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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

A Fundação Calouste Gulbenkian iniciou com «Heterodoxias» a publicação das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Lisboa, 2011), graças ao trabalho de João Tiago Pedroso Lima, com o apoio de João Nuno Alçada. É um dos grandes acontecimentos culturais do ano que terminou, e a que se juntou a justíssima atribuição ao ensaísta do Prémio Pessoa. A obra dada à estampa constitui um conjunto fundamental de ensaios, onde aos dois volumes já conhecidos se junta uma terceira parte, onde o pensador faz uma leitura indispensável para a compreensão desta obra no contexto da criação lourenciana. Com fidelidade ao ensaísta, a marca das obras completas é Migdar – «o velho mito germânico de Migdar, a serpente que morde em círculo a própria cauda, (…) símbolo de sugestões perpétuas. (…) O reconhecimento de Migdar como essência da realidade, chama-se Heterodoxia».

A VIDA DOS LIVROS
De 2 a 8 de Janeiro de 2012

A Fundação Calouste Gulbenkian iniciou com «Heterodoxias» a publicação das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Lisboa, 2011), graças ao trabalho de João Tiago Pedroso Lima, com o apoio de João Nuno Alçada. É um dos grandes acontecimentos culturais do ano que terminou, e a que se juntou a justíssima atribuição ao ensaísta do Prémio Pessoa. A obra dada à estampa constitui um conjunto fundamental de ensaios, onde aos dois volumes já conhecidos se junta uma terceira parte, onde o pensador faz uma leitura indispensável para a compreensão desta obra no contexto da criação lourenciana. Com fidelidade ao ensaísta, a marca das obras completas é Migdar – «o velho mito germânico de Migdar, a serpente que morde em círculo a própria cauda, (…) símbolo de sugestões perpétuas. (…) O reconhecimento de Migdar como essência da realidade, chama-se Heterodoxia».


PENSADOR INESPERADO
Eduardo Lourenço é um pensador tantas vezes inesperado, uma vez que, a cada passo, usou a crítica para pôr em causa as tendências do momento. Assim foi quando escreveu a sua primeira «Heterodoxia» (1949), que se demarcou das principais correntes dominantes, dando, no entanto, sinais de compreensão relativamente às diferentes perspetivas em presença. Isso mesmo tem alimentado alguns equívocos (apenas para os menos atentos e incautos), estando mais do que demonstrada a impossibilidade de encerrar o pensamento do ensaísta em qualquer sistema ou em qualquer lógica definível a priori. Heterodoxia era, para o nosso autor, «o humilde propósito de não aceitar um só caminho pelo simples facto de ele se apresentar a si próprio como único caminho, nem de os recusar a todos só pelo motivo de não sabermos em absoluto qual deles é, na realidade, o melhor dos caminhos». Refletiu, desse modo, sobre autores que estavam à partida rotulados como suspeitos, tendo Lourenço feito a sua apreciação sob o viso crítico, sem qualquer preconceito e sempre com uma argúcia e uma inteligência que ultrapassavam a superfície e as aparências relativamente aos autores e obras analisados. Afinal, um heterodoxo deveria, para sê-lo, empenhar-se em ler o que estava escrito, procurando descobrir os significados, para além das ilusões. E o tempo veio a dar-lhe razão sobre os valores duráveis e sobre as manifestações sem espessura. Por isso, o forte sentido crítico permitiu-lhe ser um interrogador exigente dos mitos (a começar no sebastianismo), recusando a crença num qualquer destino independente da vontade e das circunstâncias do tempo.

HOMEM GENEROSO E DISPONÍVEL
Homem generoso e disponível pôde, com essas qualidades, tornar-se um dos melhores intérpretes da identidade nacional. E Vasco Graça Moura tem razão ao dizer que o seu exemplo e a sua qualidade não são circunstanciais e reportam-se ao largo prazo, o que é tanto mais de realçar quanto é certo que a cultura portuguesa tem muitos séculos e a referência de Lourenço projeta-se muito para além dos horizontes próximos. E se devemos referir essa capacidade singularíssima relativamente à procura da identidade portuguesa, temos de acrescentar que procurou sempre vê-la com projeção universal. Tendo-se negado a ser «estrangeirado» e tendendo a ver de fora com olhos de dentro, a verdade é que, para ele, a nossa identidade apenas faz sentido desde de que aberta e complexa. No fundo, para o português uma identidade confinada não faz sentido. Ganhamos sempre que recebemos e dessa hospitalidade resultam perenidade e riqueza. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço compreendeu melhor do que ninguém que em 1578-80 a figura central não foi D. Sebastião, mas Camões (com toda a sua riqueza épica e lírica), e que, ao modo de Vieira, o Desejado nunca poderia ser um morto ou um vencido, mas teria de ser alguém vivo – e, mais do que D. João IV, deveria ser o povo heterogéneo e difícil de conhecer e interpretar, que deseja viver livre, com apego à viagem pelas Sete Partidas (talvez uma nova diáspora), à imagem e semelhança do Infante D. Pedro, Duque de Coimbra (exemplo europeu e universalista), com uma alma pelo mundo repartida. Assim, a heterodoxia inconformista do escritor (discípulo à sua maneira, mas indiscutível, de Montaigne) considera a saudade fora da clausura do saudosismo, partindo das raízes antigas (D. Duarte, Nunes do Leão, Francisco Manuel e os românticos) e de Pascoaes (cujo talento enaltece) e chegando à fulgurante heteronomia de Fernando Pessoa. Não por acaso, o ensaísta afirmou, ao saber que o Prémio Pessoa lhe tinha sido atribuído, que aquele que estaria satisfeito (porventura mais do que ele próprio), seria Alberto Caeiro. A ironia é significativa, já que é um fantasma puro que vem à memória. E quando, há dias, se confessou convertido ao fado, através do talento de Amália (num mano-a-mano no Museu do dito Fado) percebeu-se muito bem que ali estava o incansável perscrutador de mitos e de destinos, interrogador de labirintos, personalidade fascinante atenta a tudo (de Clint Eastwood a Cristiano Ronaldo e de Cláudia Cardinale a Cristina Branco), para quem a sua filomitia obriga, antes de tudo, à compreensão das pessoas comuns, do vulgo, na busca da sublimidade, de forma a dar à vida um tom colorido que valha realmente a pena. Enquanto Garrett falou da saudade como «gosto amargo dos infelizes», Lourenço preferiu a fórmula «gosto de mel e lágrimas», que resume bem como os mitos não são coisas abstratas, mas têm a ver com a compreensão de dois Países que sempre somos e seremos, o profundo e conservador, e o de horizontes abertos, amante do desconhecido e diferente. E não falou o ensaísta das duas razões europeias em «Nós e a Europa»? De facto, encontramos em si a costela de Miguel de Unamuno e o seu sentimento trágico da vida (Salamanca, ali tão perto de S. Pedro de Rio Seco), mas também a indelével atração pelo cosmopolitismo de Ortega y Gasset, com um europeísmo de liberdade e emancipação.

PROFUNDAMENTE PORTUGUÊS
Eduardo Lourenço é um ensaísta profundamente português. Foi-o nos anos sessenta ao compreender que a liberdade teria de ser aberta e heterodoxa – e ao entender que Fernando Pessoa era muito mais do que uma leitura situada da «Mensagem». Logo em 1974, esteve ciente das ilusões que se alimentavam ou das cristalizações simétricas, procurando compreender os vários lados do problema, na longa duração, como o fez magistralmente na «Raiz e Utopia» (de Helena Vaz da Silva) no ensaio «Psicanálise Mítica do Destino Português». E se compreendeu muito cedo a importância da opção europeia, foi também o primeiro a chamar a atenção (com autoridade e conhecimento de causa) para os erros e para os perigos da «Europa Desencantada» (obra com duas edições, em 1993, aumentada em 2000) – sem esquecer que a Europa é uma saída, desde que não exclusiva nem acrítica e desde que não se encerre na ilusão burocrática do sistema perfeito. Afinal, a reflexão sobre as próprias causas antigas das decadências peninsulares (a partir da análise emblemática de Antero de Quental) tem de ser lembrada no debate europeu, para que a Europa não se torne periférica e irrelevante. «Sob a aparência de drama (diz E. Lourenço), as peripécias da construção europeia não relevam desse género literário, mas da tragédia. Tragédia quando se foi uma outra Europa, centro do mundo, e já não se é. A Europa não está ainda definitivamente fora da história – quer dizer, da vontade e do projeto que a conduz – mas está-lo-á se não tiver configuração política e entidade económica, administrativa, a que chamamos União Europeia. Para não ficar, de todo à margem dela se travou e trava a batalha pela Europa que possivelmente é mais do que isso. Começou em Roma, como era simbolicamente óbvio. Esperemos que não se desintegre, sob modo festivo, na Cidade das Flores»… O texto é de 1999 e mutatis mutandis poderia ter sido escrito agora.

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 02 de janeiro de 2012