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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

O segundo volume de “Crónicas: Imagens Proféticas e Outras” de João Bénard da Costa (Assírio e Alvim, 2010) acaba de ser publicado e constitui um acontecimento deste final do ano, uma vez que podemos gozar em conjunto as magníficas crónicas (de 2004 e 2005) de um escritor que soube transmitir-nos como poucos uma visão do seu tempo e do seu mundo com sensibilidade e talento. A escrita é magnífica e os temas são apaixonantes. E se se fala, com muita justiça, de imagens proféticas no título é porque o tema recorrente, e sempre renovado, de modo apaixonante, é o das relações entre as pessoas e a beleza, nas diferentes expressões artísticas, num diálogo intenso e sempre inacabado, com a natureza.

A VIDA DOS LIVROS
de 27 de Dezembro de 2010 a
2 de Janeiro de 2011

O segundo volume de “Crónicas: Imagens Proféticas e Outras” de João Bénard da Costa (Assírio e Alvim, 2010) acaba de ser publicado e constitui um acontecimento deste final do ano, uma vez que podemos gozar em conjunto as magníficas crónicas (de 2004 e 2005) de um escritor que soube transmitir-nos como poucos uma visão do seu tempo e do seu mundo com sensibilidade e talento. A escrita é magnífica e os temas são apaixonantes. E se se fala, com muita justiça, de imagens proféticas no título é porque o tema recorrente, e sempre renovado, de modo apaixonante, é o das relações entre as pessoas e a beleza, nas diferentes expressões artísticas, num diálogo intenso e sempre inacabado, com a natureza.

 
SOB O SIGNO DO CORAÇÃO QUE VÊ
O fotograma que reproduzimos é do filme de Rita Azevedo Gomes (2005) “A 15ª Pedra” (sobre um tema que referimos no conto deste Natal dedicado a JBC). Aí há um diálogo extraordinário entre o nosso autor e Manoel de Oliveira sobre a ideia, confirmada numa viagem ao Japão, ao encontro do mistério dos conventos zen, de que “só de vê com o coração”… E é esse ver com o coração que está bem presente nesta recolha de textos e em muitas das reflexões do escritor neste período da sua vida. Alberto Vaz da Silva no texto luminoso que serve de prefácio intui com grande conhecimento de causa essa capacidade de ver para além do imediato. Lembra, por isso, os tempos em que João “foi escutando as invulgares mensagens que Deus em si depositou; a dos instantes, a da poesia, da música, da pintura e a de todas as artes, a dos textos sagrados e a dos sonhos, que no fundo da sua inteligência – coração – memória se interpenetraram, fundiram e puseram em movimento ao estranho ritmo de vinte e quatro imagens por segundo”. Tudo, no período que medeia entre duas fotografias, uma de 1960, em que os dois jovens, João e Alberto, se apresentam, um e o outro, como se fossem de facto o Tempo e o Modo, tal como eram conhecidos pelos filhos de Sophia, onde o reflexivo cachimbo de Alberto dá o tom literário; a outra, de João Bénard em Mântua, entre brumas, lendo um roteiro e segurando um cigarro breve. E que se sente ao ler as crónicas do João? Antes de tudo, o cinema (“Ele próprio arte do sonho, arte feita de sonhos, feito para fazer sonhar quem nunca sonha”). Como não lembrarmo-nos do seu amor por Johnny Guitar? E para lá das lanternas mágicas, “girava também o inconsciente dos seus próprios sonhos, das suas viagens e encontros, dos museus, dos livros e revistas de arte, de todos os livros que lia e escrevia com a espinal-medula”. E Alberto compreende como ninguém este seu amigo de antanho, que conheceu nos bancos do liceu, igual a si mesmo, com o seu imprescindível bloco com linhas, resistente às novas tecnologias… Compara-o a Montaigne, recorda as suas distracções, capazes de originar pequenas catástrofes, lembra o seu amor pelo barroco e o gosto pela água do mar. “Ao longo da vida foi constante a sua procura de Deus, a preocupação com o encontro com Alguém que esteja em nós não sendo nós e que, como formulou Pascal, reconcilie a Sua transcendência e a nossa intimidade com a universalidade do todo”. E neste belíssimo texto, que se lê e relê com muita emoção, sente-se a amizade total e a capacidade de procurar o que pode unir até ao infinito. Uma simples mensagem de telemóvel parece resumir tudo: “não te vás embora, espera por mim”. Isso e um poema de Sophia, sempre ela, que ambos, Alberto e João, liam em conjunto entusiasmadamente, recordando o rei de Chipre: «É a clareza do trigo em tua face como quem só em ilhas habitasse».

O DESEJO DE NOS ENSINAR A OLHAR E A VER
Falar de um livro de crónicas impede que sejamos exaustivos na apreciação. Os temas sucedem-se, seguem-se ou contrariam-se, as reflexões juntam-se aos sentidos. Deparamo-nos, entre retratos premonitórios, com Lucrezia Panchiatichi, de Agnolo Bronzino, que nos transporta aos Ofícios de Florença e o cronista lembra-nos a sensualidade de quem, vestida luxuosamente, é como se estivesse nua. O artista será tanto mais genial quanto mais nos obrigar a ir além das aparências e do que é revelado imediatamente e à primeira vista. Num tempo em que a tirania das aparências parece invadir tudo, temos de ir a quem em contra-corrente apenas nos vem dizer que a beleza vem da ligação entre que vê e quem fez para ser visto. E vem sempre à baila a lembrança da tal 15ª Pedra do Mosteiro da Eterna Sabedoria, que ninguém pode ver estando onde estiver à volta daquele jardim seco que figura o mundo. Mas lá estão, de facto, quinze pedras, de que nos apercebemos se circularmos. Mas se descobrimos uma das pedras faltava, logo deixamos de ver outra que temos a certeza que existe. Mas, por outro lado, também a beleza de uns salmonetes frescos na Arrábida tem consideração especial, digna de ombrear com uma caminhada gloriosa na mata do Solitário ou com a impressão soberba causada por um P. P. Rubens. Sobre o retrato da marquesa Brígida Spínola Dória, podemos ler: “As mãos compridíssimas e branquíssimas, o leque na mão direita e a entufadíssima gola de rendas contrastam com o rosto nubente (quase tímido), tornando aquela mulher um ‘montagna di stoffa’, salpicada de jóias, nascida para a luz e feita de luz, ser de prata, emanador de tal luxo e tal calma que a volúpia só decorre do excesso delas”. Como se vê, não basta o prazer, a surpresa e o encantamento. JBC vai sempre mais além, e faz dessa oportunidade de olhar e ver um motivo para transformar em palavras o que viu sobre a tela, pintado por um génio como Rubens. Em cada viagem, sente-se a curiosidade de ir aos lugares mais recônditos, onde pode estar escondido um tesouro ou um exemplo do que é belo. Esse é um motivo de entusiasmo e de curiosidade sempre renovada por parte dos seus leitores, perante a capacidade excepcional de nos ensinar a olhar e a ver. O escritor não esquece a sua condição de pedagogo, não aquele que papagueia, mas sim o que deixa pensar e leva a concluir. Nota-se um sentido maiêutico na sua atitude que lembra a condição de professor que foi. Mas nunca se deixa arrastar por simplificações. Sobre as comparações entre a escola de ontem e de hoje, JBC descobre linhas de continuidade, e demarca-se das simplificações mais ou menos saudosistas, diagnosticando: “ignorância, sim, imensa, acompanhada, em gerações mais recentes, pela arrogante ignorância dessa própria ignorância, o que é a mais explosiva mistura que imaginar se possa. Mas a apatia pode ser vencida e, daí ao resto, há um passo possível”.

COMO NAS MIL E UMAS NOITES
O fotograma do filme da Rita Azevedo Gomes é como se fosse uma recordação das mil e uma noites vividas por João Bénard da Costa. Estamos diante de um contador de histórias, apaixonado por poder abrir as imaginações e os espíritos. O escritor e Duarte de Almeida, se nos quisermos recordar do seu pseudónimo como actor de filmes, existem embrenhados no sonho, ora do cinema, ora da pintura, ora da literatura… Há muito para contar, e nota-se no livro (e para quem quiser ver o filme) essa necessidade incessante de procura e de força para ir recomeçando sempre, como Penélope fazia na sua ilha de Ítaca a obra em mãos, na esperança de ver regressado Ulisses, demorado no mágico Mediterrâneo. Daí recordar: “Conheci (…) a Odisseia, mesmo se contada às crianças, em mui tenra idade e dei-a a conhecer a crianças de igual tenrura. Além de Polifemo, o Cavalo de Tróia, Circe ‘a das muitas poções mágicas’, a ilha das duas sereias, Cila com as doze pernas, os dez pescoços e as três filas de dentes, a Caríbdis temível, sugadora da água escura, e as ‘robustas ovelhas do sol’, pastoreadas pelas ninfas, de belos cabelos, Featusa er Lampécia”. Todos beneficiamos, assim, da memória prodigiosa do João Bénard da Costa por isso, ao lermos e relermos estas crónicas vamos como que aprendendo que é indispensável considerar que viver num mundo desregulado e ainda por cima em crise, como o actual, obriga a entender o silêncio…    

Guilherme d'Oliveira Martins