cónego Dias, com a inevitável Amélia, nas ruas de Leiria. Deparámo-nos, fugazmente, mas com muita insistência, com Luísa e Jorge, mas sobretudo com Basílio e Juliana, e também com o sólido e rubicundo Conselheiro Acácio (em conversa inesperada e apócrifa com o conde de Abranhos). Contámos ainda com a persistência de Ernestinho, de Teodoro, de Raposão (Teodorico de sua graça), da Titi, de João da Ega, de Afonso da Maia, de Carlos Eduardo e de Maria Eduarda… Carlos Fradique Mendes apresentou-nos Jacinto e Zé Fernandes, apressadíssimos na tarefa de tornar habitável (com que sucesso…) a casa de Tormes. Mas também vieram Tomás de Alencar (qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência) e Dâmaso Salcede, muito solícitos na declamação das suas leituras sobre o mundo e a vida. Foi uma visita muito especial. Acompanhados por fantasmas acolhedores, uns mais inquietantes do que outros. Portugal queirosiano é o Portugal finissecular, preocupado com a distância da civilização e com a persistência do atraso. Gonçalo Mendes Ramires apareceu a recordar a sua linhagem e a projecção dela no seu tempo… Mas a emoção maior foi sentida na escadaria da Sé Nova de Coimbra, onde vimos a “grenha densa e loura, com lampejos fulvos, a barba de um ruivo mais escuro, frisada e aguda à maneira siríaca” e o “braço inspirado”, mergulhado nas alturas como para as revolver… Era Antero de Quental, que “cantava o Céu, o Infinito, os mundos, que rolam carregados de humanidades, a luz suprema habitada pela ideia pura”. E Eça rendeu-se ali mesmo ao carisma, ao talento e à sabedoria do jovem Antero. Destraçou a capa. Sentou-se num degrau. E ali ficou a vida inteira… 

Edição: 13 de junho de 2005