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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

De 9 a 15 de Dezembro de 2002

"Nos tempos da "Raiz e Utopia" ou da página "Alternativas" do Expresso, coordenada pela Helena, um dos autores mais citados era ...
"Nos tempos da "Raiz e Utopia" ou da página "Alternativas" do Expresso, coordenada pela Helena, um dos autores mais citados era Ivan Illich. Era um pensador rebelde. As suas obras ainda hoje podem ser lidas, talvez com redobrado interesse, uma vez que foi dos primeiros a pôr o dedo na ferida aberta pelo consumismo e por aquilo que hoje designamos como fundamentalismo de mercado. Disse-nos, com veemência, que o crescimento material é enganador, sobretudo se visto na óptica da destruição da natureza e da insaciabilidade por novos bens e novas riquezas, ainda que esses se adquiram à custa da miséria e da exclusão. Há uma semana invocávamos o conceito de justiça de Rawls, hoje falamos do inconformismo de alguém que acreditava sinceramente em que era possível inverter a tendência para que as instituições se tornassem factores de limitação e de bloqueamento da sociedade humana. Illich acreditava na "convivialidade", conceito que introduziu na reflexão contemporânea, porque via tudo a partir das pessoas e da necessidade de ir ao seu encontro. Questionou, por isso, a escola, a saúde, as administrações e a organização económica de uma industrialização predadora. "A solução da crise obriga a um volte-face radical: só mudando a estrutura profunda que regula a relação do homem e do instrumento poderemos dar-nos instrumentos justos" - dizia. "O instrumento justo deverá, porém, obedecer a três exigências - deve ser gerador de eficiência sem degradar a autonomia pessoal, não deve criar nem escravos nem mestres, deve, no fundo, alargar o raio de acção das pessoas". Para Illich, do que precisamos é de instrumentos com que trabalhar, e não de instrumentos que trabalhem em vez de nós. Afinal, necessitamos de uma tecnologia que tire o melhor partido da energia e da imaginação pessoais, não de uma tecnologia que nos torne servis e programados… Compreende-se bem que Illich, ao longo da sua vida, tudo tenha procurado fazer para conciliar raízes e utopia, lutando para que esta não se tornasse escravizadora. Numa vida muito rica (1926-2002), desde Viena, onde nasceu, a Cuernavaca (México), onde animou o CIDOC (Centro Intercultural de Documentação), passando por Florença, Roma, Nova Iorque e Porto Rico, Illich procurou ser sempre fiel à defesa intransigente da dignidade das pessoas e da força de uma cultura humana. Tudo para que os "mecanismos de usura não ameacem o direito das pessoas à sua tradição, o recurso ao que nos precede, através da língua, do mito e do ritual". Que valerá a utopia sem fidelidade às raízes? Há dias, Illich deixou-nos, em Dresden. Não o tínhamos esquecido!"

Guilherme d`Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura