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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 15 a 21 de Março de 2004

O 11 de Março de Madrid foi um massacre de inocentes. Pouco importa, para começar, saber quais os motivos e quem foi o autor de tão hediondo atentado, se a Al-Qaeda se a ETA, é preciso, antes do mais, perguntarmo-nos como é possível podermos ter uma expressão tão crua da barbárie nos dias de hoje...
O 11 de Março de Madrid foi um massacre de inocentes. Pouco importa, para começar, saber quais os motivos e quem foi o autor de tão hediondo atentado, se a Al-Qaeda se a ETA, é preciso, antes do mais, perguntarmo-nos como é possível podermos ter uma expressão tão crua da barbárie nos dias de hoje. Como é possível continuarmos indiferentes perante um acontecimento que atinge o coração da dignidade humana? Se digo que pouco importa saber motivos e autores, não posso deixar de exigir, em nome das vítimas, o apuramento das responsabilidades. A violência e a sua banalização estão em causa. A violência é cega, é indiferente, é mentirosa, é estúpida, é intolerante, é absurda, é irracional, é totalitária, nega a dignidade das pessoas, recusa o respeito mútuo, vive sedenta de vingança. Eis porque não podemos esquecer as escaladas de violência da História recente. Eis porque temos de nos demarcar dos discursos baseados no messianismo temporal. Eis porque temos de reflectir sobre a caminhada perigosa que os poderes do mundo estão a fazer aceleradamente em direcção a um perigoso choque de civilizações. Temos de ser firmes na defesa dos valores da liberdade, dos direitos fundamentais e do primado da lei e do direito. Mas não podemos ficar-nos pela proclamação abstracta de princípios nem pelas respostas irracionais aos desafios irracionais. Estamos numa entrada estreita de todos os perigos. Temos de recordar o que Hannah Arendt nos dizia sobre as origens do totalitarismo, sobre a banalidade do mal, sobre a ausência do senso comum, sobre o papel do medo e sobre a burocratização da violência. É importante percebermos que o 11 de Março de Madrid é o 11 de Setembro europeu, qualquer que seja o seu significado e os seus autores. Precisamos de mais vontade comum e de menos indiferença. Numa palavra, precisamos de compreender e de ter menos ilusões sobre o tempo actual. Onde poderemos lançar as bases de uma cultura de paz? Há dias, Timothy Garton Ash dizia: “Se acreditamos que a Europa existe, devemos procurar algo mais do que o habitual comunicado analgésico”. Precisamos de mais Europa política, de mais cooperação - “abandonemos estas estúpidas polémicas transatlânticas e falemos a sério” (id.). Depois de tantos erros cometidos de todos os lados, numa escalada de violências inúteis, nos últimos anos, não podemos continuar impassíveis. Vamos até às raízes da violência cega e gratuita. Recusemos a passividade, assumamos a coragem da compreensão, do diálogo, da solidariedade e a firmeza do respeito da lei, do direito e da justiça. Na semana em que se estreou o filme de Mel Gibson sobre “A Paixão de Cristo” com a polémica sobre o uso da violência, é fundamental que oiçamos René Girard quando nos aponta a violência de que Cristo foi vítima como uma violência que teve lugar para pôr fim a todas as violências. E isto não é claro em Gibson. Mas o 11 de Março ensina-nos que a violência abre caminho à barbárie.

Guilherme d´Oliveira Martins