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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«Nacionalismo e Patriotismo na Sociedade Portuguesa actual» (IDN, s.d., 1988) é um conjunto de ensaios escritos sobre um inquérito de opinião lançado o tema para os cidadãos em geral, sob a coordenação do General Pelágio Castelo Branco. Estamos perante um rico conjunto de reflexões, de Eduardo Lourenço, António Quadros, J. M. Silva Pinto e Manuel Braga da Cruz, que ainda hoje merecem uma leitura atenta.

A VIDA DOS LIVROS
de 15 a 21 de Outubro de 2012


«Nacionalismo e Patriotismo na Sociedade Portuguesa actual» (IDN, s.d., 1988) é um conjunto de ensaios escritos sobre um inquérito de opinião lançado o tema para os cidadãos em geral, sob a coordenação do General Pelágio Castelo Branco. Estamos perante um rico conjunto de reflexões, de Eduardo Lourenço, António Quadros, J. M. Silva Pinto e Manuel Braga da Cruz, que ainda hoje merecem uma leitura atenta.

CULTURA E DESENVOLVIMENTO HUMANO
A cultura é um elemento fundamental que ganha uma importância crescente, uma vez que significa a resposta positiva à prevalência da ilusão materialista e especulativa da sociedade política e dos mercados financeiros, que ocupou o lugar da criatividade social e económica – com a ênfase no valor e não apenas no preço. O desenvolvimento humano, que os últimos anos têm estudado, quer a partir da noção de capital social (de Putnam) quer de acordo com a investigação sobre a justiça (de J. Rawls, Amartya Sen e Michael Walzer) obriga a encarar de um modo atento à integração e à complexidade a criação económica como constituição de valor humano. A paz, a segurança, a coesão económica, social e territorial, a confiança, o respeito mútuo, a preservação das diferenças, a liberdade, a igualdade, a responsabilidade, a afirmação das identidades como realidades abertas à cooperação e à troca – são elementos que têm de ser considerados quando falamos do conceito integrado de defesa nacional nas sociedades contemporâneas. Num caso como o de Portugal, o tema merece uma especial atenção, considerando uma História multifacetada de abertura, de absorção de diferentes influências e de projeção global no mundo. Em virtude de uma sucessão multissecular de acontecimentos, a cultura portuguesa tem uma base europeia, mas ramifica-se como influência e como língua comum pelos cinco continentes, com mais de duzentos milhões de falantes. Estamos, pois, perante um pequeno país com ramificações globais equiparáveis às de uma grande potência. É assim desadequado o debate sobre qual o centro de gravidade do português, colocado em termos de alternativa entre a Europa e a chamada lusofonia. Antes do mais: (a) historicamente, Portugal nasceu na Europa, como um Estado que precedeu a Nação (o que tem sido referido pela moderna historiografia, bastando citar, entre outros, de Alexandre Herculano a José Mattoso; (b) o Oceano Atlântico e o Mar Mediterrâneo constituem elementos essenciais para a caracterização estática e dinâmica da realidade portuguesa (como no-lo ensinou Orlando Ribeiro); (c) A génese da lusofonia tem a ver com uma singular complementaridade entre uma sociedade antiga de base europeia, que se prolonga num conjunto diversificado de Estados, nações e comunidades espalhadas perlo mundo, caracterizados pela diversidade cultural e por estarem ligados entre si através de laços históricos, sociais e linguísticos; (d) a identidade portuguesa caracteriza-se, deste modo, pelas suas diferenças e complexidade, a partir da convergência de múltiplas influências (a começar na razão de sermos a finisterra peninsular e europeia) e da dispersão extraeuropeia, iniciada com a vaga dos descobrimentos e prosseguida nas vagas migratórias dos últimos séculos; (e) neste sentido, estamos perante uma identidade aberta que ganhou sempre que recebeu diversas influências e que decaiu quando se fechou, como ocorreu em parte do século XX.

UMA IDENTIDADE ESTÁVEL
Essa identidade manteve uma evidente estabilidade ao longo dos séculos (a partir sobretudo dos séculos XII e XIII) caracterizada pela inexistência de conflitos étnicos, religiosos ou linguísticos e pela mobilidade inter-regional. A verdade é que estas considerações carecem de uma análise cuidadosa, uma vez que há uma ciclotimia congénita que não deve ser esquecida e que se manifesta a cada passo. É, aliás, curioso lembrar o que Jorge Dias afirmou no seu célebre ensaio sobre a identidade portuguesa: «No momento em que o português é chamado a desempenhar qualquer papel importante, põe em jogo todas as suas qualidade de ação, de abnegação, sacrifício e coragem, e cumpre como poucos. Mas se o chamam a desempenhar um papel medíocre que não satisfaz a sua imaginação, esmorece e só caminha na medida em que a conservação da existência o impele. Não sabe viver sem sonho e sem glória». O ensaio de Jorge Dias é fundamental e não pode ser esquecido, mas carece de atualização, para que não seja lido pelo lado da simplificação, que não está na atitude essencial do seu autor. Perante as dificuldades vividas no contexto da crise financeira internacional dos dias de hoje, torna-se bastante evidente que a conclusão «não sabe viver sem sonho e sem glória, merece um alerta crítico. É que o sonho muitas vezes torna-se ilusão perigosa, e então os mitos tornam-se castelos no ar, como Mestre Gil no-lo representou magnificamente no azeite entornado da pobre Mofina, do mesmo modo que a glória pode tornar-se retrospetiva e pouco ligada ao desafio exigente e criador de uma sociedade futura melhor. E o certo é que há na sociedade portuguesa o risco de três sombras trágicas: a mediocridade, a periferia e a irrelevância. É que, num mundo global, a defesa de uma identidade não pode perder de horizonte a autonomia de vontade, que também tem a ver com as condições para o agir, bem como com os recursos próprios e a criação a pôr em prática segundo vantagens competitivas.

PATRIOTISMO E COSMOPOLITISMO
Eduardo Lourenço fala de um «novo patriotismo» da geração de 1870, que assume uma «cruzada crítica» e um «pessimismo metódico», «cujo objeto não é uma pátria mítica com os seus rituais mais ou menos fúnebres», mas um Portugal Contemporâneo, a que se recusa o estatuto de condenado fatalmente ao atraso – vivendo e alimentando-se o patriotismo «do justo apreço das nossas coisas, do desejo de explorar as nossas possibilidades, comum a todos os homens». E de que estamos hoje a falar, nessa perspetiva aberta? Numa lógica cosmopolita, falamos do projeto europeu, no qual a democracia e a Europa são chaves atuais da afirmação da identidade. Uma União de Estados e Povos livres e soberanos obriga a que, como participantes ativos de um projeto comum, sejamos mais criadores. Do projeto universalista, assumimos desde as nossas origens como Estado antigo, mas não realizámos a nossa personalidade coletiva numa lógica retrospetiva mas numa orientação que hoje designaremos como futurante – fizemo-nos nas provações e dificuldades. A adequação de meios e fins leva-nos a que o sonho e a glória que povoam a nossa imaginação obriguem a uma ponderação mais rigorosa daquilo que temos e do que queremos alcançar, aliando sobriedade e desenvolvimento Quanto a novas formas de cooperação, a globalização, a inserção europeia, a lusofonia, a abertura a novos espaços e iniciativas obrigam-nos à audácia e à inovação. Assim, a aprendizagem torna-se o fator decisivo de desenvolvimento, como saber de experiências feito. O espírito inovador só será cultivado através de uma definição clara de prioridades ligadas à educação, à cultura e à ciência, considerando que a aprendizagem é o elemento crucial para o desenvolvimento moderno – já que o que distingue o desenvolvimento do atraso é a capacidade de aprender mais e melhor – mobilizando os recursos disponíveis a todos os níveis. A defesa nacional obriga, assim, à cooperação diversificada com centros de investigação mundiais de elevada qualidade, no âmbito de redes internacionais reconhecidas e avaliadas – em especial em domínios para os quais haja apetências adequadas. Não basta continuar a falar-se ciclicamente dos oceanos e dos mares – precisamos de atos concretos e de resultados, conseguidos através da modéstia do trabalho e da qualidade, da determinação e da audácia. E o certo é que essa disciplina e essa exigência têm de se manifestar transversalmente nas ciências, nas artes, na criação e na criatividade, no conhecimento e na compreensão.

A LÍNGUA PORTUGUESA
E impõe-se afirmar que a língua portuguesa e a cultura obrigam a apostar nas Humanidades como fatores de diálogo com as culturas científicas. O português é a terceira língua europeia mais falada no mundo, mas não é a terceira mais influente. Isso apenas ocorrerá quando houver «join-ventures» inteligentes, designadamente com os países e economias emergentes, envolvendo os centros mais avançados e de investigação de ponta. De facto, a língua, a educação, a cultura, a ciência – e as Humanidades, numa nova atitude de abertura e de profunda renovação, apenas se afirmarão e prestigiarão se se desenvolver uma cooperação efetiva entre diversos centros científicos e académicos, sem nos esquecermos dos nossos clássicos, dos nossos artistas, das nossas instituições… E mais do que discutir quanto vale em termos de Produto Interno Bruto, a língua, basta-nos dizer que é um património imaterial de um valor incalculável, o veículo utilizado em breve por trezentos milhões de pessoas para comunicarem, para se exprimirem e para criarem…

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 15 de outubro de 2012