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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 1 a 7 de Novembro de 2004

"Júlio Pomar lembrou-nos em Sintra, no Museu de Arte Moderna, num dia em que a chuva não nos impediu de poder desfrutar a arte substantiva do Mestre: “Umas cores achei, outras roubei com estas mãos que são os olhos que me dou”. (...)

REFLEXÃO DA SEMANA
De 1 a 7 de Novembro de 2004

Júlio Pomar lembrou-nos em Sintra, no Museu de Arte Moderna, num dia em que a chuva não nos impediu de poder desfrutar a arte substantiva do Mestre: “Umas cores achei, outras roubei com estas mãos que são os olhos que me dou”. A frase ilustra o percurso coerente, no qual em vez da cronologia, nos são dados os temas, para melhor podermos apreender as várias glosas que Pomar foi fazendo ao longo da vida e da obra. E como diz no poema que está na antecâmara do catálogo: “quis mostrar/ o pouco que o mundo lhe mostrou/ e a que pôde deitar mão, ou desdizer/ segundo as causas que o acaso quis/ para mães das mais que vagabundas/ filhas que nelas fez, suas/ obras que negar não pode.” Temas (como diz Marcelin Pleynet) que definem, no fundo, um programa simples e claro: “a história de uma vida, contada por aquele que a viveu”. E se a “Autobiografia” começa pelo auto-retrato em “Identidade/identidades”, com o jovem pintor em “Café” (1944), em tons suaves, rodeado pelo mundo, o certo é que é ele mesmo que, de certo modo, vamos reencontrar em cada uma das pessoas que Pomar retrata, procurando no espelho dos outros ele mesmo e os diversos lados da sua identidade. E sentimos a força do movimento, da troça criativa, dos narizes de palhaço, da maçã e do relógio, culminando com um retrato duplo do artista feito Golias (ou será David?), de 2004. É a história do pintor que topamos nas outras identidades com que se defronta: José Cardoso Pires, António Lobo Antunes… Sente-se o afecto. “Não vive a arte senão de afectos”. Lá estão Rui Grácio, Carlos de Oliveira e Mário Soares (desde a prisão a Presidente da República)… Mas também Fernando Pessoa, Almada Negreiros e “Orpheu”, Carlos Baudelaire, Mallarmé e Edgar Poe, enquanto sombras tutelares. E Charlot na expulsão do paraíso. Claude Lévi-Strauss interroga a humanidade. Graça Lobo, Maria Belo, Tereza Martha acolhem-nos… “Os afectos é que compõem o ar que a arte respira, o corpo que ele insemina, a razão do seu pensar”. E aqui está o cerne de tudo: a razão como relação entre entidades diferentes, o pensar como um estranho e complexo jogo entre entendimento e desentendimento. Depois vem o Lugar/Mundo. As crianças, a luta, o jogo, Maio de 68, os índios de Xingú. Desde a dureza da Resistência, ao suor do rosto do trolha que almoça ou do gadanheiro, até a alegria de viver do tropicalismo. Há uma encruzilhada permanente de influências e inspirações que tornam o pintor inclassificável no ficheiro da vulgaridade. E Eros marca a inspiração e a força da vida. É a liberdade de poder procurar o que está na vida e nos corpos. É o método Pomar que se revela em todo o seu esplendor: “Desfazer refazer ou mesmo decidir nada fazer por ora ir dar uma volta e o que tiver de acontecer que aconteça” E que é pintar? “É pintar é pintar é pintar”… É como escrever. “A cozinha é a cozinha como uma rosa é uma rosa, querem coisa mais simples?”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 01 de novembro de 2004