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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 7 a 13 de Abril de 2003

"Mais do que exaltar a Pátria, interessa-me o relacionamento dos Portugueses uns com os outros" - quem o afirma é José Mattoso numa obra fundamental para a compreensão das origens de Portugal e das raízes da nossa identidade (Identificação de um País, Estampa, 1985)...
 

"Mais do que exaltar a Pátria, interessa-me o relacionamento dos Portugueses uns com os outros" - quem o afirma é José Mattoso numa obra fundamental para a compreensão das origens de Portugal e das raízes da nossa identidade (Identificação de um País, Estampa, 1985). E o historiador confessa que, depois da investigação a que procedeu, relativamente ao período compreendido entre 1096 e 1325, "a resposta do passado medieval, pelo menos a que ouvi, foi esta - Portugal é irredutível e simultaneamente uno e múltiplo". E nesta perspectiva, a identificação a que procedeu foi, afinal, a continuação pelos caminhos da História daquilo que Orlando Ribeiro investigou e ensinou, de forma modelar, na geografia humana - a partir da referência a duas áreas diferentes que persistem em manter-se unidas, ao longo dos séculos - "um Norte populoso, acidentado e conservador", o Atlântico e a sua influência e "um Sul de habitat aglomerado, plano e progressivo", o Mediterrâneo e a sua demonstração. Hoje, uma cultura viva tem de entender esta realidade complexa e aberta ao mundo. Portugal é não só as suas raízes mas os ramos que espalhou noutras comunidades e noutras paragens. A afirmação da cultura portuguesa exige, assim, uma visão aberta, que permita o enriquecimento permanente, o melhor conhecimento das nossas coisas e a compreensão da força do diálogo entre culturas. Como diz ainda o historiador, "a diversidade das comunidades que compõem a Nação, cujas oposições e contrastes a História revela claramente, merece, creio, mais atenção do que a que lhe têm consagrado os historiadores e os políticos". O método de Identificação de um País recusa, assim, as explicações tradicionais ou mitológicas. Centra-se nos factos, na concatenação dos acontecimentos e das vontades, no processo longo de maturação da consciência nacional. As simplificações são postas de parte. As características da "portugalidade" são vistas como fenómenos complexos que não podem resumir-se a um dilema estreito, por exemplo, entre os que "tendem a estreitar os laços com a Europa" e os que projectam "Portugal para fora dela". Os traços da nossa identidade não estão exclusivamente nesses termos nem numa qualquer mitologia nacionalista - estão, sim, num equilíbrio ou numa síntese que exige a compreensão das diferentes raízes e de um percurso histórico longo e multifacetado. Num tempo europeu, temos de perceber, cada vez mais, que a diversidade das pertenças e as ideias de complementaridade e de síntese são a matéria prima de um novo patriotismo constitucional, aberto e cosmopolita, orgulhoso das diferenças e contrário aos egoísmos nacionais. José Mattoso ensina-o com sentido de futuro. Compreendamo-lo.

Guilherme d`Oliveira Martins