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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Santo Agostinho de Hipona é uma referência inesgotável pela riqueza da sua experiência e do seu testemunho. O percurso teológico do actual Papa está marcado por esse exemplo, e a concha que se encontra nas suas armas pastorais invoca expressamente o autor das “Confissões”. No excelente livro recentemente publicado pela editora Pedra Angular, da autoria do Padre Henrique Noronha Galvão, intitulado “Bento XVI – Um Pensamento para o nosso tempo” (2009), encontramos, aliás, a recordação da origem da imagem da concha como símbolo da “humilde persistência”.

A VIDA DOS LIVROS
de 22 a 28 de Fevereiro de 2010

Santo Agostinho de Hipona é uma referência inesgotável pela riqueza da sua experiência e do seu testemunho. O percurso teológico do actual Papa está marcado por esse exemplo, e a concha que se encontra nas suas armas pastorais invoca expressamente o autor das “Confissões”. No excelente livro recentemente publicado pela editora Pedra Angular, da autoria do Padre Henrique Noronha Galvão, intitulado “Bento XVI – Um Pensamento para o nosso tempo” (2009), encontramos, aliás, a recordação da origem da imagem da concha como símbolo da “humilde persistência”.

 
Santo Agostinho de Hipona

HUMILDE PERSISTÊNCIA
“A história é conhecida. Passeando à beira-mar, ao mesmo tempo que meditava no mistério trinitário de Deus, Agostinho divisa uma criança que, com uma concha, vai buscar água ao mar e a deita numa pequena cova na areia. Agostinho pergunta-lhe o que está a fazer, ao que a criança responde que quer meter todo o mar naquela cova. O Bispo explica-lhe que isso é totalmente impossível. Ao que a criança responde ser precisamente isso que Agostinho tenta fazer, quando quer abarcar com a sua limitada inteligência o incomensurável mistério do Deus trinitário”. O livro sobre o pensamento do Papa é um documento importante, pela clareza expositiva, pela riqueza formativa, num campo infelizmente tão descurado por muitos leigos católicos, com é o da teologia, e pela abertura de espírito que incentiva. E se é certo que a obra nos introduz na compreensão de um pensamento, a verdade é que o faz também através de uma excelente introdução geral ao moderno pensamento teológico. Trata, assim, sucessivamente da renovação teológica contemporânea, do pensamento de Joseph Ratzinger e do seu percurso teológico (desde o Bispo de Hipona à eclesiologia, bem como a teologia da História em São Boaventura e no tempo presente) e da actualidade de Santo Agostinho (na tocante última lição na Faculdade de Teologia da autoria do Prof. Noronha Galvão). A cada passo encontramos a fé e a razão em diálogo intenso, numa lógica aberta e positiva, como modo de afirmação da universalidade da dignidade humana – e, a partir daí, igualmente, como expressão dos modernos sinais dos tempos.

REVISITAR O CONCÍLIO
Estamos, aliás, perante o desafio de revisitar o acontecimento fundamental do catolicismo do século XX que foi o Concílio Ecuménico Vaticano II, a fim de entendermos a exigência de uma renovação mobilizadora da Igreja moderna. Grandes teólogos merecem ser recordados, lidos e seguidos. Henri de Lubac SJ, Yves Congar OP, Marie-Dominique Chenu OP, Karl Rahner SJ, Hans Urs von Balthasar, Johann Baptist Metz têm de voltar à ordem do dia e as suas luminosas reflexões merecem a nossa especial atenção. E os dois pólos entre os quais se processa grande parte da discussão teológica actual devem ser compreendidos e aprofundados: enquanto Karl Rahner contempla o “mistério da revelação e comunicação de Deus ao homem numa perspectiva transcendental, em que as realidades da história da salvação são vistas como concretizações categoriais de um desígnio divino que é o seu horizonte justificativo”; Hans Urs von Balthasar “sublinha o peso da história na sua singularidade como lugar em que se dá a epifania da glória de Deus, a qual acontece na figura concreta (…) em que se torna presente ao mundo a sua revelação”. Ao longo da obra, encontramos o pensamento de Bento XVI inserido no pensamento contemporâneo, ressaltando que fé e razão permanentemente se completam, num desafio que procura aproximar a antiga vocação europeia do “Aufklärung” das raízes cristãs – devendo a história humana tornar-se “resposta necessária e livre à livre necessidade e à necessária liberdade de ser do homem”. E deste modo, como afirma o discípulo português de Ratzinger, “a fé, para além do que tem de específico, possui ainda a capacidade de abrir o espírito humano àquela visão da verdade a que a nossa razão, por si mesma, pode ter acesso”.

UM HUMANISMO UNIVERSALISTA
Para nós portugueses, é especialmente interessante ver, a propósito do pensamento de São Boaventura, a recordação do franciscanismo universalista, que tão grande presença tem na nossa cultura, na linha do monge calabrês Joaquim de Fiore e de S. Francisco de Assis, temperado pelo poderoso contributo teológico de Santo António de Lisboa, formado na escola dos Agostinhos de Santa Cruz de Coimbra, o qual, por sua vez, se repercutirá no pensamento seiscentista do Padre António Vieira, e na concepção de “Quinto Império”. Afinal, o agostinismo franciscano faz parte do código genético da nossa cultura e do humanismo universalista de que falava Jaime Cortesão, e que levámos mundo afora. E aqui se conciliam a visão da história circular da antiguidade e a figura linear bíblico-cristã em que tudo se ordena para a plenitude final – propondo Ratzinger a figura da espiral, num permanente movimento ascendente, no qual “tudo o que sobe converge”. Não sendo possível em poucas linhas abarcar a riqueza da obra, deixo apenas, a terminar, duas ou três notas, a começar na pequena história que o Papa costumava contar no seu magistério teológico sobre “Joãozinho à procura de felicidade” (Hans im Glück): “Tendo-se visto na posse de uma pepita de ouro, Hans acha que é demasiado incómodo transportá-la, decidindo trocá-la primeiro por um cavalo, e sucedendo-se, depois, a troca deste por uma vaca, desta por um ganso, e, finalmente, do ganso por uma pedra de afiar, a qual Hans acaba por lançar à água, sem a noção de, com isso, ter perdido grande coisa. Pelo contrário, pensa ter ganhado assim o inestimável dom de uma total liberdade. A estória deixa à fantasia do leitor imaginar por quanto tempo durou esse estonteamento de Hans e como foi para ele sombrio o momento em que acordou da sua ilusão de uma suposta liberdade”… Afinal, o que vale verdadeiramente não tem preço, e a liberdade não pode deixar de ser exercida nas condições concretas da vida e na ponderação dos valores que estão em causa, a começar pelo respeito pelos outros.

SER, CONHECER E AMAR
“Na tríade agostiniana, o amor é a verdadeira realização do querer. Se Deus é ser, conhecer, querer, ou, dito de outra maneira, essentia, notitia, amor, é no amor, na caridade, na agápe, que o ser revela a sua verdade. Ser, conhecer e amar não podem ser vistos como grandezas isoladas, mas implicando-se mutuamente…”. Na expressão do próprio Joseph Ratzinger “o logos de Deus é agápe”. O Deus da fé e o Deus da filosofia encontram-se assim e separam-se. “Se tomarmos a concepção estóica da theologia naturalis (theologia fysikê, em grego), ou seja a que afirmava a verdade da natureza de Deus, verificamos que ela se inseria numa tríade a que pertenciam igualmente a theologia mythica (theologia mytiké) e a theologia civilis (theologia politiké)”.Ora, segundo nos explica Ratzinger, a teorização dos três tipos de teologia foi feita por Varrão (Marcus Terentius Varro), o mesmo a que Séneca chamou “doctissimus Romanorum”. Para Varrão, Deus é “a alma que governa o mundo através do movimento e da razão”. Assim, verdade e religião, entendimento racional e ordem cultual são diferentes – daí a distinção entre os teólogos da teologia natural, que são filósofos que procuram pelo pensamento a verdade e a realidade, os teólogos da teologia mítica, que são os poetas que cantam aos deuses e os teólogos da teologia civil são os povos, que também adoptam a visão dos poetas. E aqui o “Aufklärung” é fundamental como esclarecimento da razão, susceptível de desmitificar a ficção dos poetas e os costumes da cidade. É a teologia natural que permite que a fé seja temperada pela razão, não se atendo às fábulas e aos costumes. O prólogo do Evangelho de S. João clarifica-o – afirmando que o Logos ou o Verbo incarnou em Jesus Cristo. “Esta convergência entre revelação e razão serve, assim, à apologética de uma fé que, em face da razão, não pretende contrariar o seu conhecimento, mas levá-lo à plenitude, não sem o ter purificado dos erros em que uma razão debilitada pelo pecado pode incorrer e de facto incorre” (no dizer do Padre Noronha Galvão). As realidades física, lógica e ética, em que Santo Agostinho se baseia, revelam que, em Deus, o ser eterno está implicado na verdade, a verdade está implicada na caridade e a caridade está implicada na eternidade (por isso, no êxtase descrito em “Confissões”, se diz “o aeterna veritas et vera caritas et cara aeternitas”.        

Guilherme d'Oliveira Martins

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Edição: 22 de fevereiro de 2010