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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

A última edição da «Peregrinação» é um precioso instrumento de trabalho e uma riquíssima fonte de informações – «Fernão Mendes Pinto and the Peregrinação: studies, restored portuguese text, notes and indexes», edição de Jorge Santos Alves e Carla Alferes Pinto, tradução de Kevin Rose e Richard Trewinnard, 4 volumes, Imprensa Nacional – Casa da Moeda e Fundação Oriente, 2010.

A VIDA DOS LIVROS
de 10 a 16 de Outubro de 2011

A última edição da «Peregrinação» é um precioso instrumento de trabalho e uma riquíssima fonte de informações – «Fernão Mendes Pinto and the Peregrinação: studies, restored portuguese text, notes and indexes», edição de Jorge Santos Alves e Carla Alferes Pinto, tradução de Kevin Rose e Richard Trewinnard, 4 volumes, Imprensa Nacional – Casa da Moeda e Fundação Oriente, 2010. Trata-se, no seu título completo, da «Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus». O relato é multifacetado e nele pode compreender-se a experiência da presença portuguesa no Oriente, protagonizada por alguém que viveu o que os portugueses foram e fizeram nessas longínquas paragens. Fernão Mendes foi, assim, ou pelo menos descreve-nos tudo o que poderia ter sido: criado de fidalgo, soldado, escravo, agente de negócios, pirata dos mares da China, mercador, médico ocasional do rei do Bongo, vagabundo e embaixador. E assim temos nesta obra desde o exemplo da literatura picaresca, como em Lazarilho de Tormes, até ao romance, à crónica imaginosa (complementar de Diogo do Couto ou João de Barros), à reunião de indicações úteis, mas sobretudo um extraordinário monumento de humanidade.


arrozais em Bali

RECORDAR O EMBAIXADOR DO REI DOS BATAS
Os ecos de Malaca continuam bem presentes. Toda a presença dos portugueses no Índico é marcada pela opção de Afonso de Albuquerque por essa placa giratória fundamental, bem evidente quando lemos a «Peregrinação», de Fernão Mendes Pinto. Veja-se o episódio da vinda do Embaixador do Rei dos Batas. Pero de Faria fê-lo «agasalhar o mais honradamente que então foi possível». E assim «o despediu bem despachado, e satisfeito do que viera buscar, porque lhe deu ainda algumas cousas além das que lhas pedira, como foram cem panelas de pólvora, e rocas, e bombas de fogo, com que se partiu tão contente desta fortaleza, que chorando de prazer, um dia perante todos os que estavam no tabuleiro da igreja, virando-se para a porta principal dela, com as mãos levantadas, como quem falava com Deus, disse publicamente. Prometo em nome de meu Rei a ti Senhor poderoso, que com descanso e grande alegria vives assentado no tesouro das tuas riquezas que são os espíritos formados da tua vontade, que se te praz dar-nos vitória contra este tirano de Achem (…). E assim te prometo e juro com toda a firmeza de bom e leal, que meu Rei não tenha nunca outro Rei se não este grande Português, que agora é senhor de Malaca» (cap. XIV). Não pode haver dúvidas sobre a importância desse lugar – e as deambulações e os bons sinais de mercadores e missionários contribuíram decisivamente para tornar a zona próspera. Por isso, depois do século XVII, aquando da conquista holandesa, muitos portugueses da Malásia se espalharam pelo Índico a cultivar e a comerciar. Desde o início, a rivalidade comercial entre muçulmanos e hindus favoreceu o rápido domínio a partir de Malaca, além de que as embarcações do Índico eram menos adaptadas à guerra marítima do que a uma rápida circulação. E não se esqueça que, logo a partir de 1511, a instabilidade político-militar no Médio Oriente e a perda de influência das Repúblicas italianas incentivou a importância da rota do Cabo da Boa Esperança. No entanto, a nobreza procurou resolver o seu problema económico, dominando politicamente, impedindo o desenvolvimento de uma burguesia comercial, com as consequências bem conhecidas…

IMERSÃO TOTAL NA CULTURA HINDU EM BALI
Chegados a Bali, vivemos uma imersão total na cultura hindu, caldeada pelo animismo, vivido pelas populações mais antigas da ilha. Nos templos que visitamos encontramos sempre os três mundos da cultura da Índia – o domínio dos espíritos que importa aquietar e que está bem presente na construção das habitações e dos templos sobre estacas, mas também nas cerimónias de purificação, como a ancestral luta de galos, antes da entrada nos templos; o território das pessoas humanas; e a invocação dos deuses e dos antepassados. No templo de Batukaru, assistimos às cerimónias matutinas. Luís Filipe Thomaz cita S. Boaventura ao presenciar o intenso ambiente de oração, com todos nós a envergar o tradicional Saron, preto e branco: «o mundo é um livro onde se lê a trindade criadora». Ressalvadas as distancias, a afirmação faz sentido também num templo hindu. E não disse o Padre Francisco Álvares um dia na Etiópia, que a Deus agrada ser louvado por muitas e diversas formas? No caminho que seguimos até às montanhas, a nossa vista alonga-se nos magníficos terraços verdejantes dos arrozais a perder de vista. Mas também encontramos as plantações de banana, cacau, papaia e manga. A cada passo vemos as representações da complexa mitologia do hinduísmo. Mas, já que os muçulmanos festejam o final do Ramadão, passamos por diversos ajuntamentos festivos, plenos de cor e alegria. Culminamos com a ascensão ao vulcão Batur, onde almoçamos perante uma paisagem deslumbrante, na qual até o sol timidamente aparece. Um lago amplo ocupa parte da cratera e o lugar corresponde a um ponto de encontro natural entre o sagrado e o humano. No templo da Primavera Sagrada (Pura Tirtha Empul), podemos presenciar uma intensa vivência religiosa, ora nos ritos de purificação nos amplos tanques alimentados por abundantes nascentes, ora em pequenos grupos familiares de oração. Sente-se um diálogo com a Natureza acolhedora, com a qual há uma procura de equilíbrio. Verifica-se um grande movimento de fiéis e de turistas, contrastando com o silêncio e o recato que encontrámos de manhã em Batukaru. Já com a tarde a declinar, mas numa altura mais propícia quanto à temperatura ambiente, visitamos o templo de Gunung Kawi, de difícil acesso, pelas seis centenas de degraus a vencer, com os seus monumentos funerários escavados na rocha, de modo deslumbrante. Em Bali o hinduísmo encontrou um território propício de afirmação e desenvolvimento, sentindo-se a cada passo uma adesão peculiar, na qual o animismo não desaparece, antes se integrando de modo original no sincretismo hindu.

NA ILHA DO CABO DAS FLORES
Após uma madrugada, em que estas peregrinações são férteis, partimos para a Ilha do Cabo das Flores, ou apenas das Flores, com o nosso guia de Bali, o Julian, inconsolável por ficarmos tão pouco tempo. O voo da Batavia Air para Maumere tem trânsito em Kupang (Timor Ocidental). Com dois atrasos, em Bali e em Kupang, chegámos às Flores a tempo de um almoço retemperador, de modo a podermos visitar o tesouro de Sikka, à guarda da família real dos Ximenes da Silva. É com especial emoção que vemos um capacete português em ouro maciço, feito em Malaca em 1607, colares, pulseiras e armas votivas. Verificamos, porém, ser necessário, e o Encarregado de Negócios de Portugal, Dr. Pedro Coelho, concorda inteiramente, criar condições de maior segurança deste património que invoca o acordo firmado pelos portugueses com os liurais da Ilha e vigente até 1851, até que um governador português fez cessar esse entendimento. Ao folhear o livro de honra, encontramos as assinaturas de Helena e Alberto Vaz da Silva, quando o Centro Nacional de Cultura fez a primeira embaixada cultural, no reatamento das relações de amizade com a Indonésia. A Ilha das Flores nunca foi conquistada pelos portugueses, foram os seus chefes locais que fizeram acordos com a nossa administração, os missionários e os mercadores. Estes vinham às Flores buscar o sândalo. Os frades dominicanos, com papel decisivo, fixaram-se na ilha do Solor, vindos de Malaca, em 1562, tendo depois ido para Larantuka na parte ocidental das Flores. O resultado dessa evangelização de portugueses, fruto de um inteligente apoio aos liurais, está à vista não só pela presença forte do cristianismo (bem evidente nas cerimónias da Semana Santa), mas também pela presença da língua, já que o bahasa indonésio regista aqui pelo menos dois mil vocábulos de origem portuguesa (como: grande, semana, franja, domingo, sábado, sapato, fogo, sentido e tia…). Mas se dúvida pudesse haver, em Sikka, somos levados pelo cicerone Senhor Pereira, a visitar o que ainda nos faltava do tesouro dos Ximenes da Silva – o Menino Jesus Salvador do Mundo, vestido a preceito como se estivesse numa festa de qualquer recanto português…

Guilherme d'Oliveira Martins