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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«Scoop» de Evelyn Waugh (1903-1966) – 1ª edição, 1938; revista em 1964, Chapman and Hall - é considerado, justamente, como uma das obras-primas da língua inglesa do século XX (há tradução portuguesa, «Enviado Especial», de Luís de Almeida Campos, Bertrand, 1991). Ainda que outros romances do escritor sejam mais conhecidos do grande público, o certo é que neste caso encontramos os ingredientes que caracterizam a originalidade de Waugh – uma capacidade excepcional de usar a sátira, uma leitura muito arguta da realidade social do seu tempo e uma compreensão exacta de que os valores éticos e culturais não se afirmam ou persistem em abstacto, mas sim se forem capazes de vencer a difícil prova da crítica e da severa ironia.

A VIDA DOS LIVROS
de 22 a 28 de Agosto de 2011


«Scoop» de Evelyn Waugh (1903-1966) – 1ª edição, 1938; revista em 1964, Chapman and Hall - é considerado, justamente, como uma das obras-primas da língua inglesa do século XX (há tradução portuguesa, «Enviado Especial», de Luís de Almeida Campos, Bertrand, 1991). Ainda que outros romances do escritor sejam mais conhecidos do grande público, o certo é que neste caso encontramos os ingredientes que caracterizam a originalidade de Waugh – uma capacidade excepcional de usar a sátira, uma leitura muito arguta da realidade social do seu tempo e uma compreensão exacta de que os valores éticos e culturais não se afirmam ou persistem em abstacto, mas sim se forem capazes de vencer a difícil prova da crítica e da severa ironia.

 

Óleo de Henri Lamb.

UM HETERODOXO ESPECIAL
Evelyn Waugh nasceu em Hampstead, originário de uma família de editores e escritores, sendo que entre os seus irmãos o mais reconhecido começou por ser Alec, hoje praticamente desconhecido. O modo inesperado e heterodoxo de tratar os temas sociais e religiosos, hábitos e costumes foi a chave do sucesso do escritor que, apesar de conservador de formação e pensamento, se tornou um analista crítico de grande profundidade, inteligência e eficácia. Estudou em Lancing e no Hertford College de Oxford, onde cursou História Moderna, tendo sido um notável retratista literário do ambiente da Universidade britânica entre Guerras – como vários protagonistas desse período reconheceram expressamente. Em 1927, publicou uma biografia de Dante Gabriel Rosetti, onde tradição e modernidade se encontram com especial intensidade. No ano seguinte, lança o primeiro romance «Declínio e Queda» («Decline and Fall»), onde se notam todos os elementos romanescos que o tornarão muito apreciado e sobretudo que o definirão como um caso especial de originalidade e de inteligência humorística. A sucessão de títulos como «Corpos Vis» («Vile Bodies», 1930), «Malícia Negra» («Black Mischief», 1932), «Um Punhado de Pó» («A Handful of Dust», 1934) – antes de «Scoop» - veio confirmar plenamente as qualidades e o método inicialmente demonstrados pelo autor. Entretanto, viaja pela Europa, Próximo Oriente, África e América do Sul, publicando diversos livros sobre essas peregrinações – como «Remote People» (1931), «Waugh in Abyssinia» (1936). É desta experiência de viajante, num tempo especialmente difícil e perigoso, que antecedeu a eclosão da Segundo Grande Guerra Mundial, que E. Waugh vai tirar o tema para o extraordinário relato sobre um enviado especial. Ismaelia tem, assim, a ver com a Etiópia de Salassié e com as pretensões expansionistas italianas. A comicidade dos acontecimentos antecipava a tragédia…

UM ENVIADO MUITO ESPECIAL
William Boot era um jovem que vivia no campo, longe da agitação de Londres, tendo a seu cargo uma pequena coluna sobre temas da natureza num jornal de divulgação nacional, o «Daily Beast» de Lord Cooper. Boot alimentava, porém, a secreta esperança de poder ter outros voos no jornalismo, como o de correspondente internacional. Como se compreende, a actividade a que se dedicava estava, à partida, longe dessa ambição. As ironias do destino levaram, porém, a que, por uma estranha confusão de nomes, com um novelista com provas dadas, William Boot seja enviado para realizar uma missão num país africano de ficção, Ismaelia, em busca de um «furo jornalístico», uma vez que a situação que aí se vivia era explosiva, à beira de uma guerra civil. O jornal pretendia, no fundo, com recurso a um escritor conhecido, obter mais vendas através de um relato colorido dos acontecimentos dramáticos que iriam ter lugar. A inaptidão de Boot para esta missão era, no entanto, evidente. O inesperado ou o impossível, porém, verificam-se. E Waugh, com o seu magnífico método de usar a ironia e a sátira até à exaustão, demonstra, para gáudio dos leitores, que seguem com entusiasmo o desenrolar do enredo, como uma personagem votada ao fracasso pode, por um mero equívoco, tornar-se involuntariamente a pessoa de que o proprietário do jornal estava mesmo à espera. E assim como um erro conduziu ao convite para partir, vamos perceber que a vida, sendo, de facto, uma floresta de enganos, leva a que, apesar de estarmos perante o homem errado para esta missão, a verdade é que o êxito que o jornal pretendia com o convite a um novelista conhecido foi alcançado, uma vez que William Boot, o cronista de temas da natureza, apesar da sua incapacidade para entender os acontecimentos de Ismaelia, conseguiu obter o «furo jornalístico» pretendido. A crítica à lógica do sucesso jornalístico imediato é demolidora e tem uma actualidade muito maior do que se poderia pensar à primeira vista. Todavia, assim como houve no início uma confusão, o mesmo ocorre no final, já que é o verdadeiro escritor William Boot a beneficiar das honrarias pelo sucesso obtido graças ao acaso e ao pobre plumitivo que tratava de sementes e do modo mais adequado para as plantar e ter resultados.

AVENTURAS PERIGOSAS
Em 1939, o escritor foi mobilizado primeiro para os Royal Marines e depois para os Royal Horse Guards, servindo no Médio Oriente, na Jugoslávia e em Creta. O testemunho deste tempo encontra-se muito claramente evidente nas obras que se seguem: «Put Out More Flags», e a série «Sword of Honour» («Men at Arms», 1952, «Officers and Gentlemen», 1955, «Unconditional Surrender», 1961). Em 1945, é o ano da publicação de «Brideshead Revisited», que celebrizará definitivamente Evelyn Waugh. O monumento literário ultrapassa em muito todas as tentativas feitas para o transpor para a tela, ora numa série de televisão, ora no cinema. Aí encontramos uma saga de tipo novo, onde juntam diversos elementos que Waugh trata magistralmente – o fim de uma era patrimonial, centrada nas últimas referências de uma sociedade aristocrática rural, o choque entre o formalismo vazio e uma «aristocracia do comportamento», os encontros e os desencontros do fim da guerra e da velha aura imperial britânica, os diversos sinais heterogéneos da decadência e de um certo renascimento, através da vivência de sentimentos autênticos. Dir-se-ia que em Brideshead se juntam os diversos modos de ver a vida e a sociedade. De facto, Waugh analisa os antigos valores da sociedade e põe-nos à prova, colocando em confronto a sinceridade e a hipocrisia, a generosidade e o egoísmo, a superficialidade e o sentido das coisas. Não foi, aliás, por acaso que Graham Greene afirmou ser Evelyn Waugh o «maior novelista da minha geração», enquanto na opinião de Nancy Mitford: «What nobody remembers about Evelyn is that everything with him was jokes. Everything. That's what none of the people who wrote about him seem to have taken into account at all». De facto, Mitford entendeu muito bem o enorme poder da ironia, que Waugh manejou como ninguém. Apesar das profundas diferenças, sente-se que há reminiscências do melhor G. K. Chesterton, expressamente citado, aliás, pelo autor. Em «Scoop» encontramos, numa solução concentrada, de um humor refinadíssimo, tudo aquilo que de melhor se revela na obra de Waugh. Estamos diante de uma obra-prima, onde não temos qualquer receita fácil, mas sim um relato muito bem urdido, que seguimos com naturalidade e prazer, percebendo que a sátira nunca é artificial e que, a cada passo, poderemos encontrar-nos com as mais curiosas e bem caçadas personagens. 


Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 22 de agosto de 2011