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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

O último livro de António Ramos Rosa (1924-2013) é constituído por poemas breves e leva por título «Em Torno do Imponderável» (2012). A obra do grande poeta caracteriza-se por ser diversa e prolífera, podendo dizer-se que é uma das mais significativas no século XX português. Deixou-nos há dias. Segundo o testemunho de sua filha Maria Filipe, os últimos momentos do poeta foram dominados pela recordação do verso «Estou vivo e escrevo sol» (1966). Até ao fim, sentimos-lhe a coerência da procura da palavra.

A VIDA DOS LIVROS
de 30 de setembro a 4 de outubro 2013

O último livro de António Ramos Rosa (1924-2013) é constituído por poemas breves e leva por título «Em Torno do Imponderável» (2012). A obra do grande poeta caracteriza-se por ser diversa e prolífera, podendo dizer-se que é uma das mais significativas no século XX português. Deixou-nos há dias. Segundo o testemunho de sua filha Maria Filipe, os últimos momentos do poeta foram dominados pela recordação do verso «Estou vivo e escrevo sol» (1966). Até ao fim, sentimos-lhe a coerência da procura da palavra.

 
Foto de Veríssimo Dias

ESTOU VIVO E ESCREVO SOL
Silenciosamente, ouvimo-lo na pureza da sua escrita. Algarvio muito marcado pelo Sol e pelo Meio-Dia, deixa-nos uma obra multifacetada, que permite aos seus leitores uma especial compreensão da luminosidade da exigente procura da palavra. «Eu escrevo versos ao meio-dia /e a morte ao sol é uma cabeleira /que passa em frios frescos sobre a minha cara de vivo / Estou vivo e escrevo sol // Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam / no vazio fresco / é porque aboli todas as mentiras / e não sou mais que este momento puro / a coincidência perfeita / no ato de escrever e sol // A vertigem única da verdade em riste / a nulidade de todas as próximas paragens / navego para o cimo / tombo na claridade simples /e os objetos atiram suas faces / e na minha língua o sol trepida // Melhor que beber vinho é mais claro /ser no olhar o próprio olhar / a maravilha é este espaço aberto /a rua / um grito / a grande toalha do silêncio verde». Como salientou Gastão Cruz, muito a propósito e com verdade: A. Ramos Rosa, como poeta, como crítico e ensaísta, coloca-se na «primeira linha dos que marcaram de forma absolutamente decisiva a segunda metade do século XX» (Público, 24.9.2013). Tornou-se, assim, um exemplo para os novos poetas, sendo de leitura obrigatória o volume de ensaios «Poesia, Liberdade Livre», obra crucial para uma nova visão da poesia, num momento especial da criação portuguesa. Sendo o poeta apologista da «significação poética», Gastão Cruz lembra que, para Ramos Rosa, o sentido do poema não teria que ver com quaisquer normas que inviabilizassem o pleno uso da imaginação. Bastante depois de ter participado nas folhas de poesia «Árvore» (1951-53) com o poema «Viagem Através duma Nebulosa» («Para um amigo tenho sempre um relógio / esquecido em qualquer fundo de algibeira. / Mas esse relógio não marca o tempo inútil, / São restos de tabaco e de ternura rápida. / É um arco-íris de sombra, quente e trémulo. / É um copo de vinho com o meu sangue e sol»), publicará em Faro «O Grito Claro» (1958) na coleção «A Palavra» de Casimiro de Brito. E lembramo-nos do magistério exercido a partir da cidade de Faro, através dos «Cadernos do Meio-Dia», que dirigiu com Casimiro de Brito. Não por acaso, em Faro, foi impressa a «Poesia 61». Discreto, mas muito interventivo, ciente da importância das suas ideias, com António Alçada Batista, João Bénard da Costa, Sophia e Pedro Tamen, no Centro Nacional de Cultura e em «O Tempo e o Modo», fará parte da «Aventura da Morais». Tal levaria João Bénard a dizer que se houve momento em que Portugal foi país de poetas foi exatamente esse de abertura de novos horizontes, em que António Ramos Rosa participou ativamente. Recusando ser apenas «um funcionário cansado», o poeta e ensaísta entusiasma-se com a criação literária e o culto da palavra.

UM ENCONTRO NO CAFÉ ALIANÇA
É comovente e marcante, o encontro descrito por Gastão Cruz no Café Aliança, com o poeta e as jovens colegas da Faculdade de Letras – Fiama Hasse Pais Brandão e Luísa Neto Jorge. «Se havia mestre de poesia, ele estava ali, com a sua imensa modéstia e generosidade. Assim o víamos e assim o líamos, o persistente defensor de uma nova e mais livre palavra poética» (art., cit.). Fernando J. B. Martinho salienta, aliás, que, no período que vai do pós-guerra aos fins da década de 50, «uma das poucas exceções na poesia desse período, no sentido de uma aproximação ao veio vanguardista da tradição moderna, para além dos surrealistas, encontramo-lo no primeiro António Ramos Rosa, no caráter fragmentário da sua lírica de então» (…). «Autor de uma obra invulgarmente extensa, depois de uma fase inicial em que domina nas suas próprias palavras, “a experiência de alienação social e política”, irá evoluir no sentido da “experiência da realidade poética” e de “uma poesia dos elementos”, “da natureza socializada”.

O EMBARAÇO DA ESCOLHA
É difícil fazer grandes considerações teóricas sobre alguém que cultivava a experiência poética inovadora como prática essencial. António Ramos Rosa não se deixa encerrar num cânon. Lembremo-nos da «festa do silêncio»: «Escuto na palavra, a festa do silêncio / Tudo está no seu sítio: as experiências apagaram-se / As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. / Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. / É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma». Numa obra tão vasta fica a dificuldade da escolha, que é um embaraço bem mais benéfico do que os das palavras tímidas… «O seu olhar é um sonho, porque é um sopro indivisível / que reconhece e inventa a pluralidade delicada». 

Guilherme d'Oliveira Martins 

Edição: 30 de setembro de 2013