Home Sobre nós Serviços Novos sócios Bolsas Mecenas Contactos English Français
"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 12 a 18 de Abril de 2004

Foi a Páscoa da Ressurreição e a invocação de dois acontecimentos religiosos fundadores da tradição judaico-cristã: por um lado, a libertação do Egipto, a que se seguiram, no Antigo Testamento, a revelação no monte de Sinai a Moisés das Tábuas da Lei e a errância do povo hebreu no deserto; por outro lado, a morte de Cristo na Cruz, ponto central do Novo Testamento, enquanto testemunho supremo da Encarnação...
Foi a Páscoa da Ressurreição e a invocação de dois acontecimentos religiosos fundadores da tradição judaico-cristã: por um lado, a libertação do Egipto, a que se seguiram, no Antigo Testamento, a revelação no monte de Sinai a Moisés das Tábuas da Lei e a errância do povo hebreu no deserto; por outro lado, a morte de Cristo na Cruz, ponto central do Novo Testamento, enquanto testemunho supremo da Encarnação. Estamos, assim, perante a Ressurreição como anúncio da Redenção final. Para os judeus é a Revelação que se prepara, para o cristianismo é a Revelação que se consuma. O mistério da existência humana está aqui plenamente representado. E a cultura da vida fica marcada pela presença junto das pessoas do Filho de Deus, princípio e fim, alfa e ómega, e pelo seu sacrifício definitivo, que marca o desencantamento ou a passagem das religiões dos deuses distantes e incompreensíveis para a fé num Deus próximo, que vive a condição humana, que sofre e que partilha com a humanidade os sentimentos e as angústias, e que, por isso, proclama a lei do amor. A Revelação da Páscoa cristã não se limita, porém, à passagem, envolve a renovação e a actualização do compromisso de Moisés e a fundação de um novo tempo. No momento em que ainda temos os ecos do último filme de MelGibson – sobre os quais não é de bom conselho nem correr às críticas superficiais nem entrar no jogo da operação comercial. É fundamental procurar ver para além do imediato ou para além de uma certa banalização da violência. René Girard acaba, por isso, por olhar o filme a uma outra luz, distante das reacções epidérmicas. Prefere lembrar os acontecimentos que “A Paixão” retrata, em lugar da sua simplificação. O que aconteceu foi um escândalo. Se não tivesse havido escândalo não teria havido compreensão da Revelação, nem fundação de um novo tempo. René Girard recorda, por isso, que o “cristianismo ensinou que a história tem um sentido e que, num plano mais profundo, as rivalidades podem ser resolvidas fora dos mecanismos sacrificiais”. Trata-se de pôr termo a uma escalada de violência, para que o amor e o respeito mútuo vençam. Cristo é a vítima para vencer a violência e para acabar com as violência que visam aplacar as iras divinas. É o próprio filho de Deus que se torna destinatário da violência, suprimindo a necessidade de um bode expiatório. “Conservar esta mensagem (insiste Girard) é o único gesto revolucionário neste nosso novo milénio”. Como dizia há dias João Bénard da Costa: “Cristo ressuscitou – se se pode interpretar um mistério – e neste caso o maior mistério – porque a sua última imagem não podia ser a da morte, do corpo encerrado num túmulo. Era necessário que ressuscitasse, (…) para que Ele próprio fosse a proclamação suprema do triunfo sobre a morte”. É esta a mensagem da Páscoa: a Revelação como sinal da dignidade da pessoa humana está na ordem do dia.

Guilherme d`Oliveira Martins