Home Sobre nós Serviços Novos sócios Bolsas Mecenas Contactos English Français
"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

O dia de anos de Eduardo Lourenço é 23 de maio. Assinalamos a data e teremos o gosto de o ter connosco no dia 20 para nos apresentar a reedição aumentada de «Os Militares e o Poder seguido de O Fim de Todas as Guerras e a Guerra Sem Fim» (Gradiva, 2013). A 5 de junho o Centro Nacional de Cultura associa-se à Biblioteca Nacional de Portugal em torno de uma indispensável mostra bibliográfica. Mais de que homenagens, do que se trata apenas é de agradecer a vitalidade e a força intelectual do nosso sócio honorário, que fez no CNC, no ano de 1956 a sua primeira conferência em Lisboa, na presença de Almada Negreiros. Bem haja, Eduardo!

A VIDA DOS LIVROS
de 20 a 26 de maio 2013

O dia de anos de Eduardo Lourenço é 23 de maio. Assinalamos a data e teremos o gosto de o ter connosco no dia 20 para nos apresentar a reedição aumentada de «Os Militares e o Poder seguido de O Fim de Todas as Guerras e a Guerra Sem Fim» (Gradiva, 2013). A 5 de junho o Centro Nacional de Cultura associa-se à Biblioteca Nacional de Portugal em torno de uma indispensável mostra bibliográfica. Mais de que homenagens, do que se trata apenas é de agradecer a vitalidade e a força intelectual do nosso sócio honorário, que fez no CNC, no ano de 1956 a sua primeira conferência em Lisboa, na presença de Almada Negreiros. Bem haja, Eduardo!

 
Visão.

LIBERTAÇÃO DOS MITOS
Se há pensador português contemporâneo que pratica o sentido crítico plenamente, ele é Eduardo Lourenço, empenhado (neste belo tempo de aniversário) em libertar-se da consideração de «mito cultural», que, relativamente a uma geração anterior, entendeu criticamente ter sido assumida por António Sérgio. Ao interrogar permanentemente a identidade portuguesa, fê-lo como genial criador da língua e da literatura, articulando a intuição poética e a manipulação experimentada e hábil dos mitos, que o ensaísta usou como reveladores dos grandes enigmas de uma nação antiga que teima em persistir e em lutar, contra todas as lógicas e evidências. E assim seguiu as pisadas de Joaquim de Carvalho e de Sílvio Lima por sendas diferentes. «Na aparência, o país que (…) podia justificar um livro como “O Labirinto” já não existe» - disse-o o ensaísta na reedição do ano 2000 da sua mais falada obra. E afirmava ainda, que no tempo decorrido, «não mudámos apenas de estatuto histórico-político, de civilização e de ritos sociais que julgávamos, lamentando-o, característicos de uma sociedade quase marginal em relação aos padrões europeus. Mudámos literalmente falando, e sem quase nos darmos conta disso, de mundo. Mudámos porque o mundo conheceu uma metamorfose sem precedentes, não apenas exterior, mas de fundo». Passámos a viver noutro planeta, caiu o muro de Berlim, deixámos de ser «potencial ou imaginariamente» senhores dos nossos destinos, houve uma «avassaladora dissolução das entidades clássicas a que chamávamos nações», sobrevieram «microidentidades virulentas ou superidentidades simbólicas». E sofremos «o fim da civilização europeia sob paradigma cristão e iluminista, se é lícito associar estas duas matrizes da milenária e agora defunta Europa». Mas onde estamos? Quem somos? «Como todo o Ocidente, tornámo-nos “todo o mundo e ninguém”. A nossa visceral “hiperidentidade” nada tem de irónica, tal como era descrito no “Labirinto”. Somos, sim, quem sempre quisemos ser. E todavia, não estando já em África, nem na Europa, onde nunca seremos o que sonhámos, emigrámos todos, coletivamente, para Timor». E, por momentos, então, parecemos regressar ao centro do mundo… Mas o certo é que essa ilusão momentânea, enquadrável na ciclotimia nacional, depressa deu lugar à depressão das crises que se foram instalando, ao cairmos em nós, depois do chuveiro de euros, como tinha acontecido no século XIX com as libras do Sr. Fontes.

UM ENSAÍSMO DE PRESENÇA
Em vários momentos, Eduardo Lourenço explicou-nos que o ensaísmo que praticou e pratica nunca foi feito por ele próprio para recuperar o país, que verdadeiramente nunca perdeu (sendo ele, afinal, um ausente presente), mas para o «pensar», com paixão e sangue-frio intelectual, lembrando o tempo antigo da «felicidade melancólica» do tempo em que era um «prisioneiro de alma». E aí está a extraordinária originalidade do discípulo de Montaigne e de Kierkegaard – ele, que quis pensar-se em simultâneo como universo pessoal em ligação com o universo mitológico da pátria – ilustrando plenamente o verso de O’Neill, «Portugal, questão que tenho comigo mesmo». Assim se entende a sua visão dos mitos, na linhagem de Antero e de Oliveira Martins – não como mitos da pura alienação, mas como mitos enquanto ideias projetadas no devir por um povo que toma consciência de si. Aliás, hoje, deve ler-se «O Labirinto da Saudade», a partir do magistral texto publicado na revista «Raiz e Utopia», prosseguindo com a luminosa análise de «Portugal como Destino». Os mitos e os contramitos são vistos como autorrepresentações críticas, irónicas, motivadoras, ilusórias, entusiastas ou redutoras – mas sempre como pistas para explicação ou para o conhecimento. E o ensaísta sabe, e di-lo com clareza meridiana, que não há uma mitologia nacional, mas mitos na história, que circulam e são sinais de permanência e de metamorfose. Daí que o escritor recorra aos poetas do seu santuário – Camões, Antero e Pessoa – para melhor avaliar o sentido das mitologias, compreendendo, pela reflexão e pelo pensamento, quais projetam esperança no futuro (no sentido da «maravilhosa imperfeição») e quais são provas póstumas e sinais de decaimento, como no sebastianismo. Nesse ponto, Vieira é um companheiro também presente nessa apaixonante busca de palavra e utopia…

MEMÓRIA ESPONTÂNEA E CULTIVADA
Lembremo-nos do que escreveu Eduardo Lourenço em «Nós e a Europa – Ou as Duas Razões»: «Povo com larga memória espontânea e cultivada de si mesmo, nação com definição política, territorial e cultural de muitos séculos, Portugal não parece exemplo particularmente interessante dos fenómenos, hoje tão angustiosos para outros povos, comunidades ou continentes inteiros, de “crise de identidade”. Nós pensamos saber quem somos, por ter sido largamente quem fomos, e pensamos que nada ameaça a coesão e a consistência da realidade que constituímos». Daí a «hiperidentidade» detetada pelo escritor, centrada numa «quase mórbida fixação na contemplação e no gozo da “diferença” que nos caracteriza». As fragilidades ligam-se ao fazer das fraquezas forças. E vem à lembrança a analogia com o povo judaico, com uma diferença: Portugal não espera o Messias, o Messias é o seu próprio passado, convertido na mais consistente e obsessiva referência do seu presente, podendo substituir-se-lhe nos momentos de maior dúvida sobre si ou constituindo até o horizonte mítico do seu futuro». Não por acaso, Eduardo Lourenço descobre em Fernando Pessoa, muito para além do que alguns quiseram ver na «Mensagem», a essência da multiplicação e a capacidade de ver de dentro e de fora, abarcando o mito na sua heterogeneidade: «a poucas nações se aplicaria tão bem, como a Portugal, a imagem do navio-nação e melhor ainda a de “nação-navio”, pela identidade de destino e o projeto que encarnou, deslocando-se no espaço e no tempo, mas tão sempre a mesma na diferença apenas apreciável que a História vai constituindo». E há ainda o paradoxo, que não pode ser esquecido, de uma sublime vocação de não-identidade dos portugueses («aptos a ser tudo e todos», caso em que «não seríamos ninguém»). Veja-se, aliás, a atual crise e o certo regresso a questões de sobrevivência. De novo a imagem da «nação-navio» faz sentido, ao lado da metáfora do cais de partida e de chegada. E Eduardo Lourenço ainda acredita na lógica cosmopolita, do universalismo autêntico (agora relembrado, pela reedição de «A Chave dos Profetas» do Padre Vieira), capaz de fazer «ressuscitar, como Novalis o sonhou, uma outra-Europa, onde não triunfem apenas instâncias obscuras, sem outra ideologia que a da gestão do “ouro do Reno” wagneriano, convertido em deus do coração humano. Sem a música do génio para redimir tão sinistros atores do nosso destino coletivo. Sempre era uma consolação» (Público, 24.11.2012). Vamos, apesar de tudo, conhecendo-nos melhor, e pondo a vontade no lugar próprio, em vez do fatalismo.

Guilherme d'Oliveira Martins