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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 2 a 8 de Maio de 2005

Estamos a celebrar o quarto centenário da publicação de “Dom Quixote de la Mancha” (1605). E, por estes dias, desapareceu, sem que o esperássemos (como se pode esperar?), um escritor contemporâneo, que representa magistralmente o mundo latino-americano. (...)

REFLEXÃO DA SEMANA
De 2 a 8 de Maio de 2005

Estamos a celebrar o quarto centenário da publicação de “Dom Quixote de la Mancha” (1605). E, por estes dias, desapareceu, sem que o esperássemos (como se pode esperar?), um escritor contemporâneo, que representa magistralmente o mundo latino-americano. Foi quem talvez melhor compreendeu nos dias de hoje não só a importância do retrato extraordinário do género humano feito por Miguel de Cervantes y Saavedra, mas também o seu sentido actual. Falo de Augusto Roa Bastos (1917-2005), escritor paraguaio, falecido há poucos dias em Assunción. Leitor, desde muito cedo, da Bíblia e de Shakespeare, admirador confesso de Cervantes e do seu anti-herói, o cavaleiro da triste figura, Roa Bastos compreendeu, como poucos, que a essência romanesca de Quixote está na sua dimensão real e irreal. Estamos perante o produto de uma prodigiosa imaginação, que representa a visão cavalheiresca e imaginária do mundo e do tempo – na qual a narrativa se mistura com a vida, levando ao aparente absurdo, que permite a crítica severa a quem é incapaz de compreender o que o cerca e quem o desafia. E Roa Bastos era ainda peremptório ao considerar João Guimarães Rosa, o mestre brasileiro de “Grande Sertão: Veredas”, como uma referência única na América Latina, positiva e singularíssima.   A obra-prima de Augusto Roa Bastos é “Yo, el Supremo” (1974), que faz parte, com “O Baldio” (1966) e “Os Pés sobre a Água” (1967), da resposta ao desafio lançado por Carlos Fuentes e por Mário Vargas Llosa – para que os escritores latino-americanos imaginassem uma novela inspirada pela espécie dos sangrentos ditadores. O “Outono do Patriarca” de Gabriel Garcia Marquez e o “Recurso do Método” de Alejo Carpentier constituíram as outras respostas referenciais. Para Roa Bastos o pretexto foi a biografia do ditador José Gaspar Rodriguez de Francia, que exerceu o poder no Paraguai entre 1814 e 1840. A irracionalidade é o sinal da ditadura e a cegueira anima a violência. Exemplo dessa estranha ligação é o decreto pendurado na porta da Catedral, cujo conteúdo a todos intrigou e atraiu atenções. Era um falso decreto (posto a circular pelos opositores à ditadura), onde o Ditador Supremo supostamente se exprimia: “Eu, Ditador supremo da República, mando que, no dia da minha morte, o meu cadáver deva ser decapitado e a minha cabeça colocada na ponta de um pau, durante três dias na Praça da República, para onde deverá ser convocado o povo”. Todos ficaram estupefactos. Que quereria significar tal decisão? O romancista encontrou no absurdo uma metáfora que denuncia todo o abuso do poder, salientando a importância da ironia, como instrumento capaz de pôr em causa a discricionaridade e o “monoteísmo do poder”. E a narrativa apenas procura deixar claro que “os ditadores preenchem a função de substituir os escritores, os artistas, os pensadores etc…”. Tudo está dito.