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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

O célebre Padre jesuíta João Rodrigues ficou conhecido no Japão como “Tçuzu”, que significa intérprete ou tradutor, uma vez que se dedicou ao estudo aprofundado das relações linguísticas entre o português e a língua japonesa. Escreveu o célebre “Vocabulário da Língua de Japam”, publicado em Nagasáqui em 1603, documento que ainda hoje causa admiração pela profusão de elementos e pelo excepcional rigor como foi feito, contendo 32 mil entradas (veja-se a edição dirigida por Shigenobu Otsuka, da Companhia de Jesus, Nagasáqui, 1998). Tçuzu foi ainda autor de uma gramática, intitulada “Arte da Língua de Japam” publicada também em Nagasáqui em 1604 (de que existe uma edição de 1976, com comentários de Tadao Doi e Ken Mihaishi, editada em Tóquio, Benseisha). Guilherme d'Oliveira Martins

de 28 de Fevereiro a 6 de Março de 2011


O célebre Padre jesuíta João Rodrigues ficou conhecido no Japão como “Tçuzu”, que significa intérprete ou tradutor, uma vez que se dedicou ao estudo aprofundado das relações linguísticas entre o português e a língua japonesa. Escreveu o célebre “Vocabulário da Língua de Japam”, publicado em Nagasáqui em 1603, documento que ainda hoje causa admiração pela profusão de elementos e pelo excepcional rigor como foi feito, contendo 32 mil entradas (veja-se a edição dirigida por Shigenobu Otsuka, da Companhia de Jesus, Nagasáqui, 1998). Tçuzu foi ainda autor de uma gramática, intitulada “Arte da Língua de Japam” publicada também em Nagasáqui em 1604 (de que existe uma edição de 1976, com comentários de Tadao Doi e Ken Mihaishi, editada em Tóquio, Benseisha). Deve ler-se ainda sobre o tema: “As Variedades do Japonês nas Artes de João Rodrigues Tçuzu” por Eliza Atsuko Tashiro www.fflch.usp.br/dl/cedoch/downloads/boletim7_199-224.pdf. Sob esta invocação, terminaremos hoje o breve relato da nossa viagem ao Japão, lembrando ainda o filme de Sofia Coppola “Lost in Translation”. 

A MAIOR METRÓPOLE DO MUNDO
Tóquio é uma grande metrópole cosmopolita. É a maior do mundo, com mais de 36 milhões de habitantes. Aqui se nota que o Japão é uma convergência entre as tradições antigas e a vontade de viver o tempo actual. O Embaixador Armando Martins Janeira chamou sempre a nossa atenção para essa rica simbiose entre o Japão antigo e moderno. Só olhando esses dois lados, o peso da ancestralidade, dos antepassados, e a força da modernidade podemos entender a pujança e abertura da cultura nipónica. A simplicidade e o requinte, a hospitalidade e a respeitosa distância, a tradição e o sentido de futuro. O Hotel em que ficamos, o Imperial em Ginza, à beira do Palácio do Imperador, junto das avenidas e do grande comércio, recorda a memória de um mítico edifício desenhado por Frank Lloyd Wright, no entanto o moderníssimo arranha-céus de agora já nada tem a ver com o monumentos de outros tempos. Dizem-me que a entrada do velho Hotel dos anos vinte foi transplantada para os arredores de Nagoia. Mas Tóquio continua a ser uma referência na arquitectura mundial. Aqui encontramos a qualidade, o requinte, o equilíbrio, entre a audácia inovadora e o sentido da medida. Entramos na cidade ao pôr-do-sol – acolá a célebre torre, aqui e ali os edifícios emblemáticos. Sentimo-nos bem.   Olhando a arquitectura rica e multifacetada desta extraordinária cidade, rememoramos o que foram os nossos últimos dias. Por mar, num ferry igual a tantos outros, fomos de Nagasáqui a Amakusa, onde existiu o célebre colégio jesuíta. O céu azul, o sol intenso e uma ligeira brisa fresca, fizeram-nos gozar uma manhã gloriosa de navegação. José de Guimarães fixa essa realidade em fotografia. Quando avistámos o forte de Tomioki, Camilo Martins de Oliveira lembrou-nos os 37 mil cristãos aqui mortos aquando da perseguição de Tokugawa. Já no autocarro, gozamos a terra acolhedora, campos cultivados, lâmpadas amarelas para afastar os insectos e preservarem as alfaces. Seguimos pela costa, estamos numa zona vulcânica, alcantilada, mar calmo, azul claro, céu límpido. Almoçamos num inesperado Hotel, onde tudo recorda Portugal, cartazes do turismo, símbolos e palavras portuguesas. No entanto, os empregados só falam japonês, apesar de o restaurante se chamar “Pôr-do-Sol” e de todos ostentarem orgulhosamente galos de Barcelos nas lapelas. Após esta imersão total nas referências portuguesas, com as acolhedoras hospitalidade e simpatia, visitámos a Igreja de Ooe, fundada pelo Padre Garnier, no século passado, onde encontrámos a azáfama dos preparativos do Natal, e o Museu do Rosário, interessante repositório da memória dos cristãos escondidos e da sua herança espiritual. Mas do que usufruímos sobretudo, naquele serpentear junto ao mar, foi da familiaridade entre dois povos tão distantes, que têm em comum, como diria Wenceslau, a saudade e o mar.


Igreja de Ooe em Amakusa

UM BONITO DIA EM KAGOSHIMA
Em Kagoshima, em mais um dos bonitos dias que encontrámos, sentimos a presença forte do carisma de Francisco Xavier. É quase estranho como uma personalidade como a deste homem se projecta com tanta intensidade para além dos séculos. Sentimo-lo, há anos, em Goa, quando vimos centenas de milhar de pessoas, com presença maciça de hindus, além dos cristãos e muçulmanos, e voltamos a perceber que continua a ser venerado também nestas paragens. O Padre Mestre Francisco, como lhe chamam Fernão Mendes Pinto e Luís Fróis, chegou a 15 de Agosto de 1549, com Angiró (ou Ângelo, que fora baptizado em Malaca com o nome cristão de Paulo de Santa Fé), jovem samurai convertido que o acompanhava e que foi precioso auxiliar para comunicar com os japoneses. A Igreja que visitamos data de 1999, representa uma nau, com vitrais nas várias cores do arco-íris, significando o vermelho, sobre que incidia o sol da manhã, o coração do bem-aventurado e o azul a imensidão do mar. O Padre Nakano é inexcedível no entusiasmo e nas explicações – insistindo nas condições adversas que levaram à proibição do cristianismo pelo xógum Toyotomi Hideyoshi (1587), epílogo trágico da história do Padre Fróis.

NO COMBÓIO-BALA ATÉ NIKKO
De Tóquio, partimos no combóio-bala, sem grandes sobressaltos, para Nikko. É imprescindível visitar o mausoléu construído por Iemitsu Tokugawa, exemplo da ostentação pessoal e do culto dos antepassados. A cada passo, encontramos a síntese entre o xintoísmo e o budismo, ilustrada por profusa e luxuriante decoração. Tudo começa com a homenagem ao grande e já nosso conhecido Ieyasu Tokugawa (1543-1616), avô de Iemitsu, na qual estiveram envolvidos quinze mil artesãos, escultores, pintores, artífices do ouro e da laca. A avenida dos cedros é a mais imponente que se conhece. A sóbria porta de granito (torii) anuncia a entrada de Yomeimon, profusamente decorada com animais e flores. Uma das doze colunas está invertida, porque a imperfeição é a única maneira de afugentar os espíritos maus e invejosos. O estábulo sagrado, o pagode de cinco andares, a fonte sagrada, tudo é impressionante. O ritual xintoísta, a que assistimos em Nikko, associa o afastar dos maus agoiros, com a utilização de um espanta-espíritos, e a chamada dos Kami, os protectores ancestrais, ou, etimologicamente, os que estão acima de nós, com o bater das palmas (de que Wenceslau falava, para depois da alvorada).

DE FRANCISCO XAVIER A BASHÔ
Por um momento, nesta profusão de símbolos e referências, percebemos a dificuldade de Francisco Xavier em fazer-se entender – primeiro ao falar de “Dainichi”, como sinónimo de Deus (fazendo a comparação com a primeira das divindades do budismo), e depois ao usar a palavra “Deusu”, o que suscitou as desconfianças severas dos religiosos e das autoridades, perante uma realidade que era estranha e concorrente… E ao falar das fronteiras da língua e da cultura, temos de recordar alguém que fomos encontrando ao longo desta nossa Peregrinação. Falamos de João Rodrigues (c. 1560 – c. 1633), padre jesuíta conhecido no Japão como “tçuzu”, que significa intérprete, autor do célebre “Vocabulário da Língua de Japam” (Nippojisho), publicado em Nagasáqui em 1603, documento que ainda hoje causa admiração pela profusão de elementos e pelo excepcional rigor como foi feito, contendo 32 mil entradas.E se, de facto, não nos sentimos, como no filme de Sofia Coppola, perdidos na tradução (“Lost in Translation” ou “O Amor é um lugar estranho”), facilmente sentimos como a história pode depender de encontros e desencontros ligados à comunicação entre culturas e povos. Mas, ao despedirmo-nos de Tóquio (numa aventura que terminaria em Paris sob o nevão impiedoso), lembrámo-nos sobretudo da simpatia e hospitalidade – e lembrámo-nos de Bashô (1644 – 1694), o grande poeta e da sua sabedoria, a dizer-nos, no modo hai-kai: “Num atalho da montanha / sorrindo / uma violeta” ou “Mesmo um velho cavalo / é belo de manhã / sobre a neve”. E Paul Claudel, influenciado por Bashô, na sua estada diplomática no Japão, considerou o país um jardim, pleno de surpresas e encantamento.     


Guilherme d'Oliveira Martins