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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«365 Dias com histórias da História de Portugal» de Luís Almeida Martins (Esfera dos Livros, 2011) é um livro de grande utilidade para todas as idades, uma vez que, num registo muito acessível, mas com grande rigor em relação aos factos históricos, procede à apresentação de múltiplos episódios da História portuguesa, desmistificando alguns, esclarecendo outros e informando sobre todos, em termos que permitem preencher lacunas que tantas vezes encontramos, da parte de muitos dos que têm a responsabilidade de conhecer os factos e os elementos mais importantes da nossa historiografia. Longe da simplificação, encontramos uma genuína preocupação de informação e de conhecimento. A obra é assim um auxiliar precioso, que deve estar à mão de todos, para esclarecer muitas dúvidas e erros tantas vezes ditados por uma injustificada ignorância.

A VIDA DOS LIVROS
de 31 de outubro a 6 de novembro de 2011

«365 Dias com histórias da História de Portugal» de Luís Almeida Martins (Esfera dos Livros, 2011) é um livro de grande utilidade para todas as idades, uma vez que, num registo muito acessível, mas com grande rigor em relação aos factos históricos, procede à apresentação de múltiplos episódios da História portuguesa, desmistificando alguns, esclarecendo outros e informando sobre todos, em termos que permitem preencher lacunas que tantas vezes encontramos, da parte de muitos dos que têm a responsabilidade de conhecer os factos e os elementos mais importantes da nossa historiografia. Longe da simplificação, encontramos uma genuína preocupação de informação e de conhecimento. A obra é assim um auxiliar precioso, que deve estar à mão de todos, para esclarecer muitas dúvidas e erros tantas vezes ditados por uma injustificada ignorância.


A Primeira tarde portuguesa (24 de junho de 1128), por Acácio Lino.

FACTOS DISTANTES E DESCONHECIDOS
O método proposto pela editora ao autor foi o de percorrer todos os dias do ano, escolhendo para cada um deles um facto histórico, analisado sucintamente, com base nos dados conhecidos da historiografia coeva, sem cedências ao efeito fácil, às referências fantasiosas ou a qualquer tipo de sectarismo. De um modo aleatório, escolhemos vinte cinco exemplos, para demonstrar o procedimento de Luís Almeida Martins, jornalista experimentado, que nesta obra demonstra as suas qualidades de probidade e isenção. As histórias seguem uma classificação temática: Factos & Episódios; Figuras & Figurões; Guerras & Batalhas; Revoluções & Conspirações; Amores, Traições & Infidelidades; Mitos, Lendas & Mistérios e Artes & Letras – o que nos ajuda na tarefa de identificar os problemas suscitados, que propositadamente, são tratados de um modo simplificado – o que se justifica a fim de ir ao encontro daqueles que são menos versados nas matérias. Afinal, não se trata de uma enciclopédia, mas de uma obra exigente de divulgação. Comecemos pela figura de Viriato, sobre a qual há muitas lendas, mas há pouco conhecimento histórico. Não existem provas seguras da sua ligação a Viseu e à Serra da Estrela, os Montes Hermínios. Permanece uma figura misteriosa, e, como afirmou Alexandre Herculano, é difícil estabelecê-lo como nosso antepassado, ligando diretamente a Lusitânia a Portugal, como desejaram os nossos renascentistas. Por outro lado, dando um salto no tempo, o Conde D. Henrique, nobre cruzado vindo de Borgonha, dificilmente terá pensado tornar o Condado Portucalense independente do Reino de Leão. No entanto, as circunstâncias levariam nesse sentido, até pelo seu efetivo contributo. E D. Teresa, sua mulher e mãe do nosso primeiro Rei? O certo é que a Batalha de S. Mamede (24.6.1128), primeira tarde portuguesa, tem causas complexas ligadas à política galega e à influência dos Peres de Trava junto da viúva de D. Henrique, e está longe da verdade o conflito freudiano entre mãe e filho. Aliás, o próprio D. Afonso Henriques ainda é um grande desconhecido – devendo, por exemplo dizer-se que a lendária batalha de Ourique (cujo milagre foi contestado por Herculano) inspirou-se na batalha da Ponte Mílvio entre Constantino e Maxêncio (313).

O PREÇO DA CELEBRIDADE
Fernando Martins de Bulhões formou-se na Escola de Santa Cruz de Coimbra, na ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, terminaria os seus dias chamado para a Ordem dos frades menores, por S. Francisco de Assis, pelos seus conhecimentos teológicos onde ganhou popularidade excecional, pelo carisma e fama de taumaturgo, no entanto é sobretudo conhecido como Santo António de Pádua. O preço da celebridade é o de ser conhecido não pelo país de onde era originário, mas pela cidade onde morreu. Com D. Afonso III consumou-se a reconquista cristã do Algarve, mas o reconhecimento desse feito por Afonso X de Leão e Castela foi difícil. O milagre das rosas da nossa Rainha Santa Isabel não foi um episódio passado com ela, mas sim com uma sua antepassada, a Rainha Isabel da Hungria, casada com Luís da Turíngia. A batalha de Aljubarrota, de 14 de Agosto de 1385, foi decisiva para a causa do Mestre de Avis, e no entanto apenas durou cerca de uma hora. D. Pedro, filho de D. João I, dito das Sete Partidas, foi precursor do turismo moderno, tendo trazido para a corte portuguesa o Livro de Marco Polo e o mapa de Fra Mauro, que abriram novos mundos ao mundo. João XXI, Pedro Hispano, filósofo e médico, foi o Papa de origem portuguesa que costuma ser referido (1276-77), no entanto Dâmaso I (366-384) foi também Sumo Pontífice (366-384), sendo natural de Guimarães ou de Castelo Branco. D. Afonso V aspirou à coroa de Castela, por isso se feriu a Batalha de Toro, na qual foi derrotado; no entanto, se o resultado da batalha tivesse sido outro a história peninsular teria sido bem diferente. Os arquipélagos da Madeira e dos Açores há muito que eram conhecidos pelos navegadores do Mediterrâneo antes do seu povoamento, tudo levando a querer que as ilhas dos Açores devem essa designação ao facto de serem conhecidas dos genoveses como Azzurri, ou seja, azuis. Não foi Pedro Álvares Cabral o descobridor efetivo do Brasil, mas sim ou João Coelho (1492) ou Duarte Pacheco Pereira, o grande negociador de Tordesilhas. Há poucas certezas sobre quem foi Cristóvão Colombo, no entanto o mistério persistirá, sem do certo que foi genro de Bartolomeu Perestrelo e com ele ganho experiência como navegador. Arnold Toynbee, o historiador britânico, afirmou com muita clareza ter sido Vasco da Gama o iniciador do que hoje designamos como Era contemporânea da globalização.

ESTRANHOS E CURIOSOS PARADOXOS
Ironicamente, dá-se o cognome de Vitorioso ao mais derrotado rei da nossa História, D. Afonso VI, em virtude da morosa e difícil guerra da Restauração. Vinda da culta corte portuguesa de D. João IV, D. Catarina de Bragança, mulher de Carlos II, tornou-se em Inglaterra responsável decisiva por esse país se ter tornado uma potência civilizada. A introdução do chá é uma boa metáfora… De 1511 a 1641, Malaca foi a cidade que se tornou a placa giratória do comércio da Ásia, graças à presença portuguesa e ao impulso de Afonso de Albuquerque. O poema épico «Caramuru» conta como Diogo Álvares, de Viana do Castelo, se tornou um ídolo dos índios, a ponto de virar um verdadeiro mito de toda a história brasileira. Regressando ao lado de cá do Atlântico, o terramoto de 1 de novembro de 1755 deve considerar que houve dois fenómenos que se adicionaram um ao outro: o terramoto propriamente dito e o terramoto político, traduzido na ação de Sebastião José de Carvalho e Melo, o futuro Marquês de Pombal – o País foi reconstruído e o dinheiro do Brasil ajudou. Anos depois da queda do governante, o povo de Lisboa dizia: «mal por mal, antes Pombal». Na prática, Napoleão Bonaparte criou o Brasil, uma vez que a corte no Rio de Janeiro abriu a porta da independência. D. Leonor de Almeida Portugal, a marquesa de Alorna, Alcipe, foi no seu tempo um exemplo de protagonismo feminino e de atenção à modernidade. Afinal, nesse período rico e agitado da vida portuguesa lançaram-se, para o bem e para o mal, as bases do Portugal liberal moderno – entre o despotismo esclarecido e as ideias emancipadoras dos estrangeirados.

A AURA DOS BRAVOS DO MINDELO
A cidade do Porto ganhou na Guerra Civil que opôs D. Miguel a D. Pedro (1828-1834) a designação de invicta, pelo êxito dos liberais ante o cerco dos absolutistas – daí também as referências épicas na toponímia portuense: Rua do Heroísmo, General Torres, Praça da Liberdade… Anos depois, na guerra civil da Patuleia (de «pata ao léu» dos pés frescos), que se segue ao levantamento da Maria da Fonte (1846-1847), o Porto volta a assumir (com José da Silva Passos, irmão de Passos Manuel) um papel decisivo no sentido romântico e liberal, antecipando os movimentos revolucionários europeus que ficaram designados como «Primavera dos Povos» (1848). Por fim, neste rápido sobrevoo, urge lembrar a proclamação da República em 5 de outubro de 1910, que ocorreu na varanda dos Paços do Concelho de Lisboa, uma vez que aí havia uma vereação integralmente republicana eleita legitimamente em 1908. Logo aí, Machado Santos, o herói da Rotunda, não perdoaria ao diretório do Partido Republicano o facto de os seus membros não terem esperado por ele para a proclamação solene do novo regime. Por outro lado, Basílio Teles, um histórico do movimento, declinou o convite para sobraçar a pasta das Finanças, por considerar que não poderia fazer as reformas que almejava, sem ter poderes excecionais que limitassem as liberdades cívicas e políticas.

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 31 de outubro de 2011