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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 5 a 11 de Julho de 2004

Sophia não nos deixou. Estamos a ouvi-la. Ouvi-la-emos sempre. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo: fui presidente da Assembleia Geral duas vezes, discuti, li versos, fiz limpezas quando faltava a mulher a dias, organizei festas de Carnaval com rissóis e bebidas, mascarei-me, dancei e – coisa que mais do que tudo detesto – fiz conferências. Não havia dinheiro para nada e era tudo improvisado e cada um fazia o que podia, o que sabia ou o que era preciso. Era um tempo de fervor e de dedicação gratuita. A amizade era concreta...
Sophia não nos deixou. Estamos a ouvi-la. Ouvi-la-emos sempre. “No Centro Nacional de Cultura fiz de tudo: fui presidente da Assembleia Geral duas vezes, discuti, li versos, fiz limpezas quando faltava a mulher a dias, organizei festas de Carnaval com rissóis e bebidas, mascarei-me, dancei e – coisa que mais do que tudo detesto – fiz conferências. Não havia dinheiro para nada e era tudo improvisado e cada um fazia o que podia, o que sabia ou o que era preciso. Era um tempo de fervor e de dedicação gratuita. A amizade era concreta. E acima de tudo discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era. Às vezes a Pide aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico. Em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardine abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido: ‘poker faced’. A sala era grande e a sua estética desolada, com grandes filas de cadeiras duras, paredes de cor indefinida com alguns papéis e fotografias pendurados e a luz a cair do tecto. Mas havia sempre público que, às vezes além de encher a sala e a pequena entrada, chegava até às escadas. Um público variável, participante, animado. A afluência variava em número, em composição e em disposição, conforme a época e também conforme o tema discutido. Havia sessões serenas e sessões veementes, mesmo fogosas. Era um público não só animado mas quase sempre caloroso, quer no apoio, quer na discordância. Havia uma certa ordem e era muito rara a agressividade. Mas por mais apaixonado que fosse o debate, por vezes todos nos calávamos ensurdecidos. Pois, rente à parede que dava para a rua avançava bamboleante, num chinfrim de apitadelas e silvos e um chocalhar de latas e um guinchar de metais, um daqueles nostálgicos eléctricos de Lisboa. Mal ela passava, o debate continuava sem perder o fio. Todos queriam dizer e ouvir tudo até ao fim: pois naquele tempo era um dos raros sítios no país onde se falava em pura liberdade”. E nesta invocação, lembro que o António Alçada Baptista recorda o Centro como espaço de liberdade. Sophia e Francisco Sousa Tavares bateram-se pelo Centro nos tempos mais difíceis, “que não foram contra a Polícia ou contra o governo, mas contra a apatia e o desinteresse que tomara conta de muitos de nós”. João Bénard da Costa diz, aliás, que, quando se fez sócio do CNC, “este era a casa de Francisco e de Sophia”. Sophia não nos deixou. Estamos a ouvi-la. Ouvi-la-emos sempre. “Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem”. É a busca da eternidade que sempre encontramos em Sophia. É o encontro necessário que, depois, se projecta no além. Em cada palavra, em cada gesto encontramos essa demanda – de liberdade e de justiça. Duas citações:

SONETO À MANEIRA DE CAMÕES

Esperança e desespero de alimento

Me servem neste dia em que te espero

E já não sei se quero ou se não quero

Tão longe de razões é meu tormento.

Mas como usar amor de entendimento?

Daquilo que te peço desespero

Ainda que m’o dês – pois o que eu quero

Ninguém o dá se não por um momento.

Mas como és belo, amor, de não durares,

De ser tão breve e fundo o teu engano

E de eu te possuir sem tu me dares.

Amor perfeito dado a um ser humano:

Também morre o florir de mil pomares

E se quebram as ondas no oceano.

(Coral, 1950).


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE
A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL (excerto)

…Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre.

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

Nunca  mais servirei senhor que possa morrer.

(Mar Novo, 1958).

Sophia não nos deixou. Estamos a ouvi-la. Ouvi-la-emos sempre. E Eduardo Lourenço justifica-o. Sophia é a “tecedora do mais alto dia e da mais viva esperança no meio da noite, nossa e da vida”.

Até sempre, querida Sophia!

 

Edição: 05 de julho de 2004