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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 9 a 15 de Maio de 2005

O Centro Nacional de Cultura teve, ao longo dos sessenta anos de vida, que esta semana se completam, um papel “fundamental em actualizar, modernizar, no sentido do mundo moderno, a relação das pessoas”. Quem o disse foi Gonçalo Ribeiro Telles, ao recordar a história do Centro, de que foi um dos fundadores. (...)

REFLEXÃO DA SEMANA
De 9 a 15 de Maio de 2005

O Centro Nacional de Cultura teve, ao longo dos sessenta anos de vida, que esta semana se completam, um papel “fundamental em actualizar, modernizar, no sentido do mundo moderno, a relação das pessoas”. Quem o disse foi Gonçalo Ribeiro Telles, ao recordar a história do Centro, de que foi um dos fundadores. E, assim, o CNC não se deixou “domesticar” ou “disciplinar” por correntes políticas ou religiosas. A fundação coincidiu com um momento crucial da história contemporânea – o fim da grande guerra mundial. E é a memória desse tempo que tem de ser invocada. Não com ressentimento ou com a ilusão de que é possível rectificar o curso dos acontecimentos. A barbárie do século XX foi possível porque houve quem quisesse determinar a História e domesticá-la. A guerra existiu porque prevaleceram os egoísmos, a competição cega, a ausência de instrumentos que favorecessem a coesão social e a justiça – em lugar de um hedonismo imediatista, que tem como efeito a destruição da natureza e da humanidade. A memória deve ser invocada, não para manter as feridas abertas, ou para abrir outras, mas para nos deixar alerta no caminho da paz, do respeito, do desenvolvimento sustentável e da diversidade cultural. Não podemos esquecer a lição de um intelectual como Joseph Rovan, que apesar de ter saído de um campo de concentração nazi, em 1945, se empenhou logo, de alma e coração, na tarefa da reconciliação entre os povos europeus, em especial no reencontro franco-alemão. Eis porque algumas tentativas de fazer o julgamento a posteriori das conclusões de Ialta, que conduziram à divisão da Europa, revelam-se inúteis e contraproducentes. Depois de 1945 e de 1989, temos de criar todas as condições para que uma guerra tão inútil e sangrenta não se repita e para que a “solução final”, o holocausto, os campos de extremínio, mas também o Gulag se tornem impossíveis no futuro. Só a democracia e uma “ideia” generosa e positiva da Europa, bem como uma “mundialização humana” (na linha do que João XXIII defendeu na encíclica “Pacem in Terris”) poderão romper com o círculo vicioso da violência, da hegemonia e da indiferença relativamente aos “outro”. Em Paris, no encontro de intelectuais realizado na última semana, Peter Sloterdijk disse: devemos elogiar uma União Europeia que é “pós-imperial, pós-heróica, pós-entusiasta, pós-machista e pós-unilateral”, isto é, que renunciou a conquistar pelas armas novos territórios, que já não rende homenagem aos heróis mortos no campo de batalha, que aceita haver entre a democracia e o cepticismo uma relação positiva, que assume por fim a igualdade de direitos entre sexos e está bem com os seus vizinhos. E afinal, o princípio motor da cultura europeia é a crise (no sentido de encruzilhada) ou a agonia, de que falou Unamuno, Maria Zambrano ou Eduardo Lourenço (no sentido da luta). Eis por que razão não deveremos esquecer! 

Edição: 09 de maio de 2005