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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

O livro de Enzo Bianchi “Para uma Ética Partilhada” (Tradução de Artur Morão, Pedra Angular, 2009) é uma actual e belíssima reflexão sobre o mundo contemporâneo, sendo de uma grande oportunidade, em especial quando sentimos os efeitos da crise económica e financeira e percebemos que uma resposta ética actuante exige coerência e eficácia, para que os problemas actuais não venham a repetir-se, em condições certamente ainda mais gravosas para todos, não apenas para as contas, mas fundamentalmente para a coesão social e para a confiança nas instituições da democracia.

A VIDA DOS LIVROS
de 26 de Julho a 1 de Agosto de 2010

O livro de Enzo Bianchi “Para uma Ética Partilhada” (Tradução de Artur Morão, Pedra Angular, 2009) é uma actual e belíssima reflexão sobre o mundo contemporâneo, sendo de uma grande oportunidade, em especial quando sentimos os efeitos da crise económica e financeira e percebemos que uma resposta ética actuante exige coerência e eficácia, para que os problemas actuais não venham a repetir-se, em condições certamente ainda mais gravosas para todos, não apenas para as contas, mas fundamentalmente para a coesão social e para a confiança nas instituições da democracia.

UMA REFLEXÃO ESPIRITUAL PARA HOJE
Enzo Bianchi (n. 1943) é um monge com uma importante intervenção ecuménica, preocupado com o lançar de pontes em diversas direcções, no sentido dos cristãos e dos não cristãos, de diversas proveniências. Fundou em 1965 a Comunidade Monástica de Bose, no dia em que o Concílio Vaticano II encerrou os seus trabalhos. O sinal foi premonitório, uma vez que Bianchi tem-se empenhado activamente na difusão de uma espiritualidade renovada, fortemente enraizada num diálogo fecundo, tantas vezes surpreendente, entre a tradição e modernidade. É útil recordar, por exemplo, a citação, que tantas vezes Bianchi repete, de uma carta a Diogneto, escrita no século II, em que os cristãos aparecem definidos deste modo tão atraente: “vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cidadãos, mas separam-se de tudo como estrangeiros. Moram na terra, mas têm a sua cidadania no céu”. Nesta linha, Enzo Bianchi fala de uma cidadania espiritual, designada como politeuma, palavra grega que podemos traduzir como conversação, e que, a um tempo, significa conversa com Deus, enquanto oração, mas também compromisso com os outros. A obra que hoje nos ocupa espelha bem, de um modo simples e acessível, este mesmo entendimento. Esta conversa com Deus e com os outros é a chave de uma espiritualidade aberta, serena, respeitadora das diferenças e criadora.

TEMAS DIFÍCEIS E ACTUAIS
Os temas tratados no livro, a propósito da difícil tarefa de partilhar uma ética viva, são sucessivamente: a presença da Igreja no espaço público, a linguagem humilde para narrar a fé, o peso das palavras, a ética e a ciência à luz da fé e, por fim, há três apelos significativos aos cristãos, sobre o primado da fé, a reserva escatológica e a arte da comunicação. “Em vista de uma recuperação do primado da fé (diz-nos o autor), da expectativa das coisas últimas e de uma arte da comunicação autêntica, continua a ser indispensável a leitura e o conhecimento do evangelho entre todos os que fazem parte da comunidade cristã. De facto, se é verdade que o cristianismo é a religião do Livro, é igualmente verdadeiro que só o evangelho permite o conhecimento de Jesus Cristo, centro e coração do cristianismo”. Daí que a militância de Bianchi em torno da palavra bíblica seja um ponto fundamental a ter em consideração. “Um cristianismo em que o evangelho não inspira a vida, a esperança e a linguagem dos crentes (diz-nos ainda), como evitará tornar-se ritual, devocional, como deixará de se reduzir a facto cultural ou social, se é que não mesmo a fenómeno folclórico ou supersticioso?”. Assim, o evangelho ganha uma especial importância, e o Concílio Vaticano II teve a virtude, crucial para Bianchi, de o colocar de novo na mão dos católicos – pondo o testemunho de Jesus Cristo no centro da vida espiritual quotidiana. Por outro lado, contra a indiferença perante os outros, a escuta de humanidade torna-se fundamental. Em suma, a atenção ao Evangelho é a atenção a Cristo que encontramos a cada passo – tive fome deste-me de comer, tive sede deste-me de beber, nu vestiste-me. “Num período em que tudo está posto em causa – a concepção da relação com o seu corpo, com o outro sexo, com o sofrimento, com o tempo, com a natureza… - é necessário elaborar respostas de sabedoria que digam quem é o ser humano e como se pode humanizar mediante uma qualidade de vida pessoal e de convivência”. A fé precisa, afinal, da razão para não cair no paganismo, mas exige também a partilha de responsabilidades na cidade das pessoas, a polis. Cristãos e não cristãos têm, deste modo, de se perguntar em comum – quem é a pessoa humana? A luta pela humanização contra a barbárie tem de mobilizar todos. E Enzo Bianchi tem-se empenhado activamente nessa missão de abertura e de partilha – para além das fronteiras dos católicos e dos cristãos. A laicidade tem de ser entendida de forma saudável. O Estado deve ser laico, a sociedade é plural e o fenómeno religioso tem de ser aceite pelos outros no espaço público. Daí que os poderes públicos devam defender activamente a liberdade de consciência para todos, devam empenhar-se na coexistência pacífica entre todos, opondo-se a toda a violência que se acoberta das convicções religiosas.

PÓLO PROFÉTICO, PÓLO POLÍTICO
E se há sempre um pólo político e um pólo profético, como no-lo ensinaram Péguy, Maritain e Mounier - importa perceber a força do espírito, sem confusão de planos: “a Igreja e as figuras eclesiais podem dizer uma palavra só a nível profético, pré-económico, pré-político, pré-jurídico, mas não devem sugerir soluções técnicas, porque isso incumbe aos homens políticos”. Daí que Bianchi defenda um cristianismo que seja verdadeiramente civil. E é nesse contexto que aponta para um fórum político dos cristãos. Longe da ideia do “partido dos católicos” do que se trata, sim, é de assumir a diferença e de funcionar como fermento na massa. Não há política cristã, mas cristãos na vida política. “Cada cristão é remetido para a sua responsabilidade de cidadão e para a sua eventual inserção política, a fim de actuar segundo a inspiração do evangelho: as maneiras e as soluções técnicas para traduzir estas inspirações residem no âmbito da política, da economia, do direito e, enquanto tais, recaem sobre a responsabilidade do indivíduo crente-cidadão”. Passa então do profético ao político, assume responsabilidades, corre riscos, compromete-se. A diferença cristã exige o compromisso, percebendo-se, porém, que “nenhum partido pode dizer que é o único depositário da mensagem cristã numa sociedade pluralista animada por projectos políticos em concorrência, os quais só poderão extrair benefícios de um confronto sério com a ‘diferença cristã’ tornada eloquente por católicos responsáveis e empenhados”. Este tema é, no entanto, muito mais difícil do que pode parecer à primeira vista, uma vez que o passar do pólo profético para o pólo político obriga a sujar as mãos e a correr o risco da incompreensão, uma vez que então estamos diante do confronto entre a promessa e a capacidade de a cumprir, acrescendo que o cristianismo não é, por definição teocrático.

CHAMADOS AO COMPROMISSO
Os cristãos são chamados à responsabilidade na polis, mas nunca poderão reivindicar a virtude apenas por serem cristãos. Daí as cautelas postas na Constituição Pastoral “Gaudium et Spes” – os cristãos não podem eximir-se a responsabilidades, mas não poderão justificar a verdade política com base na verdade religiosa. Cristo não foi chefe político e não o quis ser, mas não afasta os seus discípulos do compromisso com a sociedade e os outros. Lembremo-nos de Giorgio La Pira, foi síndaco de Florença e deputado do Partido Democrata Cristã italiano, mas nunca renunciou a combater a acomodação, apelando constantemente à responsabilidade ética, profética e pré-política. Bianchi fala, por isso, de um “justo uso político da fé”. Há um dever da Igreja se fazer ouvir. Para tanto tem de encontrar modos e tempos para uma intervenção autorizada. Trata-se, na proposta de Enzo Bianchi, de usar uma linguagem política “não banal nem arrogante, mas passível de ser escutada também por quem não partilha a fé que a gera”. “O espírito do homem é demasiado importante para ser deixado nas mãos de fanáticos e de intolerantes ou de espiritualidades que estão na moda. Sem dúvida, cada religião alimenta-se de espiritualidade, mas há lugar também a uma espiritualidade sem religião, sem Deus”.  Daí que “o cristianismo precise de testemunhos, não de depoimentos”, o exemplo é fundamental, havendo que evitar o mero efeito imediato das propostas políticas, que impressionam, mas não resolvem. Não pode haver ilusões sobre a criação do mundo perfeito, mas tem de haver o compromisso de procurar séria e determinadamente a justiça e a verdade.

Guilherme d'Oliveira Martins