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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“Viagem a Portugal” de José Saramago (1ª edição, 1981) integra-se no género da literatura de viagens, mas é mais do que isso. Trata-se de tentar ver Portugal de um modo talvez mais atento. Usar olhos de ver. O autor quis deambular pelos lugares, mas também pelas invocações, caminhando ao encontro do inesperado. Há viagens e há crónicas, e há a tentativa de compreender a natureza e as pessoas, em diálogo constante. «É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já». E o país assim torna-se apaixonante. Já Garrett no-lo dissera e demonstrara. Neste momento, em que o escritor nos deixa fisicamente é bom voltar aos seus passos peregrinadores, talvez para que possamos, nós mesmos, descobrir melhor “aqui onde o mar acaba e a terra principia”, ou se quiserem, como se diz no fecho de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “aqui onde o mar se acabou e a terra espera”…

A VIDA DOS LIVROS
de 5 a 11 de Julho de 2010

“Viagem a Portugal” de José Saramago (1ª edição, 1981) integra-se no género da literatura de viagens, mas é mais do que isso. Trata-se de tentar ver Portugal de um modo talvez mais atento. Usar olhos de ver. O autor quis deambular pelos lugares, mas também pelas invocações, caminhando ao encontro do inesperado. Há viagens e há crónicas, e há a tentativa de compreender a natureza e as pessoas, em diálogo constante. «É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já». E o país assim torna-se apaixonante. Já Garrett no-lo dissera e demonstrara. Neste momento, em que o escritor nos deixa fisicamente é bom voltar aos seus passos peregrinadores, talvez para que possamos, nós mesmos, descobrir melhor “aqui onde o mar acaba e a terra principia”, ou se quiserem, como se diz no fecho de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, “aqui onde o mar se acabou e a terra espera”…

A OPINIÃO DE HAROLD BLOOM
Escrevo hoje algumas notas soltas. Fui buscá-las ao caderno que nunca me deixa e onde anoto o que me pode interessar. Num momento em que são naturalíssimos os lugares comuns, a propósito de quem nos deixa, prefiro não desperdiçar palavras, deixando-as talvez para outro tempo, em que a serenidade permitirá sermos mais justos. Mas por estes dias, recordei várias vezes o insuspeito Harold Bloom a dizer, em 2003, que José Saramago era «the most gifted novelist alive in the world today», e não esqueço nas minhas andanças pelo mundo, ao encontro dos cultores da língua portuguesa, a presença fortíssima do autor do «Memorial do Convento» ou de «O Ano da Morte de Ricardo Reis» como embaixador do nosso heterogéneo e poliédrico «humanismo universalista», na senda de Vieira. Oiço os ecos de «D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D. Maria Ana Josefa»… O rei fez promessa de levantar um convento em Mafra e havia a gente que construiu o convento e um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes – e sobre tudo isto ainda existia o padre que queria voar e morreu doido. Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, já não tinha serventia para o exército depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso. E Blimunda, que tinha o poder de ver dentro dos corpos, além de ajudar ao feito do Padre Bartolomeu Lourenço, receberia, quando ele morreu, a vontade de Baltasar, que não subiu para as estrelas…

VIAGEM A PORTUGAL
Volta não volta, regresso à “Viagem a Portugal”, que Pilar del Rio considera, e bem, um livro injustamente esquecido. Só se entende Portugal e os portugueses numa viagem intensa e interminável, de partidas e chegadas, de sonhos e regressos. Somos, afinal, ilha, porto de chegada e cais de partida, praia de sentimentos contraditórios. Como em “Lisboa, Diário de Bordo” de José Cardoso Pires, a “Viagem”, que é dedicada a Garrett, “mestre de viajantes”, é um breviário a seguir nos tempos actuais (sem esquecer o melhor dos “Guias” de Raul Proença). «A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: ‘Não há mais que ver’, sabia que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles». E na epígrafe de «A Viagem do Elefante» fica recordado a letras capitulares: «Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam». Solimão e o seu cornaca são, assim, ideais cicerones dessa viagem mágica…

PERSONAGENS DE SARAMAGO
Mil personagens: o povo laborioso, os nobres e os burgueses, um estranho poeta confrontado com a morte do seu real autor e com os temores de uma sociedade à defesa e à beira de se fechar inteiramente, temas muito diversos desde a cegueira à morte, a multiplicação de muitas inquietações, o tema omnipresente da emancipação e do acto de levantar do chão. Mas o próprio Saramago disse: «Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas, no Ensaio sobre a Cegueira. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje enquanto escritor. Se no futuro puder ser recordado como ‘aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher’, ficarei contente. Se alguém procurar naquilo que eu tenho escrito uma certa mensagem, atrevo-me pela primeira vez a dizer que essa mensagem está aí. A compaixão dessa mulher que tenta salvar o grupo em que está o seu marido é equivalente à compaixão daquele cão que se aproxima de um ser humano em desespero e que, não podendo fazer mais nada, lhe bebe as lágrimas» (Público, 15.6.08). Já para Eduardo Lourenço, o escritor «deportou o essencial da sua utopia para paragens onde esse autêntico apocalipse político fosse substituído pelos sonhos de uma humanidade que pudesse ter perdido uma guerra mas nunca a ilusão que a faz viver». E Pedro Mexia falou de uma certa superação da amargura no já citado «A Viagem do Elefante» (Público, 19.6.10).

UMA NOTA A PROPÓSITO… 
Ao ler por estes dias a publicação dos discursos proferidos por João Bénard da Costa (JBC) nos Dias de Portugal, lembrei-me ainda de Saramago e da necessidade de reconhecer a escrita e a cultura como sinais emancipadores. Daí a importância da invocação que aí se faz da memória e do tempo. Os textos tratam da condição de ser português e da relação com Portugal. António Barreto fala-nos de um «cicerone de almas», de alguém que «deu a ver» – «ideias e formas, coisas e almas. Mas também caminhos, ora sensatos, ora irreverentes e inconformistas». Ou não nos dissera ele: «é tempo – sempre a questão do tempo – de darmos ao tempo o espaço sem o qual não temos espaço»? «É tempo de reencontrarmos a memória, sem a qual nenhuma visão será possível. É tempo de fazermos coincidir o nosso projecto com a nossa cultura. É tempo. Sempre a questão do tempo» (JBC, 1999). Mas retive a atenção na lembrança de Jorge de Sena cuja voz inconformista e lúcida deve voltar a ser ouvida por estes dias. Em «Camões dirige-se aos seus contemporâneos» não deixa margem para dúvidas sobre os males do esquecimento e da indiferença. «Podereis roubar-me: / as ideias, as palavras, as imagens, / e também as metáforas, os temas, os motivos, /  os símbolos, e a primazia / nas dores sofridas de uma língua nova, / no entendimento de outros, na coragem / de combater, julgar, de penetrar / em recessos de amor para que sois castrados. / E podereis depois não me citar, / suprimir-me, ignorar-me, aclamar até / outros ladrões mais felizes. / Não importa nada: que o castigo / será terrível. Não só quando / vossos netos não souberem já quem sois / terão de me saber melhor ainda / do que fingis que não sabeis, / como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais, / reverterá para o meu nome. E mesmo será meu, / tido por meu, contado como meu, / até mesmo aquele pouco e miserável /  que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito. / Nada tereis, mas nada: nem os ossos, /  Que um vosso esqueleto há-de ser buscado, / Para passar por meu. E para os outros ladrões, / Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo». Ao lermos hoje a invectiva de Sena, podemos entender a nossa responsabilidade. Passou o tempo das visões uniformes. Nunca poderemos compreender-nos apenas por um ponto de vista, mas sim pela força das diferenças e por tudo o que se completa. «É possível em Portugal salvaguardar a memória, sem sacrificar ao imobilismo, reencontrar as raízes sem as transformar em fantasmas» (JBC, 2005). Mas José Saramago põe-nos de sobreaviso, com Ricardo Reis: “todos os caminhos portugueses vão dar a Camões, de cada vez mudado consoante os olhos que o vêem”. Afinal, ninguém acaba o que verdadeiramente começa…

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 05 de julho de 2010