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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 3 a 9 de Janeiro de 2005

Hoje é dia de fazer o juízo do ano. E a última semana foi motivo sério de reflexão sobre o essencial e o acessório. Acabamos de assistir a uma inaudita tragédia. Ultrapassa a centena de milhar o número de vítimas do terramoto e do “tsunami” do Índico...

REFLEXÃO DA SEMANA
De 3 a 9 de Janeiro de 2005


Hoje é dia de fazer o juízo do ano. E a última semana foi motivo sério de reflexão sobre o essencial e o acessório. Acabamos de assistir a uma inaudita tragédia. Ultrapassa a centena de milhar o número de vítimas do terramoto e do “tsunami” do Índico. À medida que conhecemos melhor as circunstâncias e as consequências, fica-nos a sensação de total incapacidade perante uma catástrofe destas dimensões. E que reflexão se exige? A de que só o respeito da dignidade da pessoa humana tem verdadeira dimensão universal. E essa dignidade exige a compreensão da importância da memória e da vida. A memória traz-nos as lições da experiência, da história e do tempo. A vida obriga-nos ao respeito mútuo, à compreensão do outro, à entre-ajuda, à complementaridade entre a autonomia individual e o altruísmo. O esquecimento e a amnésia levam à indiferença e à cegueira. O egoísmo e a auto-suficiência levam à violência e à incompreensão. “Amai-vos uns aos outros!”. Age como se fizesses do teu comportamento uma lei universal. Não te feches nem te esqueças de quem está a teu lado. Não se trata, porém, de amar a humanidade abstracta que ninguém vê, mas de corresponder a quem nos chama. As imagens que nos chegam do Extremo-Oriente são tremendas. Não podemos esquecê-las. Elas obrigam a ouvir a voz de João XXIII: “uma concepção tão frequente como errada leva muitos a julgar que as relações de convivência entre os indivíduos e a sua respectiva comunidade política possam reger-se pelas mesmas leis que as forças e os elementos irracionais do universo” (“Pacem in Terris”, Introdução). Olhe-se a história do século XX: foi uma caminhada desordenada para o abismo da violência e da destruição. No entanto, nos primeiros anos do século ninguém poderia prever o que sucederia. No dia mundial da Paz de 2005 temos de perceber que o valor concreto e enraizado da Paz (não a paz dos cemitérios, mas a paz dos corações) obriga a criar condições para que o desenvolvimento e a cooperação entre os povos sejam uma realidade, para que as Nações Unidas não sejam uma instância em perda de prestígio e de eficácia, para que os conflitos e as violências sejam reguladas de modo pacífico e democrático. Com injustiça, indiferença, arrogância, unilateralismo, fragmentação, egoísmo, desrespeito do outro, miséria, ignorância não pode haver paz e dignidade. Desenvolvimento é o novo nome da paz. Mas o que nos trazem os acontecimentos recentes? A tentativa de usar uma tragédia para ultrapassar as instância legítimas de uma ordem mundial construída no respeito mútuo, na convergência de vontades livres e soberanas e não na mera força do poder.  Apela-se, assim às leis das forças e dos elementos irracionais do universo, em lugar da dignidade, da memória e da vida. Eis por que poderemos estar a caminhar para uma via sem saída… 

Edição: 03 de janeiro de 2005