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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«A Invenção do Dia Claro» de Almada Negreiros (Olisipo, 1921) é um conjunto de máximas, aforismos e parábolas que usam, na expressão de Jorge de Sena, o método das «aproximações sucessivas», representando uma sensibilidade inovadora capaz de nos aproximar de uma afetividade lírica que se demarca do romantismo e do naturalismo.

A VIDA DOS LIRVOS
de 2 a 8 de dezembro 2013

«A Invenção do Dia Claro» de Almada Negreiros (Olisipo, 1921) é um conjunto de máximas, aforismos e parábolas que usam, na expressão de Jorge de Sena, o método das «aproximações sucessivas», representando uma sensibilidade inovadora capaz de nos aproximar de uma afetividade lírica que se demarca do romantismo e do naturalismo.

O INVENTOR DO DIA CLARO
«Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas. Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas» - é Almada Negreiros quem no-lo diz em «A Invenção do Dia Claro» (1921). Nesta pequena frase, de quem gostava de fazer considerações certeiras, desarmantes e determinantes, poderá estar o brevíssimo e incompleto retrato de quem se multiplicou por diversos campos de criação, sempre com superlativo talento: o humor, a ilustração, a pintura, a poesia, o romance e o ensaio. No meu caso, conheci a influência e a força de Almada (a sua sombra forte) em casa de uma querida amiga, que continua felizmente a marcar os seus admiradores e discípulos, Maria Germana Tânger. «Chegar a cada instante pela primeira vez». A frase estava inscrita e emoldurada numa das paredes daquela casa acolhedora do Largo de S. Carlos, com letra desenhada pelo punho do artista e a assinatura marcada pela inconfundível longa haste do d, que nos enchia de entusiasmo por encontrarmos alguém capaz de ver o futuro. E, em silêncio religioso, ouvíamos: «Mãe! Vem ouvir a minha cabeça a contar histórias ricas que ainda não viajei». Ou «Pede-se a uma criança: Desenha uma flor. Dá-se-lhe papel e lápis…». A biografia do artista era um apaixonante reportório de gestos teatrais, e então começámos a acreditar que o teatro era uma arte completa, inesgotável, permanente. Não foi casual a amizade forte entre Almada e Fernando Amado, que fez do Centro Nacional de Cultura um lugar de exceção, onde nasceram o Grupo Fernando Pessoa e a Casa da Comédia – e onde o debate, o património, a identidade, a cultura e a língua se tornaram campos de exceção. Era o tempo em que líamos Fernando Amado na «Cidade Nova» e em que decorávamos Pessoa («À dolorosa luz das grandes lâmpadas elétricas da fábrica / Tenho febre e escrevo») e Almada («Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros…»), mas também Camões, Cesário, Pessanha e Antero, e em que ensaiávamos, na rua ou no pátio do liceu, os diálogos de mestre Gil («eu perdi se s’acontece a asna russa de meu pai…»; «vou-me à feira de Trancoso, logo, nome de Jesu»), alternando com as falas circunspectas do teatro de Tchekhov. Mas Almada Negreiros era o mestre. Saíamos na estação da Rotunda, confabulando com se fôramos reencarnações do teatro russo, porque acreditávamos (como acreditamos) em que «o teatro é o escaparate de todas as artes. Todas as artes são todas as peças da mesma coisa. Perguntaram-me (dizia Almada) se o teatro não era a mais fácil das artes. Respondi: não há artes mais fáceis, qualquer delas é facilidade. Teatro é facilidade à vista de todos. Arte é tornar fácil o difícil. O difícil é o espontâneo. Este vem no fim. Pois quando foi primeiro não estava lá o próprio». Era isto que o seu exemplo nos ensinava. E não nos saía da memória, Almada Negreiros como atirador de esgrima (tão bem representado por Leonel Moura), desafiador, violentamente pateado à entrada do Teatro República a 14 de abril de 1917, e nós sonhando estar do seu lado, dizendo-nos ele ser «poeta d’Orpheu, futurista e tudo».

POETA DE ORPHEU, FUTURISTA E TUDO
José de Almada Negreiros, nascido em 7 de abril de 1893, na Roça da Saudade, na ilha S. Tomé, marcou decisivamente o panorama artístico do século XX. É uma das figuras mais ricas e complexas do tempo português em que viveu. A sua obra é multifacetada e heterogénea. Terá sido, porventura, dos criadores portugueses de sempre, um dos que melhor entendeu o diálogo entre a história e o tempo, entre o ontem e a modernidade. Desde a literatura até às artes plásticas, encontramos nele uma atenção desperta para a compreensão do que herdamos e do que legamos, de quem somos e de que devemos recusar a acomodação. Era o chegar a cada instante pela primeira vez, querer ser o primitivo das novíssimas gerações, abrir horizontes e caminhos novos. Fernando Pessoa notou-o ao tempo do Salão dos Humoristas (1912), daí veio a amizade, o raro tratamento por tu e o convite para o primeiro número d’«Orpheu». «Não recordo ter estado alguma vez com Fernando Pessoa e mais outros. Ou lembro vagamente. Lembro-me apenas de ter estado com ele e mais ninguém connosco. (…) Devo a Fernando Pessoa (repito: pela primeira vez na minha vida) a alegria de ver noutrem a oposição e não o costumado contrário nosso alheio». «Orpheu era uma consequência fatal de determinados portugueses desligando-se dos outros portugueses, porém ligados entre si pela mesma fé na elite de Portugal». Mas Almada recusava a lógica de caixinha, era a dignidade comum que importava: portugueses, sem ser nacionalistas, nem regionalistas, nem indigenistas. «Queríamos apenas o mais difícil dos títulos dos portugueses: sermos portugueses simplesmente». E assim, para a conquista da elite portuguesa, «Orpheu» apresentava um caminho heroico, como primeiro grito moderno que se deu em Portugal: cultura individual, portuguesa e europeia. E, ao dizer individual, era à pessoa humana que Almada se referia - «é puramente espiritual o universal e cada uma das pessoas humanas» - como se atesta em «SW – Sudoeste» (1935). Entre 1934 e 1938, desenha e concebe os belos vitrais para a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, graças ao apoio inteligente do Cardeal Cerejeira, que se impôs às fortes resistências conservadoras. Seguem-se as decorações das duas gares marítimas de Lisboa, de uma força e de uma beleza ímpares: em Alcântara, o lirismo e o humor da Nau Catrineta e, na Rocha do Conde de Óbidos, a vivacidade de Lisboa popular, na zona ribeirinha, dos saltimbancos aos batéis: «pinturas da nossa solidão», que José-Augusto França considera ser «a obra-prima da pintura portuguesa da primeira metade século, como também foi declarada no formalismo da sua memória cubista».

O INOVADOR DE «NOME DE GUERRA»
Literariamente, é surpreendente como «Nome de Guerra», escrito em 1925, e só publicado em 1938, romance maior do nosso modernismo, continue a passar despercebido (para muitos distraídos), apesar de ser uma obra fundamental não apenas no panorama português. E lá está dito: «se não sabe ver ao longe, tanto lhe faz como não exista o longe, por isso tapa-o». Ao lermos Almada, vemo-lo a anunciar muito do que veio a seguir. Sentimos António Pedro, Alexandre O’Neill, Jorge de Sena, Nuno Bragança, Ruben A. e tudo o mais. E no entanto foi ele solitariamente que terçou armas acreditando num Portugal outro, capaz da ironia e dos olhos bem abertos. Eduardo Lourenço compreende-o bem ao insistir na força crítica e teatral dos mitos e dos sonhos. Não podemos esquecer a diálogo dos bonecos de «Antes de Começar». Aí está a fantástica capacidade de Almada querer recomeçar sempre, como o Antunes de «Nome de Guerra»: «Só não entende o coração quem não sabe escutá-lo… Ele está sempre a contar aquela história por que se espera… aquela hora que existe p’ra além da sabedoria… e que tem a forma simplicíssima dum coração natural! »… Inventem-se de novo as palavras…

Guilherme d'Oliveira Martins