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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Fialho de Almeida morreu há cem anos, a 4 de Março de 1911, em Cuba. Tinha nascido em Vila de Frades a 7 de Maio de 1857 e a sua vida foi atribulada, sendo marcada por um afinado sentido crítico e por um talento literário muito especial, podendo dizer-se que foi um dos grandes renovadores da literatura e língua na segunda metade do século XIX. A propósito da efeméride referimos a publicação da obra «“Kodakização” e Despolarização do Real – Para uma poética do grotesco na obra de Fialho de Almeida» de Isabel Cristina Pinto Mateus (Caminho, 2008), cuja leitura imprescindível deve ser complementada por “O Essencial sobre Fialho de Almeida” de António Cândido Franco (INCM, 2002). A descoberta de Fialho de Almeida é uma tarefa que permite o encontro, algo inesperado, de alguém que está muito para além das simplificações, muito difundidas, sobre a sua vida, o seu talento e a sua criação literária.

A VIDA DOS LIVROS
de 7 a 13 de Março de 2011


Fialho de Almeida morreu há cem anos, a 4 de Março de 1911, em Cuba. Tinha nascido em Vila de Frades a 7 de Maio de 1857 e a sua vida foi atribulada, sendo marcada por um afinado sentido crítico e por um talento literário muito especial, podendo dizer-se que foi um dos grandes renovadores da literatura e língua na segunda metade do século XIX. A propósito da efeméride referimos a publicação da obra «“Kodakização” e Despolarização do Real – Para uma poética do grotesco na obra de Fialho de Almeida» de Isabel Cristina Pinto Mateus (Caminho, 2008), cuja leitura imprescindível deve ser complementada por “O Essencial sobre Fialho de Almeida” de António Cândido Franco (INCM, 2002). A descoberta de Fialho de Almeida é uma tarefa que permite o encontro, algo inesperado, de alguém que está muito para além das simplificações, muito difundidas, sobre a sua vida, o seu talento e a sua criação literária. 


Fialho por Vasco.

UM FALSO MALDITO
Na mensagem que enviou para a sessão comemorativa dos cem anos da morte de Fialho (em Vila de Frades), Eduardo Lourenço considerou que estamos perante um falso maldito da literatura portuguesa, uma vez que alguns episódios que são referidos como motivo de reserva ou de distância relativamente ao autor de “Os Gatos” (como a acrimónia relativamente a Eça de Queirós e a crítica do republicanismo) não permitem que deixemos de dar a devida atenção ao dotadíssimo escritor, que soube apontar no sentido de uma profunda renovação de caminhos no domínio das ideias e das tendências literárias e artísticas. Com efeito, a crítica acerba ao naturalismo e ao impressionismo, mas sobretudo à sua degenerescência, tem em Fialho uma dupla face do maior interesse: por um lado, nos diversos campos em que exerceu a crítica (literatura, arte, teatro, música) assumiu sempre uma atitude coerente de defesa de um cânone renovador baseado na emoção e na fantasia; por outro, como escritor procurou levar à prática nas suas obras as orientações que correspondiam às suas apreciações críticas. É verdade que os seus textos são muito diversificados, e que nem sempre têm uma qualidade uniforme, no entanto decantanda a prolífera produção descobrimos que há um caminho determinado e profundamente renovador que coloca Fialho de Almeida num lugar de excepção no expressionismo da literatura portuguesa. E é com um sentimento desperto e intenso que lemos as suas prosas mais marcantes.

VIDA ATRIBULADA
Formado em Medicina em 1885, depois de ter sido obrigado, por vicissitudes económicas, a viver a vida ingrata de ajudante de farmácia, em condições especialmente duras, interrompidos os estudos, Fialho de Almeida dedicou-se ao jornalismo e à literatura – tendo-se tornado notado com a publicação de “Os Gatos”, de 1889 na 1894. Com um estilo muito próprio, o escritor vai usar um método diferente do de Ramalho Ortigão. “Os Gatos” são azedos, sarcásticos, desapiedados, severos – e o entusiasmo da crítica quase cega o seu autor na verve demolidora. Diz Fialho: «Deus fez o homem à sua imagem e semelhança, e fez o crítico à semelhança do gato. Ao crítico deu ele, como ao gato, a graça ondulosa e o assopro, o ronrom e a garra, a língua espinhosa e a câlinerie. Fê-lo nervoso e ágil, reflectido e preguiçoso; artista até ao requinte, sarcasta até à tortura, e para os amigos bom rapaz, desconfiado para os indiferentes e terrível com agressores e adversários.» [...] Desde que o nosso tempo englobou os homens em três categorias de brutos, o burro, o cão e o gato – isto é, o animal de trabalho, o animal de ataque e o animal de humor e fantasia – porque não escolhermos nós o travesti do último? É o que se quadra mais ao nosso tipo, e aquele que melhor nos livrará da escravidão do asno, e das dentadas famintas do cachorro». E depressa se percebe que esse método faz parte da intransigência que Fialho cultivava, contra as cedências fáceis e a inércia estilística. A boémia marca a vida do crítico, que se manifesta não apenas como cronista, mas também como um contista de talento, lembremo-nos de “A Ruiva”, “O Sineiro de Santa Ágata”, “O violinista Sérgio num café da Mouraria” ou “A Taça do Rei de Tule”… Raul Brandão compreendeu como poucos que a acutilância e a aparente impiedade de Fialho não poderiam ser vistas de modo simplista: “No fundo, bem no fundo, quando irrompia numa frase cruel, não era aos outros que dilacerava, era a si próprio que se dilacerava, e tão sério que todos o víamos sangrar”. O seu sentido crítico não era, assim, exercido de modo lúdico, mas de forma dramática.

CRÍTICO SEVERO DO NATURALISMO
“Na arte só têm importância os que criam almas, e não os que reproduzem os costumes” – assim se exprimiu o escritor alentejano a Carlos Lima Mayer. Ora, o que Fialho verberou no naturalismo foi exactamente a incapacidade de criar personagens com expressão humana. Depois de se ter deixado entusiasmar pelo Eça de “O Crime do Padre Amaro” desconsidera “Os Maias”, por ausência de capacidade criadora para caracterizar os protagonistas e os intervenientes. Estávamos diante de um exemplo do naturalismo que deveria ser objecto de severa crítica e no entanto, o maior argumento que usará contra Eça de Queirós é o facto de a sua obra ser “desnacionalizadora”. Sabemos, porém, que, depois de uma leitura lenta e ponderada de “A Ilustre Casa de Ramires”, viria Fialho a homenagear Eça pelo sentido positivo dessa obra referencial. Eça contrapõe-se a Camilo, na ideia do escritor de “O País das Uvas”. Enquanto o segundo se aproximaria do entendimento de que a literatura não deveria perder fantasia e imaginação, o primeiro teria cedido à tentação da repetição e da uniformidade. Assim, a crítica do naturalismo assenta nestes pressupostos: (a) denegação da imaginação e da fantasia; (b) ausência de emoção; e (c) impasse e repetição, o que nos conduz ao método experimental. É nesta linha que o escritor de Vila de Frades fala de um “estilo kodakizado”, usando a marca de uma célebre máquina fotográfica, para criticar o racionalismo científico responsável pelo desaparecimento do sonho e da poesia.

AS ARTES E O CRÍTICO
Imaginação, fantasia e capacidade autenticamente inovadora, eis o que o crítico reclama para uma nova geração de escritores e artistas. José Régio perguntará? “Não musicou Fialho em longas frases a princípio tacteantes, depois cada vez mais perfeitas, mais seguras e tão saborosas do que arcaísmos e seiva popular, como de intervenção e fantasia pessoal?”. Fialho de Almeida está numa encruzilhada, curiosa e fecunda: admira Cesário Verde e é reconhecido por Fernando Pessoa. Afinal, o paradigma de um crítico de arte obriga a entender que há mais repetidores do que críticos. Fialho é um criador, que não se resigna à mediocridade. Olha em volta e vê que prevalece ou a repetição, a inércia ou o elogio mútuo. Se critica o formalismo de Silva Porto, enaltece Marques de Oliveira. Sobre este último diz que “vê seu” – pondo a tónica na sua originalidade – enquanto Silva Porto “vê certo”. Para Fialho de Almeida, o que interessaria era a emoção ligada ao artista concreto (ver-se, ver seu), que deveria demarcar-se da ausência de imaginação, que estaria a caracterizar a fase artística actual (o ver certo). Mais do que uma técnica, haveria que compreender o sofrimento e o êxtase, a sugestão e a criatividade. Isabel Cristina Pinto Mateus desenvolve, assim, a sua reflexão a partir do poeta-pintor que aponta para a “despolarização do real”. E nesse ponto o crítico e o artista Fialho de Almeida encontram-se. Daí a importância da deformação, do grotesco, da máscara e de um certo barroquismo que pretende dar expressão à criação. Leiam-se, por isso, textos como “Uma manhã no rio” ou “Manhã no Tejo”, aí encontramos uma imersão total do escritor, de um modo panteísta, na realidade que é descrita e apresentada. “Tudo crepita, árvores, terra, ferros, rochas, animais; faísca tudo, e a natureza toma um tom de martírio, perante o qual, atónito o próprio homem esquece as suas dores” (como está escrito nos “Ceifeiros”).

Guilherme d'Oliveira Martins

 

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