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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

“Portugal – Percursos de Interculturalidade” (2009) é uma obra coordenada por Mário Ferreira Lages e Artur Teodoro de Matos e corresponde a um projecto levado a cabo pelo CEPCEP (Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa) da Universidade Católica Portuguesa, com o apoio do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), com o objectivo de apresentar aos estudiosos e interessados nos complexos temas ligados ao diálogo entre culturas um manancial de investigação, reflexão e informação que nos conduza pelas veredas inesgotáveis das identidades nacionais, das fronteiras entre povos e culturas e das interacções entre comunidades diferentes. Estamos, assim, perante quatro substanciosos volumes que nos permitem, em vários registos, colher os elementos indispensáveis para nos conhecermos melhor como cultura e povo e descobrir as pistas de enriquecimento mútuo em razão dos intercâmbios gerados no seio do “melting pot” que constituímos: Raízes e Estruturas; Contextos e Dinâmicas; Matrizes e Configurações e Desafios à Identidade.

A VIDA DOS LIVROS
de 1 a 7 de Junho de 2009

“Portugal – Percursos de Interculturalidade” (2009) é uma obra coordenada por Mário Ferreira Lages e Artur Teodoro de Matos e corresponde a um projecto levado a cabo pelo CEPCEP (Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa) da Universidade Católica Portuguesa, com o apoio do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI), com o objectivo de apresentar aos estudiosos e interessados nos complexos temas ligados ao diálogo entre culturas um manancial de investigação, reflexão e informação que nos conduza pelas veredas inesgotáveis das identidades nacionais, das fronteiras entre povos e culturas e das interacções entre comunidades diferentes. Estamos, assim, perante quatro substanciosos volumes que nos permitem, em vários registos, colher os elementos indispensáveis para nos conhecermos melhor como cultura e povo e descobrir as pistas de enriquecimento mútuo em razão dos intercâmbios gerados no seio do “melting pot” que constituímos: Raízes e Estruturas; Contextos e Dinâmicas; Matrizes e Configurações e Desafios à Identidade.

CULTURA, FENÓMENO DE DIFERENÇAS
Do que se trata, ao longo da obra, como afirmam os seus organizadores, é de olhar a cultura, em geral, e a cultura portuguesa, em particular, não só no que toca ao que é específico da cultura erudita, “mas sobretudo para outras dimensões da cultura, algumas delas subliminares, que só a longa análise permite identificar. É delas que esta obra pretende descobrir as raízes, as estruturas e as configurações, antigas e modernas, por estarem na base da nossa forma particular de ser, de sentir e de estar”. De facto, multiculturalidade e interculturalidade constituem hoje fenómenos que exigem uma especial compreensão das relações sociais e comunitárias. Como ainda os organizadores nos dizem: “para melhor compreendermos as dificuldades” (dos processos interculturais) “podemos referir três tipos de situações com resistências específicas à integração intercultural: o primeiro verifica-se quando a cultura dominante se sente ameaçada pelas culturas minoritárias ou adventícias; o segundo, quando estas se entrincheiram nos seus valores e instituições de forma a impedir a abertura à cultura dominante; o terceiro, quando umas e outras desistem de reivindicar o que lhes é próprio e acolhem imediata e indiscriminadamente o que é diferente. Qualquer destas situações é contrária ao desenvolvimento de correcto processo intercultural”. Anthony Giddens fala, por isso, de três categorias correspondentes à síntese possível entre culturas locais e culturas imigrantes: assimilação, ‘melting pot’ e pluralismo. As duas primeiras podem conduzir à interculturalidade, a terceira reporta-se ao muilticulturalismo. Com efeito, é necessário compreender-se que há situações e evoluções muito diferentes, consoante as sociedades, os tempos e as relações estabelecidas. Portugal há muito que deixou de ser uma sociedade de monoculturalidade. E temos de compreender que essa tendência exige um entendimento exacto da evolução das circunstâncias. Daí termos de compreender “os factores estruturantes e os seus efeitos no legado físico e patrimonial, enquanto condicionadores das vivências tradicionais”. Essa é a abordagem do primeiro volume, envolvendo a perspectiva histórica, a biologia, a ecologia, as estruturas de propriedade, as formas arquitectónicas, os trajes, a música popular, as aculturações do luso-tropicalismo. Por outro lado, há as dinâmicas e os conflitos, no segundo volume, envolvendo grupos sociais (como por exemplo os ciganos) e as suas culturas específicas, chegam ao regionalismo e ao peso dos meios de comunicação. Mas temos ainda as matrizes e as configurações do terceiro volume – desde as línguas, expressões linguísticas ou da diversidade cultural até à temática religiosa – e os problemas gerados pela identidade, tratados quarto volume, que obrigam a ressituar as escolhas multi e interculturais. “Do percurso cultural que cimentou as nossas características como povo, resta o desfio de, como diria o poeta, ‘nos cumprirmos’ na diversidade cultural que foi produzida ao longo da história”.

ALGUMAS PISTAS
Os textos agora dados à estampa não correspondem a propostas de solução, mas a pistas tendentes a favorecer um conhecimento equilibrado e uma acção reguladora relativamente a fenómenos que surgem nos dias de hoje, sem que haja plena consciência da sua importância e das suas consequências. A interculturalidade, o diálogo entre civilizações e culturas tem de ser visto cada vez mais como um factor activo de paz; as culturas estão todas envolvidas umas nas outras, nenhuma podendo ser vista como pura e singular, afinal, todas são híbridas, heterogéneas, diferenciadores e nada monolíticas. Vivemos, assim, sempre entre o diálogo e o conflito. A importância das negociações ganha cada vez mais peso e prestígio. Impõe-se, ainda, conhecer os limites do multiculturalismo, de modo a superar um perigoso dilema entre “lugar de todos” e “lugar de ninguém”. Num tempo em que a globalização gera, no mundo contemporâneo, dúvidas e perplexidades, é chegado o momento de ligar esses alertas à exigência de favorecer a convivialidade, o conceito de “capital social” ou a ligação entre coesão social e confiança. E como afirma Isabel Capeloa Gil, muitas vezes o multiculturalismo acabou por conduzir a formas renovadas de discriminação social, religiosa e política. Trata-se, por isso, de colocar na ordem do dia os “valores da cidadania”, pondo a tónica na aprendizagem social, nos valores subjacentes a uma solução de cidadania inclusiva, que envolva uma hierarquia de valores, o respeito mútuo como valor ético e a “descoberta do outro”, que, no plano educativo pressupõe: aprender a ser, aprender a conhecer, aprender a fazer e aprender a viver com os outros. Como recorda Roberto Carneiro, que participou na UNESCO na feitura do relatório da comissão Delors sobre a Educação no Século XXI, o outro é a outra metade de mim mesmo (o “outro eu” de que falava Matteo Ricci), a educação intercultural é fundamental. Porque desenvolve o conhecimento cultural, respeita a identidade cultural, garantindo a todos a aquisição de conhecimentos, atitudes e competências que os capacitem a fim de contribuirem para o respeito, a compreensão e a solidariedades entre indivíduos, grupos étnicos, sociais e religiosos e entre nações. Daí a necessidade de reduzir drasticamente as oportunidades da exclusão, pelo aprofundamento da integração e pela partilha da emancipação, pelo desenvolvimento da compreensão do outro e pelo fomento da compreensão internacional.

O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
Na complexa temática e no enunciado dos diversos problemas aqui presentes, cabe uma especial referência ao diálogo entre religiões, que condiciona profundamente a relação entre diferentes culturas. Como tem ensinado Hans Küng, do que se trata é de perceber que não pode haver paz entre as nações, sem paz entre as religiões. Trata-se de entender que o que nos caracteriza parte de um núcleo fundamental das informações úteis e de prioridades comuns. Daí a necessidade do retorno às humanidades. Daí ter de se entender que sem compreensão religiosa não há diálogo intercultural. Evite-se, pois, a tentação da indiferença e do relativismo ético. Promova-se o conhecimento dos fenómenos religiosos e das suas raízes. No fundo, como bem salienta Peter Stilwell, é indispensável uma procura comum de respeito pela dignidade humana. Trata-se de construir uma nova atitude hospitaleira, que permita fazer do respeito mútuo um modo de ter condições de diálogo, de debate e de regulação de conflitos, como se tivéssemos uma casa comum acolhedora que nos aceita tal como somos, evitando a situação de quantos agem indiferentemente, como se os outros fossem sombras inúteis ou espectros perturbadores. Como diz Jonathan Sacks: “a sociedade é o lar que construímos juntos quando contribuímos com os nossos vários dons para o bem comum de todos”.  

Oiça aqui as minhas sugestões na Renascença
                                                                Guilherme d'Oliveira Martins

Edição: 01 de junho de 2009