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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Luís Fróis, S.J. (1532-1597) escreveu a “História de Japam” (1597; edição portuguesa, em cinco volumes: 1976-1984, com anotações de Josef Wicki), obra fundamental para a compreensão da sociedade japonesa do século XVI e do diálogo estabelecido entre os portugueses, primeiros europeus a chegar por mar ao Império do Sol Nascente, e o povo nipónico. Não é possível compreender o Japão histórico (de 1549, data da chegada de S. Francisco Xavier, e 1597, data em que o escritor jesuíta faleceu) sem nos reportarmos a esse testemunho pormenorizado e atento de Luís Fróis, eivado do espírito do tempo e da mentalidade da época, mas extremamente rico em pormenores e em apreciações – que hoje nos permitem compreender o que era um diálogo entre culturas há mais de quatro séculos. A propósito da obra de Fróis continuamos o relato da viagem ao Japão no ciclo “Os Portugueses ao Encontro da Sua História”. Guilherme d'Oliveira Martins

de 14 a 20 de Fevereiro de 2011


Luís Fróis, S.J. (1532-1597) escreveu a “História de Japam” (1597; edição portuguesa, em cinco volumes: 1976-1984, com anotações de Josef Wicki), obra fundamental para a compreensão da sociedade japonesa do século XVI e do diálogo estabelecido entre os portugueses, primeiros europeus a chegar por mar ao Império do Sol Nascente, e o povo nipónico. Não é possível compreender o Japão histórico (de 1549, data da chegada de S. Francisco Xavier, e 1597, data em que o escritor jesuíta faleceu) sem nos reportarmos a esse testemunho pormenorizado e atento de Luís Fróis, eivado do espírito do tempo e da mentalidade da época, mas extremamente rico em pormenores e em apreciações – que hoje nos permitem compreender o que era um diálogo entre culturas há mais de quatro séculos. A propósito da obra de Fróis continuamos o relato da viagem ao Japão no ciclo “Os Portugueses ao Encontro da Sua História”.

EM NAGASÁQUI, VINDOS DE KOBE… 
Quando chegámos a Nagasáqui, vindos de Kobe, ainda tínhamos na retina as cores do momiji, os vermelhos e amarelos indefiníveis deste Outono de sol. Mas lembrávamos ainda a moderna arquitectura de Osaka, o castelo construído por Toyotomi Hideyoshi em 1586, o Museu de História com a última palavra da pedagogia electrónica. Sentimos bem a pujança económica e comercial da cidade. Usufruímos de um ensaio de teatro Noh. Mas de Osaka ficou-nos sobretudo a recordação da visita inesquecível ao Museu de Cultura e Arte Namban, obra de generosidade e de entrega, que agradecemos à Senhora Takako Yano, que continua a obra magnífica de seu Pai. Dois extraordinários biombos Namban representam a partida da Nau do Trato de Macau e a chegada ao Japão. São, pela qualidade, dos melhores que se conhecem, considerando a diversidade de elementos e a qualidade excepcional das representações de portugueses, com inconfundíveis narizes desproporcionados, de japoneses, de clérigos jesuítas (um dos quais ostentando curiosas lunetas), cavalos ajaezados, vestimentas bizarras, demonstrações de funambulismo no navio, pequenos cães e mil outros pormenores, que nos deixam horas esquecidas a ver e a rever aquelas relíquias. O pequeno Museu merece todo o apoio, uma vez que o acervo é extraordinário, exigindo cuidados e atenções especiais, conservação, estudo e investigação. Em Kobe, sentíramos o exemplo de coragem de um povo a propósito do grande terramoto de 17 de Janeiro de 1995, que reergueu heroicamente a urbe, honrando os mais de seis mil mortos e reconstituindo, com nova energia, a vida económica, social e cultural. Na cidade, que nos acolheu principescamente, recordámos com muita emoção a memória de Wenceslau de Moraes, de novo ele, o português que amou o Japão, o escritor simbolista que fez da sua presença aqui a força da sua palavra e, por isso, entregámos ao Museu Municipal uma placa de gratidão a recordar esse homem que, como ele próprio afirmou, em Kobe e Tokushima, escreveu “como mero passatempo, alguns livros sobre costumes japoneses que foram benevolentemente recebidos pelo público em Portugal”. A homenagem prolongou-se no Parque da Cidade, junto à estátua do escritor e diplomata, depois de usufruirmos de mais dois magníficos biombos Namban. Foi o único momento em que receamos por uma chuvada, tão ameaçadores se tornaram os céus, mas não fomos perturbados por qualquer chuva inoportuna…

DIAS INTENSOS À VOLTA DE QUIOTO
Se falo de memórias que trazíamos dos dias intensos à volta de Quioto, tenho de dizer que Nara nos deixara um impressão magnífica. Quando deparámos com a estátua do grande Buda, em Todai-ji, tivemos consciência de que estávamos diante do mais poderoso e imponente símbolo do poder imperial. Tudo é magnífico na cidade imperial, que só em 710 se tornou capital, já que antes as cidades do Imperador eram, em regra, destruídas após o seu desaparecimento. O Príncipe regente Shotoku Taishi (574-622), sobrinho de Suiko, a mítica imperadora, criou condições para que Nara se tornasse cabeça estável do Império, introduziu a escrita chinesa, implantou o confucionismo e o budismo, fazendo aprovar o “Esplêndido Decreto” (604), cujos 17 artigos definem com uma clareza sagrada as bases da legitimidade do novo poder. A partir de então poderia ser imperador quem fosse designado pelos deuses, sendo descendente de Amaterasu, deusa do Sol, dominante do panteão xintoísta. Não importaria que fosse forte ou fraco. Mas, para que a ligação entre o mundo divino e o mundo concreto se fizesse, deveria o Imperador plantar e ceifar arroz (como ainda hoje faz), rito iniciático a que está vinculado, para cumprir a legitimidade que o assinala. E foi a partir de então que o Imperador do Sol Nascente se tornou independente do Imperador do Meio (ou do Sol Poente), subsistindo ao longo dos séculos graças à resistência histórica ao poder dos senhores feudais. Lembrávamo-nos de Horyu-ji, considerado o berço do budismo japonês, onde estão os mais antigos e impressionantes edifícios de madeira do mundo.


Templo Todai-ji, em Nara

A AFIRMAÇÃO DO BUDISMO
Num esforço para afirmar e difundir o budismo ao lado do xintoísmo, como pilares do sistema de culto do Japão, Shotoku mandou construir um imponente pagode de cinco andares, num estilo trazido da China, em que cada um dos pisos representa, de baixo para cima, os elementos fundamentais da natureza: a terra, a água, a madeira, o ar e o vento e o céu. No complexo de Todai-ji, de nítida influência da dinastia chinesa Tang, num parque repleto de corças, que são vistas como mensageiras dos deuses, confraternizando com os circunstantes, gozamos da imponência de um templo descomunal, cuja construção original é do século VIII (752), apesar de o salão principal, que visitamos, ser uma laboriosa e complexa reconstrução do século XVIII (1709). A imagem de bronze do Buda sentado é avassaladora, a maior que se conhece, rodeada de guardiães, – e diz a tradição popular que aqueles que conseguirem passar por uma apertada passagem existente no templo atrás do Buda poderão atingir mais facilmente o Nirvana. São sobretudo as crianças que se dedicam a esse exercício de destreza filosófica. Em Nara, sentimos a cada passo a tradição da cultura nipónica, com as tradições xintoísta e budista. O Museu Nacional apresenta-nos um acervo de grande riqueza, mas é o Byodo-in, que data do século XI, a dar-nos a representação mais fascinante da eterna felicidade, a partir da invocação da Fénix, a ave que renasce das cinzas. O templo projecta-se equilibrado e airoso nas águas que o rodeiam e que representam o grande oceano… O Buda Amida (ou da Luz Infinita) que aqui se encontra está rodeado de vinte e cinco apsaras, ninfas do paraíso de Indra, que ilustram o significado transcendente deste templo. Em 1052, Fujiwara Yorimichi converteu uma vila elegante que herdara de seu pai num importante templo, hoje reproduzido nas moedas de 10 iénes.

LEMBRANÇA DA NAU DO TRATO
Chegados a Nagasáqui, o destino da Nau do Trato, procuramos reconstruir, em imaginação, esse cenário. Diz a tradição que cidade foi fundada pelos portugueses. Haveria apenas um pequeno povoado de pescadores e o Padre Gaspar Vilela, sob indicação de Cosme de Torres, primeiro Provincial dos jesuítas foi responsável pela decisão. O local tinha características excepcionais – baía protegida das intempéries e dos tufões, ponto natural de convergência do comércio. Melchior de Figueiredo, também da Companhia de Jesus, fez o levantamento topográfico e Omura Sumitada cedeu os direitos aos jesuítas. Mas, nesta cidade, destruída em 1945 pela bomba atómica, único ponto de contacto com o comércio internacional desde o século XVII ao século XIX, lugar mítico de “Madame de Butterfly” e da lenda de um marinheiro português, temos de lembrar o exemplo do Padre Luís Fróis (1532-1597) autor da “História de Japam”, obra crucial para o conhecimento do diálogo cultural, terminado em termos dramáticos, como veremos.


Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

Fotografia: © CNC/Helena Serra