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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«Pai-Nosso que Estais na Terra» de José Tolentino Mendonça (Paulinas, 2011) é, segundo o subtítulo da obra, «o Pai-nosso aberto a crentes e a não-crentes» e José Mattoso afirma que essa abertura constitui uma característica singularíssima desta obra: «há milhares de comentários ao Pai-nosso, a única oração que Jesus nos ensinou. Não conheço nenhum ao nosso Pai que está na Terra». É por aí que o escritor faz do seu comentário um diálogo aberto a todos. Nesse sentido, este é um livro para este tempo, uma vez que procura sinais de esperança num momento de grande dúvida e incerteza.

A VIDA DOS LIVROS
de 12 a 18 de Dezembro de 2011


«Pai-Nosso que Estais na Terra» de José Tolentino Mendonça (Paulinas, 2011) é, segundo o subtítulo da obra, «o Pai-nosso aberto a crentes e a não-crentes» e José Mattoso afirma que essa abertura constitui uma característica singularíssima desta obra: «há milhares de comentários ao Pai-nosso, a única oração que Jesus nos ensinou. Não conheço nenhum ao nosso Pai que está na Terra». É por aí que o escritor faz do seu comentário um diálogo aberto a todos. Nesse sentido, este é um livro para este tempo, uma vez que procura sinais de esperança num momento de grande dúvida e incerteza.

 

ENTRE A DISPONIBILIDADE E O ENCONTRO
Estamos perante um livro de disponibilidade e de encontro. Pensei nele, há dias, quando em Ponta Delgada, numa iniciativa da Comissão Diocesana Justiça e Paz, me perguntaram como será possível sermos solidários e próximos nos dias de hoje – e respondi que a melhor maneira é darmo-nos como presentes e disponíveis, em lugar de nos impormos. E é essa disponibilidade de dizer «aqui estou!», fundamental em tempos de solidão e indiferença. O tema deste livro é exatamente esse: o de considerar a disponibilidade de quem dá e de quem recebe. De um modo que apela ao desassossego, o nosso autor fala-nos do Pai-nosso com sinal de unidade que tem tudo a ver connosco, e com as nossas diferenças, por isso nos fala da terra, não como lugar de chegada, mas como ponto de passagem e de partida, como instância de peregrinação. De facto, ao dirigirmo-nos ao Pai que está nos céus e na terra, sentimos que Charles Péguy tem razão ao invocar o sentido pessoal e comunitário de um diálogo: «É necessário salvar-se conjuntamente, precisamos de chegar juntos ao Paraíso, precisamos apresentar-nos juntos no Paraíso. É necessário pensar nos outros, é necessário doar-se aos outros. O que é que Deus nos dirá, se chegarmos ao paraíso sem os outros?». É esta a lição fundamental desta extraordinária oração que se baseia no amor e na responsabilidade para com os outros – a outra metade de nós mesmos. E é assim que a lição fundamental deste belo livro se pode resumir nesta afirmação: «Ao recitar o Pai-nosso somos chamados a viver uma aventura que Jesus quis que fosse assim: partir da nossa experiência humana e comum, do nosso viver ferido para descobri-lo companheiro, como Ele foi companheiro dos discípulos de Emaus, naquele entardecer que é ainda o nosso».

ABRIR O CORAÇÃO
A Regra de S. Bento diz: «Abre o ouvido do teu coração». A arte da escuta exige que o diálogo seja efetivo. «Escutarmos e podermos ser escutados, até ao fundo e até ao fim, abre, no Espírito, horizontes mais amplos do que aqueles que sozinhos conseguiríamos avistar e relança-nos no caminho da esperança». A cada passo encontramos a palavra esperança, ligada ao «bom uso das crises». Num tempo de escassez de mestres, as experiências «são realmente grandes mestres, que têm alguma coisa a ensinar-nos». Mounier falou dos acontecimentos, esses nossos grandes mestres interiores, e Etty Hillesum implorou: «Meu Deus, esta época é demasiado dura para gente frágil como eu. Mas sei igualmente que, a seguir a este, outro tempo virá». Impõe-se, de facto, neste tempo de crise, uma atenção especial ao que nos rodeia, e dessa atenção tem de resultar o cuidado, que está na etimologia de caridade. Por que razão chegámos aqui? Porque não cuidámos de algumas coisas elementares, designadamente de que o progresso não é ilimitado e de que o desenvolvimento humano não existe, se não pusermos as pessoas no centro da economia e da sociedade. Daí que a austeridade que aí está e que até pode ser boa conselheira, não possa ser cega e surda relativamente à justiça. Não é um fim em si, a austeridade tem de ser um instrumento de dignidade e de respeito mútuo. Tem de ser modéstia, sobriedade e de reciprocidade. «Todas as vidas cabem na imagem quotidiana, quase trivial, do pão que se parte e reparte. Porque as vidas são coisas semeadas, crescidas, maturadas, ceifadas, trituradas, amassadas: são como pão. Porque não apenas degustamos e consumimos o mundo: dentro de nós vamos percebendo que o mundo, que o tempo, também nos consome, nos gasta, nos devora. Por boas e por más razões, ninguém permanece inteiro. Somos uma massa que se quebra, um miolo que se esfarela, uma espessura que diminui». Não podemos continuar a pôr o consumo desenfreado em primeiro lugar, a gastar o que se tem e o que se não tem, a viver a crédito, a julgar que a especulação pode ocupar o lugar da criação, a jogar permanentemente com as aparências, a praticar a ilusão dos resultados que não existem – tudo isso obriga a compreender que devemos merecer o pão nosso de cada dia.  

O MISTÉRIO DAS TENTAÇÕES
José Tolentino Mendonça recorda, em determinado momento do seu livro, o episódio das tentações de Jesus: «Então o espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: “Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães”. Respondeu-lhe Jesus: “Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus”». Depois, conhece-se o que segue: o diabo coloca primeiro Jesus sobre o pináculo do templo e em seguida num monte muito alto, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória. Mas o resultado é que, em face das respostas de Jesus, «o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no» (Mt., 4,1-11). O autor diz-nos que estas tentações não aconteceram num só dia e que representam a vivência das provações da condição humana. Mas quais as tentações que nos rodeiam e que aqui estão figuradas? O materialismo, o providencialismo e o absolutismo. O materialismo e a idolatria da matéria, numa vertigem de tudo ocupar com a satisfação imediata dos desejos e das explicações simplificadoras. O providencialismo, que confunde a relação com Deus com as interpretações fantasiosas e mágicas. «Não nos podemos atirar de pináculos para que Deus nos segure. Temos de integrar saudavelmente os nossos limites e fazer a nossa parte». E o absolutismo, que faz «do domínio da posse a fonte de felicidade» e que confunde a glória passageira com a experiência da magnitude da dignidade. Mas, para o nosso escritor, temos de lembrar uma quarta tentação, bem ilustrada pelo drama de T.S. Eliot «Crime na Catedral». Aí o que está em causa tem a ver com os desejos de fidelidade poderem ser sinais de orgulho e de vaidade… Será que não cometemos o pecado da soberba perante as virtudes que julgamos possuir? E é essa quarta tentação que pode minar a confiança, uma vez que ela é verosímil e que nos pode atingir. O cristianismo caracteriza-se, porém, por aproximar o exemplo do Filho de Deus das nossas próprias provações. Não se trata de nos compararmos com Alguém que não pode compreender-nos, mas de colocar as nossas angústias ao alcance do próprio Deus. Essa é a chave da Encarnação. «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?» - os ecos do Salmo são o ponto nodal de um profundo diálogo. Daí a confiança nascida numa comparticipação que tem a ver com a experiência humana. E Simone Weil afirma: «Só a confiança dá suficiente força para que o receio não seja a causa da queda».

«VAI ONDE NÃO POSSAS...»
Angelus Silesius diz: «Vai onde não possas / vê onde não vês: / escuta onde não ressoa / e assim estarás onde Deus fala». Este é o silêncio fundamental que exige que oiçamos o essencial por parte de quem «é o Jesus que nos interpela a cada passo e inesperadamente». Com fome, deste-me de comer, com sede deste-me de beber, nu, vestiste-me… Afinal, esse é o sinal de responsabilidade que se nos pede. E este ir onde se não possa, não é mais do que ser cada vez mais exigente e nunca acomodado, mantendo os olhos abertos.

Guilherme d'Oliveira Martins