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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

"Os Dias e os Anos – Diário, 1970-1993" (D. Quixote, 2010) de Marcello Duarte Mathias é um livro que nos traz a recordação de um período de transição, entre 1970 e 1993, em que Portugal viveu a preparação de uma súbita mudança de século e tudo o que lhe seguiu, ligando o 25 de Abril e a queda do muro de Berlim. Dir-se-á hoje que tudo era, mais ou menos, previsível. No entanto, é fundamental recordar como era difícil antever a circunstância exacta em que tudo iria mudar e como. O tempo tem sempre essa qualidade única que permite tornar natural aquilo que visto por antecipação é o mais estanho que se possa imaginar…

A VIDA DOS LIVROS
de 21 a 27 de Junho de 2010

"Os Dias e os Anos – Diário, 1970-1993" (D. Quixote, 2010) de Marcello Duarte Mathias é um livro que nos traz a recordação de um período de transição, entre 1970 e 1993, em que Portugal viveu a preparação de uma súbita mudança de século e tudo o que lhe seguiu, ligando o 25 de Abril e a queda do muro de Berlim. Dir-se-á hoje que tudo era, mais ou menos, previsível. No entanto, é fundamental recordar como era difícil antever a circunstância exacta em que tudo iria mudar e como. O tempo tem sempre essa qualidade única que permite tornar natural aquilo que visto por antecipação é o mais estanho que se possa imaginar…

MEMÓRIAS DE VIDA VIVIDA
As memórias não servem para dar chaves para a História, mas para nos revelarem as circunstâncias, os ambientes e as tendências. Assim é com Marcello Duarte Mathias (MDM), um autor persistente e arguto, que usa o talento para nos fazer ver o mundo a partir do seu exigente e requintado juízo. Os diários de Marcello começam por ter um magnífico título comum, que o escritor foi buscar ao conto «A Terceira Margem do Rio» de João Guimarães Rosa, «No Devagar Depressa dos Tempos». Depois do primeiro volume correspondente aos anos 1962-1969 e dos relativos à Índia (1993-1997) e a Paris (2001-2003) temos agora o segundo volume da ordem cronológica intitulado «Os Dias e os Anos – Diário, 1970-1993» (D. Quixote, 2010). Uma noite destas, quando o comecei a ler, tive dificuldade em parar, como aliás costuma acontecer com as melhores obras do género, que fazem jus ao ditado popular de que as palavras são como as cerejas. Francisco Seixas da Costa já me tinha avisado disso no seu blogue sacrossanto. E neste tempo de cerejas, rapidamente percebi que estas memórias são um curioso retrato da transição da sociedade portuguesa, mesmo para quem seguiu, de Brasília, placidamente e à distância os acontecimento de 1974. Que salto enorme se nota desde Augusto de Castro, vindo da pré-história (mesmo para os que lemos «O Fumo do Meu Cigarro»), rindo-se daqueles documentos amontoados na cave do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que ninguém lê ou lerá, até à imersão total na construção europeia, mesmo para um diplomata que procura sempre matizar as análises do tempo e dos acontecimentos com uma racionalidade crítica tantas vezes desarmante. E essa atitude é tão evidente que MDM chega a enganar os seus críticos sobre a sua atitude relativamente à cultura, à criação e à vida. Raymond Aron, que tantas vezes encontramos, não é tanto o maître-à-penser incontestável, mas uma das referências, ao lado de outras bem mais inesperadas e inconformistas. Como não lembrar «Mas é no rosto e no porte altivo do rosto» (1983) ou a admiração recorrente e a procura incessante de novos motivos de interesse em relação a Albert Camus?

PAÍS DIFÍCIL DE ENTENDER
O que se nota neste longo e impressivo período? Um país “tão difícil de entender e tão grande no seu mistério”. Um Portugal que, em 24 horas, “mudou de século”, no dia 25 de Abril de 1974. Terra onde, ainda em 1983, a Estrada da Beira era «qualquer coisa entre a odisseia de Serpa Pinto e o rali Paris Dakar»… «Nós passamos séculos a fugir de nós mesmos (diz Eduardo Lourenço, expressamente citado), enquanto apenas portugueses. Fuga simultaneamente estelar e criadora que não permitiu nunca que nos encontrássemos connosco mesmos. Fomos sempre outros»… Afinal, para Keyserling, o português é qualquer coisa de eternamente inacabado. E o memorialista afirma ainda que «o português é dos raros povos que ainda não perdeu a infância». E a propósito de António José Saraiva e do grande enigma deixado pela geração de 1870 (Antero, Eça, Oliveira Martins), que nos leva a interrogarmo-nos sobre o porquê das angústias desses homens que passaram por derrotistas, quando sempre combateram o fatalismo e os «sebastianismos», MDM diz certeira e simplesmente o que costuma ser muito difícil de explicar. Trata-se de uma verdade bem mais comezinha do que pode julgar-se à primeira vista: «À partida o que a todos os animava era o propósito sério de regenerar a vida portuguesa e de a libertar da tutela inglesa (‘A revolução só pode ser uma revolução moral’ dirá Antero). Apontar os podres, estigmatizar a intriga e o marasmo em que o país se comprazia, por entre a sífilis de o analfabetismo, a tuberculose e a miséria. Numa palavra, acertar o relógio – nem que fosse à custa de uma valentes bengaladas. Era uma missão de homens de bem antes de ser um projecto revolucionário, uma mensagem de filosofia política e não um programa de governo, uma estética de acção bem mais que uma doutrina». Não precisaria de ser dito mais… Oliveira Martins, longamente citado, lido, relido e adaptado (como no filme “Oxalá” de António Pedro Vasconcelos), faz o nosso autor afirmar lapidarmente: «Quando uma nação se condena pela boca de seus próprios filhos, é difícil, senão impossível, descortinar o futuro de quem perdeu por tal forma a consciência da dignidade colectiva». Quantas vezes esquecemos isto mesmo?

RECEPTIVO A TUDO, SEM NADA CONCEDER
Ao lermos vertiginosamente as recordações, os comentários, as apreciações, compreendemos que MDM afirme: «as minhas emoções contêm o que de mais pessoal existe na minha pessoa». É um céptico contido e sereno, que diz: «Torna-te receptivo a tudo sem nada concederes. E que a prática do cepticismo não seja o teu conformismo». Apesar da moderação, o autor não perde a oportunidade de romper os limites do real, para melhor o entender: «Cruzei-me esta manhã na Baixa do Sapateiro (em Salvador) com um velho amigo a quem dei um grande e comovido abraço – o Quincas Berro d’Água… - mas ele ia tão borracho que nem sequer me reconheceu». Encontramos muitas referências pessoais, eis algumas: Adelino Amaro da Costa («a política é o seu oxigénio e o seu horizonte», corre contra o tempo), Ernâni Rodrigues Lopes («o contacto é imediato e o homem é descerimonioso», com vivacidade e capacidade de ver o conjunto das coisas), Gilberto Freyre («é um alfinete, fino de palavras e de expressão»), António Alçada Baptista (apesar das reservas aos romances, é preciso quanto à «Peregrinação»: «ficará como um dos melhores testemunhos da geração dos anos Quarenta e Cinquenta» – «sem a acrimónia dos chamados intelectuais revirallhistas, antes com bonomia e ternura» ou Eduardo Lourenço («fremente de inteligência, recorda coisas do seu tempo de Coimbra. Há nele uma boa disposição e uma graça natural cuja espontaneidade não transparece de todo em todo naquilo que escreve, e é pena»).

A SOMBRA DO PAI EMBAIXADOR
A cada passo nota-se a sombra do Pai, Embaixador, como pessoa, como figura tutelar da família, mas também como um homem de vários talentos, e não só diplomáticos, como o de misteriosíssimo Pablo La Noche, de «Lusco-Fusco»… Em Benfeita, a 15 de Agosto de 1983 em dia de aniversário : «É aqui, e a partir daqui, que nos damos conta do verdadeiro prodígio de vontade, inteligência e tacto que foi a vida do Pai. Gosto que o Nuno e o Marcelito participem nestas coisas, pois parte de mim também está aqui». A emoção do tantas vezes frio intérprete dos acontecimentos vem à tona, em especial no tempo da queda do muro de Berlim, em que o entusiasmo não se contém, a partir do Porto de Abrigo da Abuxarda, em vésperas de Natal (1989): «A liberdade a nascer e a triunfar em toda a Europa, a verdadeira Europa a ressurgir, enfim!».

Guilherme d'Oliveira Martins