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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«Chica da Silva e o Contratador de Diamantes: o outro lado do Mito», de Júnia Ferreira Furtado (Companhia das Letras, 2003) é uma oportunidade para conhecermos um pouco mais o Brasil mineiro do século XVIII, com as suas contradições, dúvidas e projetos.

A VIDA DOS LIVROS
de 29 de Outubro a 4 de Novembro de 2012


«Chica da Silva e o Contratador de Diamantes: o outro lado do Mito», de Júnia Ferreira Furtado (Companhia das Letras, 2003) é uma oportunidade para conhecermos um pouco mais o Brasil mineiro do século XVIII, com as suas contradições, dúvidas e projetos.

EM FRENTE DA CASA DE CHICA DA SILVA
É manhã em Diamantina, há uma leve e fresca brisa, o céu está nublado, e paramos diante da casa que foi de Chica da Silva. Estamos no velho Arraial do Tijuco, perante um solar tipicamente português, semelhante aos que encontramos em Goa, com beirado, um primeiro andar austero e treliças nas janelas altas. A tradição da casa portuguesa aqui está. A cidade bem poderia ser do Minho ou das Beiras. A mansão senhorial (com eira e beira) está num ponto alto da cidade. Por aqui entramos na urbe, concebida pelos engenheiros militares portugueses, com uma estrutura tradicional, condicionada pela divisão da propriedade, sem um plano preconcebido, ao contrário da colonização espanhola, com grandes quadras, rua direita e largo do mercado ou da quitanda. O solar, adquirido pelo desembargador João Fernandes de Oliveira (1720-1779), contratador de diamantes, bacharel em leis pela Universidade de Coimbra, foi a morada onde este viveu, com Francisca da Silva Oliveira, antiga escrava, mulata alforriada, de quem teve treze filhos, todos reconhecidos, o que na altura era incomum. A célebre Chica da Silva. E a verdade é que, apesar de concubina e de ter vivido quase sozinha a partir de cerca 1770, ganhou grande influência social, participando nas quatro irmandades da cidade: quer nas de brancos, como do Carmo e de S. Francisco, quer nas de mulatos e negros, as das Mercês e do Rosário. Sentimos a aura desta mulher notabilizada pelas mais variadas lendas, ao caminharmos até à igreja de Nossa Senhora do Carmo. Lembre-se que as ordens e os seus conventos estavam interditos nas regiões de mineração, cabendo a iniciativa de culto às irmandades, neste caso à da Ordem Terceira do Carmo. O templo acabou por ser financiado apenas por João Fernandes, que se desentendera com os outros membros da Irmandade, ao escolher o local para a construção, na proximidade da sua Casa do Contrato. A igreja barroca (1765) de nave retangular, com óculo rococó na fachada, tem uma característica singular, pois possui uma torre, não colocada na fachada, mas atrás da nave. Há diversas explicações para o facto: ou a situação permitiria que Chica da Silva frequentasse os ofícios, porque uma regra proibiria os negros de irem "além das torres", ou porque assim o toque dos sinos incomodaria menos a casa da benemérita. Não importa entrar em grandes considerações. A verdade é que a vida do desembargador João Fernandes, regressado a Lisboa, foi perturbada pelo fim abrupto do contrato de exploração de diamantes, apesar dos apoios dados pelo pai e homónimo ao financiamento da reconstrução de Lisboa depois do grande terramoto. Isto, por decisão do Conde de Oeiras, Sebastião José, em paralelo com complexos arranjos testamentários, em torno de notáveis casas da cidade de Lisboa, entre as quais a célebre «Casa da Lapa», na Rua do Sacramento, no sítio de Buenos Aires, que hoje alberga a Fundação Luso-Americana e assim está remotamente ligada a Diamantina e também a Chica da Silva.
 
DEAMBULAÇÃO EM DIAMANTINA
Mas continuamos a peregrinação de Diamantina. Rua da Quitanda, Casa do Muxarabié, o comércio crepita nas margens do Jequitinhonha com intensidade: panos bugigangas, tapetes de arraiolos, botecos. É uma cidade do século XVIII plantada nos dias de hoje. Muxarabié é o balcão com treliças de influência moura que esconde a biblioteca do Dr. António Torres – cuja bengala foi celebrizada na prosa de Nemésio. Mais adiante, está a Catedral Metropolitana de Santo António, construção do século passado que substituiu a antiga Sé, agora com dois preciosos altares de talha dourada da velha igreja, invocativos de Nossa Senhora e de Santo António. A igreja barroca de S. Francisco de Assis, no início da ladeira do mesmo nome, foi concluída em 1772, e tem pinturas de Silvestre de Almeida Lopes. Aí está sepultada, com honras excecionais, Chica da Silva. Em frente, no largo fronteiro, encontra-se a estátua de Juscelino K., que pontua como referência do herói cívico e político da cidade que o viu nascer. No pequeno museu do diamante, na casa que foi do Padre Rolim, um dos inconfidentes mineiros, lembramos o início clandestino desta exploração, iniciada em 1713, mas só oficializada junto do Rei de Portugal nos anos trinta. Primeiro funcionou a regra do quinto, que também se aplicava ao ouro, mas depressa se percebeu que o regime deveria ser outro e a Carta Régia de 9 de Fevereiro de 1730 deu plenos poderes a D. Lourenço de Almeida para regular e providenciar sobre a exploração de diamantes. Calcula-se que entre 1730 e 1860 tenham sido produzidos, em Minas Gerais, 610 quilos de diamantes, sendo o Brasil nesse tempo o primeiro produtor mundial. Vemos alguns dos exemplos das preciosidades…

UM MERCADO CONHECIDO
Seguimos para o mercado, estrutura de madeira semelhante aos nossos mais antigos de Entre Douro e Minho, como o de Ponte de Lima. O desenho dos arcos denuncia influência árabe, e foi aqui que Niemeyer se inspirou para o projeto da fachada do palácio da Alvorada. Com o estômago carecido de urgente restauração, recompomo-nos magnificamente com uma refeição mineira no «Apocalipse», num primeiro andar, debruçado sobre o largo do mercado e o início do chamado caminho dos escravos. E vêm as sobremesas, que superam tudo o que seria esperável, como se fora Menino Jesus em metáfora doce. Depois, retomamos a caminhada por entre as ruas acolhedoras que nos são muito familiares. Muitos dos colegas de viagem dizem desejar que o tempo pare para poderem gozar deste ambiente tão português, com uma pureza fantástica, bem evidente, por exemplo, na rua do Burgalhau. E vamos à igreja da irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos (1728), a mais antiga da cidade, com um frontão em madeira e arquitetura da Contra-Reforma, com imagens dos santos da devoção da irmandade: Santo António de Cartagerona, S. Benedito, Santa Ifigénia e Santo Elesbão. Deambulamos pelos altos e baixos da cidade, tomamos contacto com o barroco e o rococó, dentro do recato próprio de uma cidade excêntrica que conseguiu manter a descoberta dos diamantes escondida durante mais de duas décadas. Vamos ainda à casa do Presidente Juscelino Kubitschek e depois até ao Passadiço da Glória, verdadeiro ex-libris da cidade, a lembrar os tempos em que o velho orfanato era incomodado pelo barulho suspeito do Bataclan. O passadiço azul é de 1878, quando os dois prédios passaram a ser do orfanato dirigido pelas irmãs de S. Vicente de Paulo. Fora casa de dona Josefa Maria da Glória, depois residência dos intendentes do distrito e lá ficaram hospedados grandes exploradores como Auguste de Saint-Hilaire, Langsdorff, von Martius e Richard Burton. Hoje, alberga o centro de geologia dedicado ao nosso bem conhecido Barão Wilhelm von Eschewege (1777-1855), que visitou o Arraial de Tijuco em 1811 e é considerado o patriarca da geologia brasileira, tendo sido intendente das Minas de ouro (1811). Amigo de Goethe, foi encarregado por D. Fernando II, se grande admirador, para reconstruir o Palácio da Pena e o seu parque. À noite, tivemos uma tocante seresta, que é uma serenata mineira, com uma ternura muito especial e ecos, ora do fado, ora das mornas cabo-verdianas. E tudo acabou, com intensa emoção, a recordar J.K. e a sua querida canção emblemática. «Como pode um peixe vivo / viver fora de água fria».

UM OUTRO MUNDO
Pela manhã, muito cedo, às seis, à hora prima de tempos imemoriais, voltámos à estrada em direção a Inhotim, passando à ilharga de Belo Horizonte. E que é esse parque imenso de futuro, iniciativa de Bernardo Paz senão um encontro único com a arte de hoje, com a botânica e o meio ambiente, a cidadania e a inclusão, o desenvolvimento sustentável e a educação? Janet Cardiff joga com o som, Adriana Varejão com os azulejos, Edgar de Souza com os corpos e Cildo Meireles com os espaços. Inhotim é a certeza de que é o futuro o que o passado anima…

Guilherme d'Oliveira Martins