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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Terminado o Congresso Europeu do Património organizado pela «Europa Nostra» e pelo Centro Nacional de Cultura em Lisboa (29 de Maio a 2 de Junho), publicamos hoje uma reflexão sobre o mesmo e sobre a sua importância na defesa e salvaguarda do património cultural.

A VIDA DOS LIVROS
de 4 a 10 de Junho de 2012


Terminado o Congresso Europeu do Património organizado pela «Europa Nostra» e pelo Centro Nacional de Cultura em Lisboa (29 de Maio a 2 de Junho), publicamos hoje uma reflexão sobre o mesmo e sobre a sua importância na defesa e salvaguarda do património cultural. 


UM NOVO CONCEITO, UMA NOVA RESPONSABILIDADE

 «Gato que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo?» (Álvaro de Campos). Quando em 1 de Junho de 2011 entrou em vigor a nova Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea, assinada em Faro a 27 de Outubro de 2005, consagrando um novo conceito, mais amplo e compreensivo, de património, já não centrado numa lógica retrospetiva, mas sim numa lógica dinâmica e de futuro, incorporando o património material e imaterial e a criação artística, a arqueologia, a arte e a vida, abriu-se um novo campo de reflexão, estudo e ação com repercussões indiscutíveis até no domínio económico. Com efeito, a crise que sofremos revela-nos que um longo ciclo de especulação financeira tem de dar lugar à ligação entre criação cultural, aprendizagem, ciência, inovação, preservação do meio ambiente e dos recursos naturais e desenvolvimento humano. Falar de «cultura contra a crise» não é, assim, uma figura de estilo, mas uma questão de sobrevivência. Os fundamentos económicos necessitam de consistência criativa e inovadora. A cultura não pode ser vista como um luxo, mas como um fator essencial de desenvolvimento. E não estamos a falar de jogos florais ou de exposições de crisântemos e de gerânios, mas de saber de onde vimos, de aprender e de uma economia de e para as pessoas – ou seja, da cultura como criação. O valor da cultura envolve, assim, o património, a herança e a memória, as pedras mortas e as pedras vivas, os monumentos e as pessoas, bem como capacidade inovadora e transformadora. As políticas da cultura tornaram-se centrais. Deixou de fazer sentido a oposição entre conservação patrimonial e criação. Tem de haver equilíbrio entre as diferentes preocupações – com atenção permanente ao que herdamos e ao que legamos. Sem memória destruímo-nos, sem inovação entramos em decadência. Temos de preservar a língua e as tradições, enquanto devemos incentivar a modernidade e a vida. «As Viagens na Minha Terra» de Almeida Garrett mudaram radicalmente o nosso modo de dizer e de escrever – e, no entanto, permitiram também olhar com olhos mais atentos para a herança histórica. A pintura de Amadeo de Sousa Cardoso foi incompreendida por alguns no seu tempo, mas hoje transmite de um modo muito expressivo a nossa própria identidade.

CRIATIVIDADE E INOVAÇÃO
A criação artística está cheia de implicações contraditórias, complementares e paradoxais. Nos últimos dias vivemo-lo com especial sentido dramático quando Bernardo Sassetti nos deixou. Músico dotadíssimo, moderno e clássico, espírito desperto para o mundo que muda permanentemente – ansioso por captar os momentos fugazes da vida e da realidade que nos cerca, de um conjunto de sons irrepetível à imprevisível junção de elementos que nos permite usufruir um pôr-do-sol – é um exemplo dessa ligação incindível entre a herança e o legado futuro. E a juventude do intérprete deixou-nos um sentimento de perplexidade e de injustiça. A verdade é que temos presente essa sede de inesperado e de desassossego – que nos obriga a dizer que o património, a música, a arte, as letras, a língua, a imagem e a curiosidade não têm fronteiras.
Também há dias morreu Carlos Fuentes, mexicano universal, um dos grandes romancistas contemporâneos. E que nos disse ele sobre a obra que mais o terá influenciado, «D. Quixote»? «Cervantes não obedecia a nenhuma das leis da época: misturou tudo, fazendo entrar na mesma narrativa o romance pastoril, o romance de cavalaria, o romance picaresco. Sempre o leio como se fosse a primeira vez. E digo para mim: ah! Isto ainda não tinha compreendido». Mutatis mutandis, Fuentes poderia ter afirmado o mesmo do nosso Fernão Mendes Pinto… De um modo magistral, no discurso proferido por Eduardo Lourenço na Culturgest, ao receber o Prémio Pessoa, o ensaísta disse, a propósito de Fernando Pessoa, ele mesmo, o essencial dessa ligação entre sonho e interpretação, entre mito e realidade: «Ter sonhado esses sonhos não libertou Pessoa da sua solidão e tristeza. A sua poesia só as inscreverá no céu literário onde as partilhamos de graça. Mas ajudou-nos a perceber, como ele, que somos puros mutantes, descolando para formas inéditas de vida, para viagens sem itinerário. Com Caeiro fingimos que somos eternos, com Campos regressamos dos impossíveis sonhos imperiais para a aventura labiríntica e imprevisível do quotidiano moderno, com Reis, encolhemos os ombros diante do Destino, com “Mensagem” sonhamos com uma pátria de sonho para redimir a verdadeira». E, não por acaso, Eduardo Lourenço lembrou nessa mesma ocasião a memória de António Tabucchi, porque este fez da heteronímia pessoana uma chave da modernidade atual, percebendo, como muito poucos, que a diversidade é a representação da criatividade e da mudança, lugar múltiplo insuscetível de interpretações simplificadas, unilaterais ou redutoras. Mas o escritor de «Portugal como Destino» foi mais além, ao lembrar também Agustina Bessa-Luís, sempre atenta à emergência de contradições e paradoxos, vendo a vida pelo avesso, para poder compreendê-la como realidade apreensível sob prismas diversos, numa espécie de pluralidade onírica, que faz entrecruzar mitos e realidades.       

PATRIMÓNIO E MEMÓRIA
O património cultural das construções é, assim, uma pequeníssima parte do todo interpretativo a que temos de atender. Não viu Ruben A., em «A Torre da Barbela» a nossa história como puro mito de sonhos sobrepostos? E no entanto aí está o melhor apego a um património vivo, que historicamente, se projeta em nós. Não poderia, assim, ser mais oportuna a realização em Portugal do «Congresso Europeu do Património», nos dias 29 de Maio a 2 de Junho, culminando na cerimónia de entrega dos prémios europeus nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos a 1 de Junho. Trata-se do mais importante evento anual europeu no campo da proteção e salvaguarda do património cultural, realizando-se pela primeira vez entre nós. É uma iniciativa da «Europa Nostra» e do Centro Nacional de Cultura, mobilizando meio milhar de participantes, entre os quais se encontram os principais protagonistas no campo da defesa do património cultural. A «Europa Nostra» representa 250 organizações não-governamentais, mais de 1500 associados individuais em 50 países. É uma instituição privada pan-europeia, que, desde 1963, pugna pela defesa do património cultural em estreita articulação com a UNESCO, o Conselho da Europa e a União Europeia. Em Portugal tem diversos membros, contando com as mais prestigiadas organizações de defesa do património, sendo oficialmente representada pelo Centro Nacional de Cultura, graças ao prestígio e ao empenhamento de Helena Vaz da Silva. E estou em crer que esta não vai ser mais uma reunião como tantas outras. Falar-se-á da responsabilidade da cultura em tempo de crise – para além de ilusões ou facilidades.

Guilherme d’Oliveira Martins