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"É de Cultura como instrumento para a felicidade, como arma para o civismo, como via para o entendimento dos povos que vos quero falar"
Helena Vaz da Silva LER BIOGRAFIA

A VIDA DOS LIVROS

A epistolografia de Antero de Quental é um marco essencial da cultura portuguesa. A publicação em três volumes das “Cartas”, com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009) é um acontecimento editorial que deve ser saudado. Estamos perante um trabalho minucioso e persistente de pesquisa rigorosíssima, onde se nota o empenhamento de uma vida e um afecto muito especial por parte da organizadora, o que não perturba minimamente a probidade científica posta neste labor, antes lhe dando um extraordinário valor acrescentado, que decorre do facto de ser, com provas sobejamente dadas, a nossa melhor especialista na vida e obra de Antero de Quental.

A VIDA DOS LIVROS
de 27 de Abril a 3 de Maio de 2009

A epistolografia de Antero de Quental é um marco essencial da cultura portuguesa. A publicação em três volumes das “Cartas”, com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins (Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2009) é um acontecimento editorial que deve ser saudado. Estamos perante um trabalho minucioso e persistente de pesquisa rigorosíssima, onde se nota o empenhamento de uma vida e um afecto muito especial por parte da organizadora, o que não perturba minimamente a probidade científica posta neste labor, antes lhe dando um extraordinário valor acrescentado, que decorre do facto de ser, com provas sobejamente dadas, a nossa melhor especialista na vida e obra de Antero de Quental.


 
Antero de Quental, desenho de Vasco de Castro.

UM CAMINHO LONGO
Estamos diante da quarta reunião geral da correspondência de Antero de Quental. Desde a edição da Imprensa da Universidade de Coimbra, de 1915, que continha 160 cartas, até esta que reúne 757, houve um caminho longo que passou pela edição de 1921 (183 cartas), pelas publicações da correspondência para destinatários individuais, como Oliveira Martins, Jaime Batalha Reis e Alberto Sampaio, pela tentativa sem sucesso das cartas temáticas (de que houve as filosóficas, por iniciativa de António Sérgio) e, em 1989, já graças a Ana Maria Almeida Martins, a edição de 704 epístolas (das quais mais de 40 eram inéditas). Agora incluem-se as 29 cartas a Oliveira Martins publicadas por Lúcio Craveiro da Silva e outras 24 entretanto descobertas. É um conjunto que nos apresenta Antero de Quental no seu percurso pessoal, pleno de pujança intelectual, podendo dizer-se que a leitura desta correspondência dá-nos uma visão global da intensidade vital do homem – complemento necessário da obra poética e ensaística. Ao lado da polémica do Bom Senso e do Bom Gosto, a Carta Protesto sobre a Proibição das Conferências do Casino é uma obra referencial da língua portuguesa. E como se enganou Antero quando disse ao Marquês de Ávila e Bolama: “Nem eu nem V. Exª passaremos à História e muito menos as ineptas portarias que V. Exª fez assinar a um rei sonâmbulo”… Mas, para além de tal prosa emblemática, temos conhecimento indirecto do que poderiam ter sido o “Programa para os Trabalhos da Geração Nova”, que não chegou até nós senão esquematicamente, assim como das diversas experiências pessoais de uma vida plena de inquietações e de excepcionais capacidades criadoras. Infelizmente, não dispomos das cartas recebidas por Antero (em resposta às que conhecemos) que, na sua maior parte, foram destruídas pelo próprio, segundo um velho e metódico hábito. Apesar de tudo, conhecemos a célebre resposta de Michelet (entregue ao próprio Antero): “Votre lettre est, certes, la plus belle que j’ai reçu depuis longtemps”. O acervo que conhecemos permite-nos, contudo, seguir, num ritmo narrativo, que se torna apaixonante, a vida de uma personalidade encantadora. Entendemos, afinal, o que Sampaio Bruno disse de Antero: “uma das inteligências mais assombrosamente dotadas que ilustraram o Portugal contemporâneo”. E sentimos intensamente quase tudo, a começar nas relações familiares e de amizade. Percebemos a ligação com o pai e a grande proximidade cúmplice com a mãe, que o leva, quando sofre o choque da sua morte, a pedir ao seu maior amigo, Oliveira Martins: “Diga-me duas palavras das suas, fortes e boas”… E ficamos a compreender muito bem o que o mesmo disse fraternalmente no “In Memoriam” do poeta: “Não era um misantropo: antes, ao contrário, o ser mais candidamente afectivo, e a inteligência mais claramente lúcida (…). Era um rapaz sedutor como nunca encontrei outro. Em volta dele, os amigos ouviam-no fascinados pela sua palavra quente, mas sem ênfase, pela sua felicidade de improvisador, pela sua vis cáustica”.

UM TESTEMUNHO PRECIOSO
A cada passo encontramos o testemunho pessoalíssimo de quem quis viver coerentemente com as suas ideias e princípios. Quando divide o seu tempo em Paris entre o trabalho de tipógrafo e de ouvinte das conferências do Collège de France, confessa a Alberto Sampaio: “Este trabalho é triste, como todo o trabalho moderno, forçado, partido e dividido, desnatural e injusto”. E, sobre a Exposição Universal de 1867, confessa: “Que me importa a Exposição? Assistir às grandes loucuras do século consola, faz bem a alguém, enche a vida? Não.” Por outro lado, bate-lhe o coração heróico do “condottiere”, desejoso de cantar “un bel morir tutta la vita onora” e de seguir o sonho de acompanhar Garibaldi na aventura romântica da unificação italiana. A Itália de Dante, Petrarca ou Francisco de Assis apaixona-o. E, quando lemos a ironia fina e inteligente da defesa da Carta Encíclica de Pio IX, onde se põe a nu as contradições da opinião liberal, não vemos outra coisa senão o elogio da coerência, ainda que estivesse (como estava) nos antípodas das ideias do documento. Mas este verdadeiro romance, escrito na primeira pessoa do singular, revela igualmente o lugar central que Antero teve na sua geração. Não é por acaso que, na fotografia do Palácio de Cristal do Porto, está sentado ao centro… E, com Oliveira Martins, ele é amigo, irmão e mestre, de modo natural: “Estou encantado, pasmado, satisfeito, glorioso, aturdido, regalado, aterrado! Vê que começo esta carta no estilo triunfal de Madame de Sevigné” (1872). Assim elogia “Portugal e o Socialismo”, que Joaquim Pedro escrevera em Espanha. Mas, tempo depois, a propósito de “As Raças Humanas e a Civilização Primitiva”: “Decididamente, Você acaba por saber escrever. Está escritor” (1881). E, dirigindo-se a Eça de Queiroz confessa satisfeito (e com orgulho): “Já leu a ‘História de Portugal’ de Oliveira Martins? Leia. É o que se chama uma revelação. Eu cá, depois de a ler, concluí que até àquele momento não fazia ideia nenhuma da história desta terra. Olhe que é gráfica e pitoresca. O Homem, meu caro Queiroz, é a única coisa realmente a ver que aqui temos” (1880). No entanto, não se trata só de influenciar, mas de ser influenciado, numa amizade biunívoca (como são as amizades verdadeiras), pelo que Antero escreve de Bellevue em 1877: “Conto com V. para me estimular e obrigar até a organizar o meu futuro viver de uma maneira racional. (…) Veja se me ajuda neste propósito, não só com o seu prudente conselho, mas com a sua vontade, a sua autoridade – como um bom tirano”. Recordamos, deste modo, o que noutra carta Antero designará como “uma voz penetrante, como um clarim de combate à vida”.

O TEMPO DE VILA DO CONDE
Da correspondência reunida ressalta a personalidade irradiante do poeta, a sua capacidade de sedução, o carisma, a contradição de sentimentos, a coerência das ideias e do pensamento, o desejo de acção, a incapacidade de viver sob a pressão dos acontecimentos e a vontade de uma ligação constante ao fenómeno social… Nas características complexas da personalidade de Antero de Quental, podemos aperceber-nos do período fecundo passado em Vila do Conde. É uma década em que as queixas do poeta sobre o seu estado de saúde abrandam drasticamente. Antero está junto dos seus amigos mais queridos. Sente-se bem, por poder estar e dialogar com os seus amigos, que se encontram, por razões diversas (profissionais ou familiares), próximo da cidade do Porto. São os dez anos mais calmos e culturalmente mais fecundos em toda a vida. E quando lemos as “Tendências Gerais da Filosofia” (1890) compreendemos uma das linhas fundamentais do seu pensamento: “se pois só a perfeita virtude, a renúncia a todo o egoísmo, define completamente a liberdade, e se a liberdade é a aspiração secreta das coisas e o fim último do universo, concluamos que a santidade é o termo de toda a evolução e que o universo não existe nem se move senão para chegar a este supremo resultado”. Ideia que levou antes Tolstoi, num diálogo de génios, a dizer: “Li Quental. Agradou-me muito! Diz ele ter descoberto que, para além de quaisquer provas irrefutáveis (determinismo) de a vida depender de causas exteriores, a liberdade de facto existe, mas existe apenas para o santo. (…) Estou plenamente de acordo!”.   

                                                                 Guilherme d'Oliveira Martins

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