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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«Tentar Perceber» de Vasco Pulido Valente (INCM, 1983) reúne diversos ensaios onde o autor se ocupa da interrogação fundamental sobre a identidade portuguesa, procurando superar muitos dos lugares comuns e simplificações que amiúde se ouvem e se repetem. Sobretudo no tocante à nossa identidade há um desenvolvimento crítico das conceções provindas de Herculano, Oliveira Martins, António Sérgio e Orlando Ribeiro, considerando que o Estado precedeu a nação, não podendo compreender-se a evolução até aos nossos dias de Portugal e a continuidade nacional sem a compreensão dessas circunstâncias.

A VIDA DOS LIVROS
de 27 de Agosto a 2 de Setembro de 2012


«Tentar Perceber» de Vasco Pulido Valente (INCM, 1983) reúne diversos ensaios onde o autor se ocupa da interrogação fundamental sobre a identidade portuguesa, procurando superar muitos dos lugares comuns e simplificações que amiúde se ouvem e se repetem. Sobretudo no tocante à nossa identidade há um desenvolvimento crítico das conceções provindas de Herculano, Oliveira Martins, António Sérgio e Orlando Ribeiro, considerando que o Estado precedeu a nação, não podendo compreender-se a evolução até aos nossos dias de Portugal e a continuidade nacional sem a compreensão dessas circunstâncias.

PORTUGAL – TERRITÓRIO ABERTO AO MUNDO
Portugal é um território que, ao longo dos séculos, foi ponto de chegada e de partida, «onde a terra se acaba e o mar começa» (Lusíadas, III, 20). A hospitalidade que tantas vezes é referida como característica da atitude portuguesa tem a ver com essa dualidade – que as dificuldades económicas condicionam. Estamos perante uma cultura de diálogo, de encontro, mas igualmente de confrontos e de paradoxos. Eduardo Lourenço parte daí na sua psicanálise mítica do destino português, publicada no fim dos anos setenta em «Raiz e Utopia». A tradição e a modernidade coexistem, ora como resistência à mudança, ora como visionarismo imposto pela sobrevivência – a lembrança de glórias passadas procura compensar as medianias presentes. O caso do ambíguo sucesso de Fernando Pessoa no século XX é bem ilustrativo dessa tensão. O poeta tornou-se, nos dias de hoje, um símbolo do Portugal moderno, mas quando «Orpheu» apareceu, em 1915, muitos dos comentários ouvidos na opinião publicada da altura consideravam, no mínimo, que se estava perante um grupo marcado pela loucura. Anos volvidos, os heterónimos de Pessoa facilitam uma interpretação suficientemente ampla das suas ideias de modo a simbolizarem a unidade e a heterogeneidade de uma cultura capaz de mimetizar a modernidade. Como território aberto à circulação do mundo, Portugal é um espaço que se enriquece pelas contradições e complementaridades. Orlando Ribeiro teve a suprema virtude de proceder à consideração das questões geográficas, limpando-as de fantasias e erros. Foi, assim, o melhor intérprete do diálogo entre a terra e as gentes, citando a autoridade de Pierre Birot para caracterizar a individualidade portuguesa: «Assim puderam longamente amadurecer, ao abrigo de fronteiras que são as mais velhas da Europa, os traços próprios da alma portuguesa e que a individualizam tão nitidamente em relação aos seus vizinhos peninsulares. De um lado, um povo orgulhoso e exaltado, pronto para todos os sacrifícios e para todas as violências que lhe inspirará a preocupação da dignidade; de outro lado, mais melancolia e mais indecisão, mais sensibilidade ao encanto das mulheres e das crianças, uma humanidade verdadeira onde se reconhece um dos tesouros mais preciosos do património da nossa velha Europa ocidental». O ocidente da Península Ibérica tornou-se diferente, autónomo e dotado de uma personalidade própria graças à história do Estado que precedeu a nação – e assim a geografia, a vontade das gentes e a frente marítima atlântica completaram esse fator decisivo. A Europa marca-nos porque somos cabo dela, o Atlântico dá-nos o espaço da descoberta e do desconhecido e o Mediterrâneo liga-nos às raízes antigas, centrípetas e centrífugas.

TENTAR EXPLICAR PORTUGAL
É sempre difícil e perigoso fazer simplificações. Andando de norte para sul, de leste para oeste em Portugal, partindo para as ilhas atlânticas, topamos, a cada passo, grandes diferenças, mas há um fundo comum de movimentos internos, que levam um minhoto e um algarvio a encontrar-se naturalmente, do mesmo modo que um alentejano mais ensimesmado ou um beirão voluntarioso depressa se tornam familiares próximos por muito que façam um esforço para encontrar as suas diferenças. A mesma língua, o mesmo Estado, a velha conscrição militar, a ânsia por um lugar no funcionalismo público – tudo isso constituiu uma forte rede que congregou duravelmente os portugueses. Foram tentadas várias explicações para justificar a individualidade de Portugal – ora românticas ora positivistas. Historiadores influentes, como Herculano e Oliveira Martins, disseram que Portugal é uma «nação inteiramente moderna», reconhecendo, contudo, as suas «raízes antigas». Na análise de Vasco Pulido Valente para os dois últimos séculos encontra-se uma homogeneidade político-cultural centrada no Estado-nação, que explica, em regra, que as lutas sociais não tenham assumido em Portugal «um elevado grau de virulência, nem durassem muito tempo». Tendo o Estado gerado a Nação, o centralismo desfavoreceu o autogoverno de comunidades locais ou regionais organizadas. Um Estado forte, atuante em momentos decisivos (formação da nacionalidade, descobrimentos, Restauração, reconstrução no terramoto) foi capaz de subordinar a sociedade aos seus objetivos estratégicos, o que permitiu a um país pouco povoado e com óbvias debilidades económicas construir um império universal pioneiro no contexto europeu. O centralismo do Estado favoreceu, ao longo do tempo, o paradoxo da estabilidade e da vulnerabilidade aos pronunciamentos militares (muito nítida no liberalismo do século XIX). A ausência de tensões étnicas ou linguísticas, impediu, todavia, a criação de um Estado tirânico ou sacralizado. E, ainda segundo a síntese correta de Pulido Valente: «a específica tragédia do destino português está em que ele não refletiu essencialmente a dinâmica própria de uma sociedade (sem independência perante o Estado), mas antes de mais a simples capacidade de assaltar e ocupar a máquina deste último» («Tentar Perceber», p. 358).

OS HIBRIDISMOS GEOGRÁFICOS E SOCIAIS
A dimensão reduzida do território português suscita a proliferação de hibridismos geográficos e sociais. A mobilidade das populações e as influências entre regiões diferenciadas conduzem a que as explicações unívocas se tornem sempre imperfeitas e incompletas. Lembremo-nos, por exemplo, da intuição de António Sérgio sobre a importância do sal e das atividades marítimas, completada e corrigida por Virgínia Rau, deixando nítida a exigência da ponderação da complexidade das explicações. Uma pista de investigação, por muito sedutora que seja, obriga sempre à prova, que é tanto mais difícil quanto maior for o número de variáveis. Por isso, Orlando Ribeiro demonstrou que estão «entrelaçadas as condições geográficas e a formação de um corpo político de expressão original». Se é verdade que Herculano, Oliveira Martins, Alberto Sampaio, António Sérgio, Jaime Cortesão ou António José Saraiva deram realce a certos aspetos sociais e económicos, a verdade é que a moderna investigação centrada na complexidade, e voltando a dar atenção à história política, tem avançado no sentido da pluralidade dos fatores e das explicações. Somos porque queremos, mas também porque soubemos jogar com diversos elementos – e esse continua a ser o desafio difícil para combater a mediocridade e a irrelevância. Se um certo providencialismo resulta da omnipresença do Estado, da inexistência de divergências étnicas ou religiosas e da fragilidade da sociedade civil e da falta de um autogoverno local, a verdade é que somos chamados a mobilizar o melhor que temos, certos de que sem ilusões temos de ser muito mais exigentes na qualidade da organização, na educação, na cultura e na ciência, como europeus e como repartidos pelo mundo, sabendo assumir o humanismo universalista com inteligência.

Guilherme d’Oliveira Martins