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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 30 de Maio a 5 de Junho de 2005

Está aberta ao público na Biblioteca Nacional a exposição “Centro Nacional de Cultura – 60 Anos de Uma Vida Cheia”. Constitui uma oportunidade única para seguir passo a passo uma história que, muitas vezes, se confunde com a história portuguesa.

REFLEXÃO DA SEMANA
De 30 de Maio a 5 de Junho de 2005

Está aberta ao público na Biblioteca Nacional a exposição “Centro Nacional de Cultura – 60 Anos de Uma Vida Cheia”. Constitui uma oportunidade única para seguir passo a passo uma história que, muitas vezes, se confunde com a história portuguesa. E é com emoção que reencontramos os fundadores, Afonso Botelho, António Seabra e Gastão da Cunha Ferreira, como plantadores de uma sementeira que não julgariam vir a ter os frutos que o tempo viria a proporcionar. O CNC foi, ao longo deste tempo, um lugar de encontro, uma encruzilhada. E não posso deixar de reconhecer a extraordinária presciência dos fundadores do Centro, ao lançarem, oito dias apenas depois do fim da guerra na Europa, um lugar de reflexão, de debate, de encontros e também de desencontros, como na vida. O certo é que, parafraseando o nosso Fernando Amado, o Centro tornou-se uma autêntica “Caixa de Pandora” – num sentido forte e positivo. E foi importante abrir essa caixa, libertando energias e esperanças. E estamos a lembrar os diálogos olímpicos entre Almada Negreiros e Fernando Amado. E se seguirmos, passo a passo, cada um dos degraus chegamos aos tempos heróicos de Francisco Sousa Tavares, com as suas iras homéricas, mas com a generosidade e a inteligência que não podemos esquecer. E aqui entra a sensibilidade extraordinária de Sophia de Mello Breyner – o equilíbrio supremo da palavra e da dignidade, na procura incessante dos momentos de eternidade. Estamos perante uma simbólica viagem para Ítaca, com a memória permanente da guerra de Tróia. O Centro tornou-se, assim, um lugar de memória e de memórias. E em 1974, quando veio a democracia, houve quem dissesse que já não fazia sentido continuar a tarefa de ser parlamento livre, que não existia até então no Estado. Mas a resposta felizmente é bem conhecida. E devo invocar especialmente nesse tempo a energia e o entusiasmo de Helena Vaz da Silva. A Helena conhecia bem e há muito o Centro, até pela proximidade geográfica e afectiva com a Moraes, com “O Tempo e o Modo”, com a “Concilium”, com a Associação para a Liberdade da Cultura. Foi uma história de afectos, como diria o nosso António Alçada, mas foi também uma história de vontade e de descoberta. A cultura viva abomina o vazio, a inércia e a indiferença – e Helena, sempre inconformista, sempre idealista fez um combate quotidiano pelo movimento e pelas saudades do futuro. E permito-me assinalar o novo instrumento que a cultura do Centro passou a usar activamente – o megafone. O megafone, que celebrizou Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo em 25 de Abril, representaria com Helena o símbolo da vontade indómita de fazer, através dos “passeios de domingo”, chegar a cultura a todos – como há dias afirmava o Alberto Vaz da Silva. Esse megafone chamou-se também Patrimatic, a base de dados sobre os bens culturais, e hoje chama-se E-cultura com os seus quase dois milhões de visitantes. A história do Centro é uma história de mil histórias, de esperanças, de equívocos, de contratempos, de dúvidas, mas também de grandes sucessos. Tornámo-nos epígonos de Fernão Mendes Pinto, repetidores das aventuras do “pobre de mim”, tornando-nos ricos-de-nós-mesmos, portugueses ao encontro da nossa história. Fomos aos pontos mais inóspitos – desde o Japão à Ilha das Flores, desde Goa até S. João Baptista de Ajudá, de S. Tomé até Timor-Lorosae, desde a Cidade Velha de Santiago até à mágica Olinda. Não será possível fazer uma história da cultura portuguesa sem ler as publicações do Centro, sem seguir as nossas descobertas, sem ver pelos olhos extraordinárias dos nossos escritores, dos nossos poetas, dos nossos pintores, dos nossos artistas plásticos. A Helena foi sempre fiel a essa magia de não fechar a cultura dentro das paredes dos arquivos. Por isso, fez dessa fidelidade à cultura uma marca indelével que não esquecemos.