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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

Regressado do Festival de Asilah (Arzila), este ano dedicado a Portugal, lembro o precioso terceiro volume dos Guias “Portugal e o Mundo – O Futuro do Passado” sobre Marrocos, com texto de José Luís de Matos e de Rui Rasquilho (CNC, 2003), sobre o qual Helena Vaz da Silva disse: “Marrocos, tão perto e tão longe. Apesar de perto do nosso sul, tanto em distância como, em parte, no clima e no território, os portugueses sempre partiram para Marrocos como quem parte para um mundo distante”. Recordando essa relação, a propósito da lusofonia, publico hoje as palavras que proferi em Asilah, no dia 4, em nome do Centro Nacional de Cultura.

 

A VIDA DOS LIVROS
De 10 a 16 de Agosto de 2009

Regressado do Festival de Asilah (Arzila), este ano dedicado a Portugal, lembro o precioso terceiro volume dos Guias “Portugal e o Mundo – O Futuro do Passado” sobre Marrocos, com texto de José Luís de Matos e de Rui Rasquilho (CNC, 2003), sobre o qual Helena Vaz da Silva disse: “Marrocos, tão perto e tão longe. Apesar de perto do nosso sul, tanto em distância como, em parte, no clima e no território, os portugueses sempre partiram para Marrocos como quem parte para um mundo distante”. Recordando essa relação, a propósito da lusofonia, publico hoje as palavras que proferi em Asilah, no dia 4, em nome do Centro Nacional de Cultura.





CULTURA COMO MEMÓRIA E CRIAÇÃO
«Quando falamos de cultura devemos compreendê-la como um lugar de criação, de aprendizagem e de memória. É a nossa relação criadora com a natureza que está em causa. Quando na UNESCO ou no Conselho da Europa se fala hoje de património cultural como herança e como encruzilhada de referências materiais e imateriais, falamos de uma cultura viva. A obra de arte pode ser usada como metáfora, pois é um exemplo de experiência e de futuro – mas é preciso compreender que o fenómeno cultural envolve sempre as ideias de herança ou de tradição e de inovação ou de ruptura. Asilah é um exemplo. E devo homenagear o Presidente Mohamed Benaissa pela determinação e pela iniciativa no sentido de tornar esta cidade uma referência cultural. E com que emoção visitei nestes dias os ateliês de criação artística, onde se sentia o pulsar do afecto e da força criadora. Em Asilah há uma vida cultural onde o património não se pode situar nem compreender sem uma ligação actual à contemporaneidade. A história e a actualidade cruzam-se, naturalmente. E chegamos ao tema da identidade. De facto, é fundamental sabermos o que nos define e o que nos distingue. Mas o tema da identidade é sempre controverso. Há sempre o risco de dar demasiado valor ao que é próprio, em detrimento das diferenças respeitantes aos outros. É preciso, por isso, repensar a identidade como distinção e necessidade de unidade. Distinguir para unir».

HUMANIDADE NAÇÃO DE VÁRIAS CULTURAS
«Afinal, temos de entender que a humanidade é uma nação de várias culturas. Por isso o diálogo entre culturas e civilizações deve ser um caminho de descoberta de valores comuns, que se constitua num factor de enriquecimento mútuo e não de harmonização. A nossa relação com a História deve ser uma relação não apenas com o passado mas com a memória, com a compreensão e com a esperança. O importante é obtermos resultados do diálogo presente, não visto como um dialogo formal, mas como um meio que permita uma relação de influências e de enriquecimento. A nossa procura é a da dignidade da pessoa humana, da liberdade, da igualdade e da entre-ajuda. Daí a importância do conceito de identidade aberta, que exige a compreensão de uma memória sábia. Nesse sentido, quando falamos de lusofonia e de África, devemos deixar claras algumas ideias muito simples, mas fundamentais. As culturas da língua portuguesa são plurais e enriquecem-se mutuamente. Não há uma lusofonia, mas lusofonias. Germano Almeida, Arménio Vieira, Pepetela, Mia Couto, Eduardo Lourenço ou António Cândido indicam-nos caminhos diversos de um sentir comum. É preciso compreender que a cultura, a ciência, a experiência e a aprendizagem são factores essenciais do desenvolvimento moderno. Portugal está na encruzilhada do Atlântico e do Mediterrâneo – cais de partida e de chegada, na expressão de Eduardo Lourenço. A História deve, assim, aproximar-nos. E o respeito e a tolerância fazem-se com o desenvolvimento da capacidade de visão do futuro».

UMA IDEIA NOVA DE DESCOBERTA
«Há uma ideia nova de descoberta que temos de prosseguir e desenvolver, como respeito e partilha, como hospitalidade e dom. A cultura é um factor de riqueza, de mobilidade, de conhecimento, de informação. Não é possível falar de desenvolvimento humano, no sentido moderno, sem uma forte valorização do fenómeno cultural. E é a cultura de paz, de que nos falou Federico Mayor na UNESCO que está em causa. Deste modo, a cultura, a partilha de responsabilidades e a justiça são os desafios presentes e necessários da política, da economia e da sociedade. Num mundo que vive a globalização como fenómeno natural e inexorável, é fundamental dizer que esse movimento de mundialização não pode tornar-se sinónimo de uniformização. A sociedade da informação permite-nos saber mais, mas o que falta é um saber e uma informação ao serviço da justiça, da dignidade e do respeito. A indiferença mata a capacidade de compreender. O fanatismo e a intolerância significam a própria incapacidade de compreender. A tentação harmonizadora e uma “cultura de massas” tendem a confundir cosmopolitismo e indiferença. E no entanto precisamos de distinguir a ideia fecunda de abertura da tentação de vazio que a indiferença induz e favorece. Assim, o diálogo entre culturas deve basear-se na compreensão do lugar do outro. Sem nos colocarmos não lugar do outro não poderemos nem compreender nem respeitar. O diálogo não é, deste modo, uma adaptação, é uma permanente descoberta do outro e dos outros, já que o outro é a outra metade de nós mesmos, e nós somos o outro dos outros».

EM NOME DA DIGNIDADE CULTURAL
«A dignidade cultural obriga ao reconhecimento. Reconhecer é descobrir, revisitar, nascer com (con-naître, segundo a expressão clássica de Paul Claudel), respeitar, assumir as diferenças, fazer com que a crítica seja um elemento de emancipação. Sem reconhecimento não há a definição de um lugar para o outro. A diversidade cultural não pode referir-se a lugares que ninguém sinta como verdadeiramente seus. E o certo é que muitas vezes a indiferenciação conduz à criação de “lugares de ninguém” (“no man’s land”) que procuram apagar artificialmente as identidades e as diferenças, com resultados negativos a prazo, uma vez que as identidades e as convicções silenciadas dão lugar a manifestações excessivas e até violentas, geradas na subalternização. O mesmo se diga da memória, uma vez que, como tem dito Tzvetan Todorov, o excesso e a falta dela conduzem ou à violência ou à incompreensão. Daí a referência à memória sábia como natural apanágio da identidade aberta. A memória sábia é equilibrada, recusa a amnésia, cultiva a lembrança, mas recusa o ódio e a vingança. A memória é o tecido vivo de que se forma uma sociedade livre e responsável, onde a capacidade criadora se torna o elemento distintivo da qualidade, da maturidade e da sabedoria. Língua de várias culturas, cultura feita de diferenças e complementaridades, o português assume-se como lugar de procura da dignidade universal da pessoa humana. Daí a importância da procura e da descoberta do outro e do desenvolvimento de uma cultura humanista universalista, encarada como lugar aberto de respeito e de dignidade. Património, herança e memória – pedras mortas dos monumentos e das referências históricas, pedras vivas das tradições, dos costumes, do património imaterial e criação contemporânea – eis o novo entendimento sobre o património cultural, que bem sentimos no “espírito de Asilah” e na força do diálogo da lusofonia. “Os portugueses sempre partiram para Marrocos como quem parte para um mundo distante” Mas agora, numa manifestação de afecto multissecular, sentimo-nos bem em casa».

NOTA. – A título de curiosidade cito Duarte Pacheco Pereira: “E no recife de Arzila se não deve entrar sem piloto de terra, ou pelos sinais que daquela entrada são postos, dois mastros em terra que estão dentro do canal por onde os navios devem entrar (…) E dentro do arrecife podem pousar navios pequenos até trinta e cinco tonéis mas amarrem-se bem do vento noroeste que é ali travessão e mete dentro grande ressaca que lançam os navios a perder”. O recife já lá não está. Mas é o ambiente antigo que se sente na cidade muralhada, dominada pela torre de menagem (recém-reconstruída), onde a lenda diz que pernoitou D. Sebastião na noite funesta de 3 de Agosto de 1578.


Guilherme d'Oliveira Martins