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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«A Anunciação a Maria» de Paul Claudel (1868-1955), traduzida para português por Sophia de Mello Breyner Andresen (Aster, 1960), é na produção do dramaturgo francês um obra dramática considerada muito significativa, não apenas por ser emblemática no pensamento do autor, mas por encerrar uma forte tensão teatral, na qual o mistério do sagrado entra em diálogo direto com as angústias e as incertezas do mundo da vida. Dir-se-ia que estamos no âmago do teatro medieval, em que o sagrado e o profano se entrecruzam num paradoxo permanente.

A VIDA DOS LIVROS
de 6 a 12 de agosto de 2012

«A Anunciação a Maria» de Paul Claudel (1868-1955), traduzida para português por Sophia de Mello Breyner Andresen (Aster, 1960), é na produção do dramaturgo francês um obra dramática considerada muito significativa, não apenas por ser emblemática no pensamento do autor, mas por encerrar uma forte tensão teatral, na qual o mistério do sagrado entra em diálogo direto com as angústias e as incertezas do mundo da vida. Dir-se-ia que estamos no âmago do teatro medieval, em que o sagrado e o profano se entrecruzam num paradoxo permanente.

UM TEMA DIFÍCIL
A primeira versão da peça é do ano de 1892, sob o título «La Jeune Fille Violaine», tendo sido objeto de diversas versões e em 1912 com o título que viria a consagrá-la talvez como obra-prima do escritor. Em 1947 foi reescrita e apresentada na versão definitiva que conhecemos. E se pomos dúvida sobre o facto de ser a obra maior de Claudel, tal deve-se à circunstância de ombrear com «Jeanne d’Arc au bûcher» (1953), celebrizada pela obra musical homónima de Arthur Honneger, realizada com base no libreto do dramaturgo. Como afirmou Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde): «Em Claudel, a ação é o fruto da contemplação, que conserva ontologicamente o seu primado, como o lirismo conserva também a supremacia, ao longo de toda a parábola dramática claudeliana». Antes de tudo, há uma história de ciúme entre Mara e a sua irmã Violaine. Esta está noiva de Jacques Hury, que Mara ama em segredo. O pretexto para a intriga amorosa é um beijo, de compaixão e amor, que Violaine troca com Pierre de Craon, arquiteto das grandes catedrais, que alimentara um amor antigo pela jovem de quem agora se despede, e que contraíra a mais terrível das doenças do tempo, a lepra. Por esse ato de genuína consagração, Violaine contrai a lepra e torna-se indesejada, até por Jacques. Mara contrai matrimónio com este, mas eis que morre o filho de ambos, o que a leva, em desespero, numa noite de Natal, a ir ter com Violaine, que vive numa caverna, dedicada à oração, afastada dos povoados pela doença. Mara tenta, num ato de quase loucura, a intercessão de Violaine para que um milagre possa salvar o pequeno. E a verdade é que as preces de Violaine permitem fazer regressar o filho de Mara à vida. Mas esta não suporta esse dom magnífico e mata Violaine, não sem que esta consiga para a irmã a Graça do perdão do pai e do marido. Tudo, enquanto, inexplicavelmente, Pierre Craon fica curado da lepra. E Mara consegue finalmente a paz de consciência, o que acontece ao som do Angelus – o Anjo do Senhor veio anunciar a grande notícia a Maria. Estamos perante o tema sublime da posse de uma Alma pelo sobrenatural.

ENTRE O SAGRADO E O PROFANO
Claudel foi diplomata, com uma carreira brilhante, em Praga, Francoforte, Hamburgo, Xangai, Rio de Janeiro, Copenhaga, Tóquio, Washington e Bruxelas, irmão de Camille, a grande discípula e favorita de Rodin, viveu um dilacerante drama familiar, que culminaria na declaração da loucura da grande escultora. Apesar de consagradíssimo, Claudel viveu a angústia existencial, que o levou a assumir a sua «arte poética» como um condomínio permanente entre o pecado e a Graça, tornando-se um seguidor dos caminhos de Dostoievski. Longe de certezas ou de uma paz de espírito que alguns julgaram ver nele, como um facto redutor de uma autêntica capacidade dramática, Claudel deve ser relido nos dias de hoje, menos no contexto de algumas ambiguidades políticas, ligadas ao tempo da guerra, e mais na intensidade dramática que o aproxima de Bernanos – ele também profundamente marcado pelas contradições de um momento de traições, que só o largo prazo veio a esclarecer. Como disse Maria de Lourdes Belchior, num ensaio luminoso sobre Claudel: «É impossível ter acesso ao teatro de Claudel se não concebermos o homem como criatura que vive sobre a terra a aventura da Graça. Impossível vislumbrar o significado da sua obra se não tivermos em mente que, para Claudel, tudo é figura ou sinal de Deus. E que à decifração da linguagem de Deus incarnada na criação e na história consagrou a sua obra. A mesma obsessão já assinalada se exprime, ao longo dos anos; “il n’y a pas un univers religieux et un univers profane. Il n’y a qu’une seule Revélation, transcrite en un langage innombrable, continue et reciproquement traduisible" (Présense et Prophétie)». A vida faz-se entrelaçando sempre o religioso e o profano, uma vez que o mundo é feito de imperfeições e contradições, de dúvidas e de certezas (cuja importância relativa inverte constantemente posições relativas). A busca de verdade encerra tantas vezes a violência e a necessidade de a limitar e de a pôr ao serviço do amor – nessa verdadeira «con-naissance», que é nascimento com. A relação entre Violaine e Mara é bem ilustrativa das contradições e dos paradoxos, por todos vividos. Se João Bigotte Chorão nos diz que, para Claudel, a visão cósmica e solar fazia esquecer o drama individual e noturno, hoje sabemos que talvez não seja exatamente assim. Tantas certezas que Claudel parecia ter são postas em causa, a cada passo, quando sentimos que muitos dos seus dramas íntimos, que nos anos cinquenta não transpareciam, tornaram-se hoje explicação para o modo como o poeta e dramaturgo usa de uma inesperada violência como expressão da Graça. E, premonitoriamente, Eduardo Lourenço percebeu-o bem ao citar a epígrafe de Claudel: «Ce qui ouvre le mur de Dieu, ce n’est point le lance, mais le cri d’un coeur afligé, car le royaume de Dieu soufre violence». Muito antes de lermos René Girard, podemos perceber que em Claudel há sempre um combate escondido entre as dimensões sagrada e profana, entre a paz e a violência, entre a vocação divina e humana da Incarnação. «A fulgurante solução mística não obtura nem dissolve o enigma (diz Eduartdo Lourenço). Multiplica-o, num processo que é menos o da Eternidade que o da Poesia claudeliana, como assunção redentora da Paixão humana. (…) A violência da Graça corresponde à violência deste amor desesperado recusando a evidência da Morte».

SOPHIA PRÓXIMA E DISTANTE
É especialmente interessante verificar o entusiasmo posto por Sophia de Mello Breyner nesta tradução. Sente-se a proximidade do artista de «Arte Poética», numa fase da criação da autora de «Mar Novo», em que ouvimos, com a nitidez própria de uma palavra límpida, a compreensão da incerteza e da violência da injustiça. «Esta é a noite / Densa dos chacais / Pesada de amargura / Este é o tempo em que os homens renunciam». Longe de qualquer busca de doçura, o que há, sim, é a permanente demanda de uma vida de drama, de dúvida e de contradição. Tomé e Pedro estão sempre presentes, antes e depois de pôr a mão na ferida aberta ou de ouvir o galo cantar, sempre perante o medo terrível que leva Mara ao ato de desespero. «Aquele que partiu / Precedendo os próprios passos como um jovem morto / Deixou-nos a esperança». É aqui que a poética de Sophia se aproxima e se afasta de Claudel. Aproxima-se porque há esta busca silenciosa da esperança no equilíbrio da palavra e da justiça, nunca a confusão com qualquer certeza intolerante. Mas distancia-se, uma vez que não pode haver qualquer ambiguidade na luta agónica. Violaine é símbolo, a um tempo, da incerteza e da força, num gesto inusitado e necessário do beijo ostensivo ao leproso. Mara e Violaine são manifestações contraditórias da consagração, num mundo de imperfeições e dramas, marcado pela espada inexorável da tragédia. Como escreverá Claudel no pórtico de «Le Soulier de  «Le Soulier de Satin», em português: «Deus escreve direito por linhas tortas».

Guilherme d'Oliveira Martins