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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Assinalamos os cinquenta anos da criação de revista «O Tempo e o Modo», tão ligada ao Centro Nacional de Cultura, marco fundamental na renovação do debate de ideias, bem como do pensamento e da ação no início dos anos sessenta, graças ao impulso, à premonição e à generosidade de António Alçada Batista (1927-2008) e da equipa que constituiu na Livraria Moraes, num momento decisivo de mudança no destino português, aberto em 1958 pela candidatura presidencial de Humberto Delgado, pelo célebre memorando do Bispo do Porto dirigido a Salazar e por tudo o que se seguiu.

A VIDA DOS LIVROS
de 4 a 10 de fevereiro de 2013

Assinalamos os cinquenta anos da criação de revista «O Tempo e o Modo», tão ligada ao Centro Nacional de Cultura, marco fundamental na renovação do debate de ideias, bem como do pensamento e da ação no início dos anos sessenta, graças ao impulso, à premonição e à generosidade de António Alçada Batista (1927-2008) e da equipa que constituiu na Livraria Moraes, num momento decisivo de mudança no destino português, aberto em 1958 pela candidatura presidencial de Humberto Delgado, pelo célebre memorando do Bispo do Porto dirigido a Salazar e por tudo o que se seguiu.

UMA REVISTA DIFERENTE
Não podemos compreender o que se passou até 1974, e depois, sem conhecer o que a geração dos jovens que lançaram e sustentaram a revista foi capaz de pensar e de agir. Basta lermos o sumário na capa do primeiro número e folhearmos a revista, para percebermos que há sinais proféticos desconcertantes (perante a “desordem estabelecida”) e o anúncio de um caminho cosmopolita, aberto, europeu, assente na democracia. António Alçada Batista no primeiro texto que assinou usa, aliás, um eufemismo, que hoje quase nos faz sorrir: “se numa sociedade não estiver institucionalizado o modo normal, efetivo e legítimo de formulação e execução da vontade do todo, nomeadamente da sua forma de representação, toda a expressão pública é uma simples forma de opinião e não uma representação da vontade comum”. Em vez da referência às instituições democráticas, para iludir os censores, recorria à misteriosa expressão “instituições que pressupõem uma certa dialética”. Os fundadores da nova revista pertenciam a uma geração não-conformista vinda dos movimentos católicos, desde o I Congresso da JUC (Juventude Universitária Católica) até ao jornal «Encontro» e ao Congresso proibido da JOC (Juventude Operária Católica), que rompera com o regime. Em 1945, não tivéramos a democracia esperada, apesar da vitória dos aliados. Ao longo dos anos cinquenta manifestaram-se evidentes contradições, na governação e nas oposições. As gerações conservadoras que vinham de antes da guerra mantinham os velhos temas e uma lógica de protecionismo, mas havia quem acreditasse na exigência de romper fronteiras e de abrir o caminho para a Europa e para novas instituições. António Alçada Batista iniciara o que designaria como a “aventura da Moraes”. Uma editora da Rua da Assunção fora posta à venda, Alçada aplicaria nela o dinheiro que tinha. Havia que aproveitar a oportunidade. O clima parecia propício. Havia ideias e existia supostamente público para os livros que tinham de ser publicados, havia jovens voluntariosos e havia os efeitos da candidatura de Delgado e da atitude do Bispo do Porto… “É preciso ter presente – diz António Alçada – que, nesse tempo, a Igreja, o Exército, o funcionalismo público e a burguesia de província (estruturalmente ligada à Igreja), constituíam as forças sociais de apoio da situação saída da Revolução de 28 de maio de 1926”. Havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se pelas ideias romper os vários conformismos, agitar as águas – com uma “revista de pensamento e ação”. Pedro Tamen, um desses jovens, formularia o programa, com palavras significativas: “A ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo.” A preparação do novo projeto começa nas coleções. Além de «O Tempo e o Modo», que publicara Maritain, Mounier e o Padre Manuel Antunes, temos ainda o “Círculo do Humanismo Cristão”. G.K. Chesterton, Jean Lacroix e François Perroux são traduzidos. José Escada concebe a linha gráfica. Um pequeno grupo lança as bases da revista – Alçada, Bénard, Tamen, Bragança, Vaz da Silva e Murteira. António Alçada seria proprietário e diretor; João Bénard da Costa, chefe de redação e Pedro Tamen, editor. Em 29 de janeiro de 1963, dia dos anos de António, nascia formalmente “O Tempo e o Modo” – revista, usando a fórmula de Pedro Tamen.

MAS COMO? 
Seria uma revista só de católicos? Se assim fosse, seria uma traição a Mounier, que se demarcara em 1932, ao criar «Esprit», de Maritain – propondo um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços. E assim aconteceu. Havia outros católicos de um setor mais técnico (como Adérito Sedas Nunes ou Alfredo de Sousa), havia os jovens estudantes da greve de 1962 (como Manuel de Lucena, Jorge Sampaio, Jorge Santos e José Medeiros Ferreira, decisivos nos recentes acontecimentos) e havia os agnósticos, como Mário Soares e Salgado Zenha. Abrir ou não abrir? – eis a questão. Foi feita uma votação. João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé-Maria para que o Espírito Santo nos iluminasse”. Resultado: cinco votos a favor da abertura, dois contra. A abertura estava decidida! Perante a deliberação, António Alçada propõe o convite a Mário Soares e a Francisco Salgado Zenha. E entraram Francisco Lino Neto (originário de uma família com tradições no Centro Católico, que talvez o primeiro católico a questionar a política colonial do regime), Orlando de Carvalho, de Coimbra, Mário Brochado Coelho, do Porto. E, para surpresa de muitos, também surgiu o jovem Mário Sottomayor Cardia. Pouco depois entrariam Vasco Pulido Valente, João Cravinho, Francisco Ferreira Gomes e Vítor Wengorovius. O primeiro número era o espelho da abertura desejada: “Notas sobre a Perturbação de certas Sociedades Contemporâneas” de António Alçada Batista; “Em torno da Universidade” de Jorge Sampaio e Jorge Santos; “Oliveira Martins e a Questão do Regime” de Mário Soares; e ainda “O Concílio Vaticano II”, de M.M. (que escondia a verdadeira identidade do Padre António Jorge Martins). Na redação, a secção que mais críticas suscita é a de “Artes e Letras”. Manuel Poppe fala de “O Manto” de Agustina Bessa-Luís, António Ramos Rosa debruça-se sobre um texto de M.S. Lourenço (“O Doge”), Ruy Belo fala de Herberto Hélder… Mas onde estavam os autores críticos do regime? Por que razão era dada tanta importância a Agustina? Alberto Vaz da Silva, responsável pela secção, ouve crítica muito duras… Aliás, falando de críticas, recorde-se uma pequena frase de Alçada no terceiro número, que causaria um autêntico vendaval. Dizia ele que ao “arbítrio de Batista” se tinha sucedido “o extremismo de Fidel”. Tanto bastou para que houvesse fortes reparos. Mas no quinto número tudo seria ainda pior, por causa de uma referência de Alçada ao “conformismo da esquerda bem pensante”, de que eram exemplo as práticas da “Seara Nova”… Soares e Zenha procuram pôr água na fervura, mas uma nova guerra abriu-se. Sottomayor Cardia intervém. A sua aparente candura, não fazia adivinhar a violenta reação que se sucedeu. Na reunião seguinte da revista, Cardia, falando sempre baixo, afirmou que o texto de Alçada apenas demonstrava um “sinistro conluio” entre a democracia cristã e a social-democracia, servindo “O Tempo e o Modo” de capa oportuna e oportunista para esse terrível entendimento. Anunciou então que se demitia e que exigia a publicação de uma carta a esclarecer tudo. Mário Soares tentou promover um “comité” que acalmasse o “rapaz”. A diligência pareceu produzir efeitos positivos. Aparentemente, Sottomayor Cardia foi serenado e não exigiu a publicação da carta. No entanto, poucos dias depois, a “Seara” publicava a dita carta, com o devido destaque, e foros de escândalo, antecedida de palavras de esclarecimento e de um elogio de Rogério Fernandes, então diretor da revista da Rua Luciano Cordeiro. Esta dissidência causou perturbação na vida da redação de “O Tempo e o Modo”. Jorge Sampaio, Manuel de Lucena e João Cravinho inquietam-se. Uma polémica com a “Seara” seria altamente inconveniente. Mário Soares toma a pena e redige um editorial muito hábil, recusando que houvesse um ataque divisionista ou malévolo. “O Tempo e o Modo” não atacou nem atacará a “Seara Nova” – “revista por cujo passado tem o maior respeito e cujo presente aprecia”. No número 6, surgiu novo tema quente, Vergílio Ferreira e Alexandre Pinheiro Torres envolveram-se numa polémica sobre o neorrealismo. A revista, que não fugia a questões incómodas, fez o seu primeiro número especial sobre o tema. “A Arte deve ter por fim a verdade prática?” O tema era difícil. E houve que ir buscar quem fosse pelo não (o que era afirmação considerada suspeitíssima), sem apresentar sombra de pecado. Jorge de Sena, Eduardo Lourenço, António Pedro, José-Augusto França começaram então a colaborar na revista e novos horizontes se abriam. Mas as vozes do sim foram também ouvidas. Lá estiveram Óscar Lopes (cunhado de Jorge de Sena), José Fernandes Fafe, Mário Dionísio, Batista Bastos e Luís Francisco Rebelo. Foi, porém, um número civilizado e dialogante, que não deixou calmos os críticos e os desconfiados. João Bénard da Costa confessa que então percebeu “comme les républicains peuvent être réactionnaires en matière d’art ».

UMA BREVE SÍNTESE
Vasco Pulido Valente sintetiza, de modo exemplar: «‘O Tempo e o Modo’ não foi uma má revista. Longe disso». A verdade é que “o regime e o PC, ou os seus companheiros de caminho, dominavam e fiscalizavam a opinião pública e a produção académica, ensaística e cultural que se publicava. ‘O Tempo e o Modo’ recebeu e promoveu muitas vítimas deste arranjo», desde Vergílio Ferreira a Eduardo Lourenço, de Agustina Bessa-Luís a Sophia de Mello Breyner, passando por António-Pedro Vasconcelos e João César Monteiro. «Tratámos Jorge de Sena como ninguém o tratou em vida e José Régio como ninguém o tratou depois”. Afinal, usando uma expressão cara a João Bénard, a revista foi «o piano de uma geração que rejeitava simultaneamente a ditadura, o velho republicanismo jacobino e o PC». E Vasco Pulido Valente, ativíssimo membro da redação, recorda ainda que “a censura e o PC, pelo menos, achavam-nos à altura merecedores da sua execração”. Apesar de mil tentativas para suavizar os efeitos devastadores do lápis azul, a censura “demolia” todos os meses “dois terços de cada número, uma proporção altamente anormal, mesmo para as circunstâncias e os hábitos estabelecidos”… Tudo isto foi possível graças à generosidade de António Alçada Batista, que tinha um espírito aberto, que favorecia a liberdade, e que perdeu na revista uma fortuna, bem como de João Bénard da Costa que «conservou, contra ventos e marés, um fervor pela revista e uma convicção da sua importância que o sustentaram a ele e a nós em crises quase diárias e desesperos permanentes»… E este mesmo reconhece “a satisfação de ter contribuído para erguer uma revista culturalmente marcante e onde se multiplicaram das melhores e menos estúpidas coisas que nesse período se escreveram na imprensa portuguesa”. Aqui diz-se tudo. Os das gerações mais novas reconhecem-no sem sombra de dúvidas. Para além das situações e dos debates, dos arrufos e das zangas, os animadores da revista tiveram, como poucos, a lúcida compreensão de que o futuro seria radicalmente diferente e que todos se deveriam preparar para ele… 

Guilherme d'Oliveira Martins


Edição: 04 de fevereiro de 2013