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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

«El Largo Viaje» (Tusquets, 2004) de Jorge Semprún é um conjunto notável de recordações amargas, terríveis, mas serenas, da barbárie de Buchenwald. No dia em que saiu do campo, ao autor pôs-se-lhe o dilema: recordar esse tempo inominável ou viver. E escolheu viver. Mas, quase vinte anos passados, em 1963, decidiu-se a escrever, com uma clareza capaz de obrigar a que essa memória não possa ser esquecida, em nome da humanidade e da liberdade. Contra qualquer violência ressentida, Jorge Semprún (1923-2011), agora falecido, contrapõe a exigência de nunca esquecer a dignidade humana.

 A VIDA DOS LIVROS 
de 13 a 19 de Junho de 2011


«El Largo Viaje» (Tusquets, 2004) de Jorge Semprún é um conjunto notável de recordações amargas, terríveis, mas serenas, da barbárie de Buchenwald. No dia em que saiu do campo, ao autor pôs-se-lhe o dilema: recordar esse tempo inominável ou viver. E escolheu viver. Mas, quase vinte anos passados, em 1963, decidiu-se a escrever, com uma clareza capaz de obrigar a que essa memória não possa ser esquecida, em nome da humanidade e da liberdade. Contra qualquer violência ressentida, Jorge Semprún (1923-2011), agora falecido, contrapõe a exigência de nunca esquecer a dignidade humana.


UMA VIDA ESPECIAL
Nascido a 10 de Dezembro de 1923 em Madrid, no seio de uma família espanhola influente, Jorge Semprún era neto materno de António Maura, presidente do Governo de Afonso XIII, e filho de José Maria Semprún Gurrea, catedrático de Filosofia do Direito, político republicano e católico, ligado, nos tempos de chumbo, à resistência cristã próxima de Emmanuel Mounier e da revista “Esprit”. Órfão de mãe com apenas oito anos, teve dela, D. Susana Maura, uma profecia, que nunca mais esquece – seria primeiro-ministro ou escritor… Não importava tanto o sentido da predição, para ele, Jorge Semprún, essa lembrança representava essencialmente uma grande prova de amor. Com a Guerra Civil (1936-39), juntou-se com os seus irmãos, a seu pai, Embaixador da República espanhola na Holanda. Começava aí um longo exílio que duraria toda a vida. Em 1939, perdida a causa republicana, instala-se em Paris, onde estuda com seu irmão Gonçalo, como aluno interno, no exigente Liceu Henrique IV. Encontra Emmanuel Lévinas, que reconhece as suas grandes qualidades intelectuais. E em 1942, ingressa no Partido Comunista de Espanha, sendo preso no ano seguinte em Paris pela Gestapo e deportado para o Campo de Concentração de Buchenwald, experiência que é, como se disse, o tema de “El Largo Viaje”. Vale-lhe saber alemão (uma velha preocupação do pai) e ter sido inscrito como estucador e não como o estudante que era. Essas circunstâncias providenciais impedirão a sua morte. Apenas será libertado em 11 de Abril de 1945, pondo-se-lhe então a citada escolha dilacerante. Nunca esquecerá o seu número de matrícula 44904, mas optará por agir. Em Buchenwald dirá muito mais tarde, em 2005: «todas as memórias europeias da resistência e do sofrimento só terão como último refúgio e baluarte (…) a memória judia do extermínio, a mais antiga memória daquela vida, já que foi, precisamente, a mais jovem vivência da morte».

MILITANTE DA LIBERDADE
Depois da Guerra seguirá a sua militância política clandestina, mas, em 1964, rompe com o Partido Comunista, por recusar a lógica estalinista, então assumida por Dolores Ibarrui e Santiago Carrillo. Nessa atitude é acompanhado por Fernando Claudín. O valor da liberdade sobrepunha-se a uma qualquer lógica de poder ou oportunidade. Esse é o ano em que sai na Gallimard, com o título “Le Grand Voyage” o testemunho sobre o período em que Semprún esteve no Campo de Concentração de Buchenwald. O tema central é o «passado que não passa» que voltará em “L’ Écriture ou la Vie” (1994). O poder evocativo do escritor tem tal pujança que lhe permite ser uma das grandes testemunhas de um tempo dramático e dividido. Como disse Jean Goytisolo: «a criação literária de Jorge Semprún, elaborada a partir da sua quadrupla experiência de exilado republicano espanhol, resistente francês, deportado nos campos nazis e conhecedor dos segredos de um PCE ainda não expurgado das escórias do estalinismo, enriqueceu-se posteriormente com novelas da envergadura de “El Desvanecimento” e “La Segunda muerte de Ramón Mercader, até alcançar em “Aquel Domingo” essa dimensão histórica, ética e cultural, que a converte numa obra de referência no âmbito da melhor novela europeia». Aliás, em “La Segunda muerte” (editada em França, em 1969) o autor recorda as memórias mais remotas de uma infância intensamente vivida. Escreverá ainda, entre outros, «L’Algarabie» (1981) e «Mort qu’il faut» (2001), havendo hoje um reconhecimento geral de que esses testemunhos são fundamentais, quer no plano literário, quer pelo valor ensaístico.

O INESQUECÍVEL CINEMA E F. SANCHEZ
O cinema será uma das suas paixões. Constantin Costa-Gravas pede-lhe para escrever os argumentos de “Z” (1969), de “L’Aveu” (1970) e de “Séction Spéciale” (1974). A força dos argumentos impõe-se naturalmente. Também colabora com Alain Resnais. Costa-Gravas dirá: «o homem Jorge Semprún era de uma grande humanidade. Era um homem profundamente doce que punha de imediato as pessoas à vontade. Era de uma grande honestidade no plano político». E todos nos recordamos muito bem da personagem forte de Yves Montand em “Z”. No governo presidido por Felipe Gonzalez, o grande prestígio intelectual e político de Semprún leva-o a assumir a pasta da Cultura (1988-1991), numa experiência sobre que escreverá «Federico Sanchez se despide de ustedes» (1993). Contudo, o seu apego à nacionalidade espanhola (além de outros argumentos bizarros então usados) impediria a sua entrada na Academia Francesa. De facto, usou em regra a língua francesa na sua obra, com duas excepções significativas - «Autobiografia de Federico Sanchez» e «Vinte Anos y un dia». Federico Sanchez é a grande personagem de Semprún. É ele mesmo, perante o mundo, encarando frontalmente a tentação de alguns para definir de antemão a história e a vida, como necessidade e determinação.

REALIDADE E FICÇÃO EM DIÁLOGO
Estamos perante uma relação riquíssima entre a realidade e a ficção – e a narrativa memorialística encontra um forte sentido de vida vivida que Jorge Semprún assumiu com todas as suas consequências. Assim se entende, afinal, a opção radical à saída de Buchenwald, Semprún opta pela vida contra o suicídio e o nada. E essa ligação entre pensamento e acção, vida e narrativa, abre-nos para o projecto do autor, que se singulariza como um pensador activo. E é a Europa que nasce «como construção de um espaço de liberdade e de democracia frente ao passado hitleriano e frente ao presente e ao porvir do totalitarismo soviético». O percurso de Jorge Semprún é, assim, o retrato do século XX e visa, no fundo, a reflexão sobre a democracia como sistema de valores e não como estrutura formal de legitimação ou como um modelo abstracto de justiça. Daí a importância da «Autobiografia» de um responsável comunista espanhol, F. Sanchez, encarregado de criar uma célula de intelectuais e universitários nos anos cruciais de 1953 a 1963. Sanchez começa por acreditar numa força transformadora messiânica, mas vai compreendendo que, mais importante do que a participação ou a representação, para o aparelho instalado, é o poder e a sua perversão. Assim, a experiência totalitária torna-se-lhe intolerável e exige a sua superação. O que fascina na literatura de Jorge Semrún é a ligação entre uma escrita atraente e clara, um pensamento crítico e luminoso e a agudeza da análise histórica de largo prazo, numa obra de excepção. Já se disse, porém, que não há rancor, há serenidade – de uma humanidade que, parte da imperfeição e do erro, para os ir ultrapassando em cada conquista, sempre precária, porque nunca possuímos o conhecimento pleno da verdade. Como refere ainda Goytisolo: «A reflexão política recolhida na última década em “El Hombre Europeo” e “Pensar Europa” coroa o seu labor de pessoa e escritor, em todas as circunstâncias, como pedia Manuel Azaña -, testemunha dos horrores e grandezas da época convulsa que viveu».

Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 13 de junho de 2011