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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 3 a 9 de Fevereiro de 2003

Pode a cultura ser factor de Paz? Começa a sentir-se o cheiro da pólvora. Há no horizonte o risco de o mundo entrar numa perigosa aventura de guerra com consequências imprevisíveis...
Pode a cultura ser factor de Paz? Começa a sentir-se o cheiro da pólvora. Há no horizonte o risco de o mundo entrar numa perigosa aventura de guerra com consequências imprevisíveis. A cultura da paz não pode confundir-se com complacência perante o incumprimento dos mais elementares deveres impostos pelo Direito Internacional, mas também não deve dar pretexto a um corte entre culturas e civilizações. "A guerra é sempre uma derrota do pensamento e da invenção. Apenas lhe devemos ceder, após uma análise escrupulosa de todas as soluções pacíficas possíveis e dos respectivos custos" - afirmava há dias o editorial da revista dos jesuítas "Études" (n.º 3981, Paris, 2002), sobre a ameaça de guerra no Iraque. Num dos textos publicados, Dominique David dizia mesmo, com toda a clareza: "É bem possível que este notável poder (americano) de impor a ordem se transforme em aparelho de produzir desordem". Voltando a uma expressão antiga, estaríamos desse modo regressados à desordem estabelecida, agora na ordem internacional. O Sr. Saddam Hussein é uma figura hedionda, mas também é certo que uma guerra sem a legitimação das Nações Unidas só favorecerá o "choque das civilizações" e o reforço dos fundamentalismos. A divisão europeia é, assim, muito nefasta, porque dá novos pretextos a muitos apoiantes o terrorismo internacional contra a posição do mais elementar bom senso - a solidariedade atlântica só faz sentido pleno se for compartilhada por toda a Europa. Precisamos de mais Europa política e de mais respeito pelo primado do Direito Internacional. Eis porque devemos usar a inteligência e um claro sentido de uma cultura de paz - que combata eficazmente o terrorismo, os radicalismos e o risco de abrirmos uma caixa de Pandora no conflito entre civilizações. Num debate promovido no último número da revista norte-americana "Dissent" (Fall 2002, vol. 49, n.º. 4), um dos editores, o filósofo Michael Walzer punha a questão em termos muito claros: "desejo ver funcionar o sistema de inspecção - e ver funcionar numa via que represente um ganho para as Nações Unidas, que não tem tido muitos ganhos, e que podem ser destruídas com um falhanço neste domínio. Apoiaria uma guerra das Nações Unidas para aplicar a inspecção, não apoiaria uma guerra dos Estados Unidos para uma mudança de regime (ainda que não possa negar que o regime iraquiano precisa de mudança)" - cf. www.dissentmagazine.org . Do que se trata, afinal, é de não conciliar com o ditador, mas também de não aceitar a "National Security Strategy" e a doutrina da guerra preventiva, que contraria claramente a Carta das Nações Unidas e o Direito Internacional. A cultura tem uma palavra a dizer, contra as barbáries!

Guilherme d`Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura

Edição: 03 de fevereiro de 2003