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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2004

Segurança, serenidade e critério, eis os atributos do filme “A Costa dos Murmúrios” de Margarida Cardoso, baseado na obra homónima de Lídia Jorge. Há sempre um grande risco na transposição de um romance, para o cinema. As linguagens são diferentes, algo fica pelo caminho, entre o que um romance tem de intraduzível e o que um filme tem de muito próprio...

REFLEXÃO DA SEMANA

De 29 de Novembro a 5 de Dezembro de 2004

 

 

Segurança, serenidade e critério, eis os atributos do filme “A Costa dos Murmúrios” de Margarida Cardoso, baseado na obra homónima de Lídia Jorge. Há sempre um grande risco na transposição de um romance, para o cinema. As linguagens são diferentes, algo fica pelo caminho, entre o que um romance tem de intraduzível e o que um filme tem de muito próprio. L. Jorge parte destes acontecimentos para o drama que nos conta. Estamos perante uma visão da guerra do lado da mulher que fica na cidade, enquanto o marido vai para a frente. Não é assim a sociedade moçambicana a ser retratada, mas a “experiência” de Evita (irrepreensivelmente representada por Beatriz Batarda), recém-casada com um alferes miliciano mobilizado para Moçambique, que se vê confrontada com a dura realidade de ter a seu lado alguém que a guerra transforma profundamente e que se torna insensível, desumano, violento, preconceituoso. A narrativa funde-se com o documentário de uma época muito forte, confusa, perturbadora e muito especial – que a memória actual não pode esquecer. E o vento torna-se o intérprete ou a metáfora dos “murmúrios”, sobre a incerteza, o acaso e os sinais de tragédia que se vão acumulando. Para Lídia Jorge, Margarida reescreveu a história. E foi surpreendente. Mas a autora não encontra divergências. Há talvez revelações, que respeitam uma espécie de pacto no sentido de erguer “um relato para não deixar sumir na inadvertência alguma coisa grande e dolorosa, pessoal e colectiva, que persiste, a mesma vontade de criar um espaço ficcional onde alguma coisa fora do paradigma acontece, a mesma vontade de que isso suceda sob o impacto das imagens criadas pela alucinação da memória”. E este diálogo surge como algo de extraordinário – em que a realizadora dá a realidade do documentário, sem esquecer a omnipresença da romancista, a quem dá a missão de tornar actuante o “fantasma que a memória alerta”. E se dúvidas houvesse, lá está a segunda cena da roleta russa, esfumada pelo sonho, mas bem real no caminho trágico da narrativa. A violência é a tensão constante do filme. O “livro não vai à guerra”, diz-nos Lídia Jorge, mas a violência e a guerra são os primeiros protagonistas: “a imagem da roleta russa foi-me indispensável como concentração do combate, síntese da sua arbitrariedade, paráfrase do vício da violência”. Não é por acaso que Margarida Cardoso prefere deixar esboçadas as cenas cruciais (os gafanhotos e as duas roletas russas). Lídia concebeu “esse transe como coisa rude”. No filme torna-se desnecessário mostrar os tampos manchados de sangue. As cenas dos amantes tornam-se as mais fortes. “É uma violência que fala da violência sem a mostrar, como raramente acontece no cinema. Uma rara decência de narrar. Isso emociona-me, porque o pacto, feito no início, está inteiramente cumprido. A beleza está no seu lugar”.

Edição: 29 de novembro de 2004